TSE não tem poderes excessivos; o problema é quem os exerce

O tribunal é infinitamente maior que seu atual presidente
Reflexão sobre por que críticas à gestão de Kassio Nunes não devem levar a reformas que enfraqueçam a Justiça Eleitoral.
Mark

Se o TSE tem os poderes certos, por que tantas pessoas acreditam que ele é excessivamente poderoso?

Mimi

Porque estão vendo a atuação de uma pessoa específica e confundindo o instrumento com quem o maneja. É como culpar a faca pela forma como o cozinheiro a usa.

Luke

Mas espera — o artigo reconhece que Kassio Nunes está abusando do poder. Se o poder pode ser abusado assim, talvez o desenho institucional tenha um problema real.

Mimi

Tem mecanismos de freio. A maioria do plenário pode impor limites. O STF pode intervir. O problema é que esses freios não foram acionados ainda.

Mark

Por que não foram acionados?

Luke

O artigo não explica isso. Ele assume que vão funcionar, mas não diz por que a maioria do plenário não agiu até agora.

Mimi

É uma pergunta justa. Talvez haja divisões políticas dentro do tribunal, ou medo de represálias. O artigo não entra nesse detalhe.

Mark

E quanto à comparação com Alexandre de Moraes em 2022? O artigo diz que era diferente porque protegia as urnas.

Luke

Essa distinção é real, mas também é subjetiva. Quem decide se uma ação protege a democracia ou a desequilibra? Moraes também acreditava estar protegendo.

Mimi

Verdade. Mas havia ataques institucionais concretos contra o TSE naquele momento. Agora não há. É uma diferença de contexto.

Mark

Então o sistema depende de pessoas com bom julgamento ocupando os cargos?

Mimi

Sim. E de colegas dispostos a freá-los quando necessário.

  • TSE concentra funções jurisdicionais, normativas, regulatórias e administrativas constitucionalmente justificadas
  • Ministro Kassio Nunes Marques tem ligações próximas com Flávio Bolsonaro e ex-presidente Jair Bolsonaro
  • Presidente do TSE suspendeu canais ligados ao deputado André Janones usando poder regulatório
  • Kassio Nunes retirou abruptamente processos com maioria contra Flávio Bolsonaro ou a favor de Lula da pauta

O TSE concentra funções jurisdicionais, normativas e administrativas justificadas constitucionalmente para blindar a democracia eleitoral. Ministro Kassio Nunes Marques deveria ter se recusado em processos da disputa presidencial por ligações com Flávio Bolsonaro.

Artigo de opinião defende que o TSE possui poderes institucionais apropriados para proteger eleições, mas critica gestão do presidente Kassio Nunes Marques por falta de imparcialidade.

O Tribunal Superior Eleitoral está novamente no centro de uma controvérsia pública, desta vez acusado de concentrar poderes excessivos e agir como uma força desproporcional dentro do sistema de governo. A crítica é compreensível à primeira vista, mas repousa sobre um diagnóstico equivocado. O desenho institucional do TSE não é o problema. O problema está em quem ocupa a presidência da corte e como escolhe exercer a autoridade que lhe foi confiada.

A Constituição Federal atribuiu à Justiça Eleitoral uma responsabilidade fundamental: garantir que as eleições ocorram com normalidade e legitimidade. Para cumprir essa missão, o tribunal precisava receber um conjunto robusto de instrumentos. Reúne, portanto, competências que abrangem o poder de julgar, de regulamentar, de fiscalizar e de administrar. Essa amplitude não é um desvio ou um excesso. É uma necessidade. Sem esses poderes, o processo eleitoral ficaria vulnerável a interferências maliciosas. O TSE possui exatamente os poderes que deveria possuir.

Mas isso não significa que tudo funcione adequadamente. O ministro Kassio Nunes Marques deveria ter reconhecido sua incompatibilidade para atuar nos processos relacionados à disputa presidencial atual. Suas ligações próximas com Flávio Bolsonaro e com o ex-presidente Jair Bolsonaro são fatos públicos e incontestáveis. Quando a proximidade pessoal compromete a aparência de imparcialidade, o juiz se afasta. Nunes Marques optou por permanecer, e suas decisões recentes revelam o preço dessa escolha.

O padrão de distorções é inquietante. Houve uso tendencioso do poder regulatório sobre plataformas digitais, afetando direitos de terceiros, como na suspensão de canais ligados ao deputado André Janones. Mais grave ainda: o presidente do tribunal ignorou uma decisão do Corregedor-Geral Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, atropelando o juiz natural do processo. Depois, Kassio Nunes passou a usar a pauta de julgamentos de forma estratégica, retirando abruptamente processos que tinham maioria formada contra Flávio Bolsonaro ou a favor de Lula, deixando questões cruciais engavetadas. Uma pauta de tribunal não pode funcionar como um tabuleiro onde o árbitro protege apenas um lado da disputa.

O ponto culminante dessa escalada foi a autonomeação do presidente como juiz supremo da propaganda eleitoral, uma concentração de poder sem fundamento legal. Um tribunal superior é um órgão colegiado. A caneta de uma única pessoa não deveria ditar as regras do jogo. Alguns apontarão uma suposta semelhança com a atuação do ministro Alexandre de Moraes no TSE em 2022, mas os casos são fundamentalmente distintos. Em 2022, a atuação enérgica da corte visava conter ataques institucionais contra o próprio tribunal e contra as urnas eletrônicas. Protegia a legitimidade do processo. Era uma questão de sobrevivência democrática. Aqui, trata-se de algo diferente: uma atuação que desequilibra a competição entre candidatos, usando a máquina para inclinar a balança a favor de um projeto político.

A tentação política agora é pregar reformas drásticas que retirem poderes do TSE ou ataquem a Justiça Eleitoral como um todo. É o velho erro de descartar o bebê junto com a água do banho. Não se pode ceder a esse impulso. As críticas específicas à gestão de Kassio Nunes não devem servir de base para reformas que enfraqueçam a capacidade da Justiça Eleitoral de proteger a democracia. O tribunal é muito maior que seu presidente atual.

Os remédios existem dentro do próprio sistema institucional. Cabe à maioria do plenário do TSE impor limites aos excessos de seu presidente. Se isso não ocorrer, cabe ao Supremo Tribunal Federal intervir, já que as violações afetam garantias constitucionais. O Brasil construiu um sistema eleitoral maduro. O TSE detém os poderes corretos. O que falta neste momento é quem os exerça com a isenção republicana que o cargo exige.

O ministro Kassio Nunes Marques deveria, por obrigação ética, ter-se reconhecido suspeito para atuar nos processos da atual disputa presidencial
— Artigo de opinião
A pauta não pode ser um tabuleiro onde o árbitro joga para proteger apenas um dos lados da disputa
— Artigo de opinião
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