O Brasil se vê diante de uma vulnerabilidade estrutural: no momento em que mais precisa importar trigo, o mercado internacional oferece escassez e preços em ascensão. A queda simultânea da produção doméstica e global — agravada pela guerra no Mar Negro e por tensões geopolíticas — transforma um problema logístico em uma ameaça à cadeia alimentar. É o encontro inoportuno entre a fragilidade interna e a instabilidade do mundo.
Trigo sobe no mercado externo e Brasil gastará mais com importações
confluência perigosa: oferta reduzida, custos em alta, demanda robusta
Por que o Brasil não consegue produzir mais trigo internamente?
Os produtores do Sul, que concentram a produção, recuaram no plantio. Os custos estão altos, o clima não cooperou, e o risco da cultura aumentou. Quando você soma tudo isso, o produtor prefere esperar.
E quanto aos preços que o Brasil vai pagar?
Podem chegar a R$ 1.800 por tonelada no próximo ano, segundo analistas. Hoje estão em R$ 1.400. É um salto que afeta desde a padaria até a indústria de alimentos.
O que está causando essa alta internacional?
Três coisas juntas. A produção mundial caiu. O Mar Negro, que é uma rota crucial, tem problemas de escoamento por causa da guerra. E agora há tensões entre Irã e Estados Unidos que adicionam incerteza.
Quanto tempo isso vai durar?
Enquanto a oferta global não se recuperar e essas questões geopolíticas não se resolverem, os preços devem permanecer elevados. Não é uma situação de curto prazo.
Isso afeta o consumidor brasileiro?
Sim. O trigo é insumo para pão, macarrão, biscoitos. Quando o custo de importação sobe, a cadeia inteira sente. O consumidor final acaba pagando mais.
Há alguma esperança?
Depende de dois cenários: a produção mundial se recuperar na próxima safra, ou as tensões geopolíticas diminuírem e as rotas de exportação se normalizarem. Enquanto isso não acontece, o Brasil está vulnerável.
The Pulse
- Os preços do trigo na Bolsa de Chicago já chegam a US$ 6,78 por bushel e podem ultrapassar US$ 7,19 em 2027, sinalizando que o mercado não oferece trégua.
- A produção mundial recuou 24 milhões de toneladas em um único ciclo, enquanto Rússia e Ucrânia — dois dos maiores exportadores — têm rotas de escoamento bloqueadas pela guerra.
- O Brasil reduziu sua área plantada em 17% e sua produção em 24%, tornando-se ainda mais dependente de importações que devem bater o maior volume desde 2013.
- Analistas projetam que o custo das importações pode chegar a R$ 1.800 por tonelada em 2027, pressionando preços internos e toda a cadeia alimentar que depende do cereal.
O Brasil se vê diante de uma vulnerabilidade estrutural: no momento em que mais precisa importar trigo, o mercado internacional oferece escassez e preços em ascensão. A queda simultânea da produção doméstica e global — agravada pela guerra no Mar Negro e por tensões geopolíticas — transforma um problema logístico em uma ameaça à cadeia alimentar. É o encontro inoportuno entre a fragilidade interna e a instabilidade do mundo.
O Brasil enfrenta uma encruzilhada difícil: precisa importar trigo justamente quando os preços internacionais disparam. A produção mundial caiu de 844 para 820 milhões de toneladas, e os sete maiores fornecedores globais colherão 12% menos que no ciclo anterior. Rússia e Ucrânia, além de produzirem menos, têm suas rotas de exportação bloqueadas pela guerra no Mar Negro. Tensões entre Irã e Estados Unidos adicionam mais incerteza ao cenário.
Na Bolsa de Chicago, o contrato de setembro está em US$ 6,78 por bushel, enquanto o de maio de 2027 já sobe para US$ 7,19. No mercado interno, a tonelada de trigo alcança R$ 1.400 no Sul do país. O analista Vlamir Brandalizze projeta que os custos de importação podem chegar a R$ 1.800 por tonelada no próximo ano — uma perspectiva sombria para um país estruturalmente dependente de compras externas.
O Brasil contribui para sua própria vulnerabilidade. A área plantada recuou para 2 milhões de hectares, queda de 17%, e a produção total despencou 24%. Produtores do Sul, principal região tritícola, frearam o plantio diante de custos elevados, clima desfavorável e riscos crescentes. Com a oferta interna encolhida, as importações devem atingir entre 6,9 e 8 milhões de toneladas — o maior volume desde 2013.
Nos Estados Unidos, outro grande fornecedor, a qualidade da safra também preocupa: apenas 53% da área de trigo de primavera apresenta qualidade boa ou excelente. Para o Brasil, não há alívio à vista enquanto a oferta mundial não se recuperar e as tensões geopolíticas não se dissiparem.
O Brasil enfrenta uma encruzilhada incômoda: precisa importar trigo justamente quando os preços internacionais disparam. A confluência de fatores é desfavorável. A produção mundial caiu de 844 milhões de toneladas na safra anterior para 820 milhões nesta. Os sete maiores fornecedores globais — Estados Unidos, Austrália, Canadá, Argentina, União Europeia, Rússia e Ucrânia — colherão 367 milhões de toneladas, uma queda de 12% em relação ao ciclo anterior. Rússia e Ucrânia, além de produzirem menos, enfrentam dificuldades para exportar. A guerra nas áreas de escoamento do Mar Negro bloqueia rotas. Tensões geopolíticas entre Irã e Estados Unidos adicionam incerteza aos mercados.
Os números na Bolsa de Chicago refletem essa pressão. O contrato de setembro está cotado em US$ 6,78 por bushel (27,2 quilogramas), enquanto o de maio de 2027 sobe para US$ 7,19. Internamente, a tonelada de trigo já alcança R$ 1.400 no Sul do país, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). O analista Vlamir Brandalizze projeta que, com esses gargalos de oferta no mercado internacional, o custo das importações brasileiras poderá chegar a R$ 1.800 por tonelada no próximo ano. É uma perspectiva sombria para um país que depende de compras externas.
O Brasil mesmo contribui para essa vulnerabilidade. A produção doméstica de trigo recuou significativamente. A área plantada caiu para 2 milhões de hectares, uma retração de 17% em relação à safra anterior. A produção total despencou para 6 milhões de toneladas, 24% menos que o ciclo passado. Os produtores do Sul, principal região tritícola do país, frearam o plantio. Custos elevados, clima desfavorável e riscos maiores na cultura do cereal explicam a cautela.
Com a produção interna encolhida, as importações devem atingir 6,9 milhões de toneladas, conforme previsão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Alguns analistas estimam que o volume pode chegar a 8 milhões. De qualquer forma, serão as maiores importações desde 2013. Brandalizze descreve a situação como uma confluência perigosa: oferta reduzida globalmente, custos em alta, e demanda brasileira robusta. O resultado será uma pressão significativa nos preços internos do trigo e, por extensão, em toda a cadeia alimentar que depende do cereal.
Nos Estados Unidos, um dos principais vendedores mundiais, a qualidade do trigo é preocupante. A safra de primavera apresenta qualidade boa e excelente em apenas 53% da área plantada. A safra de inverno mostrou qualidade ruim. Esses problemas de qualidade, somados à redução de volume, intensificam a escassez global. Para o Brasil, a mensagem é clara: não há alívio à vista. Os preços devem permanecer elevados enquanto a oferta mundial não se recuperar e as tensões geopolíticas não se dissiparem.
Notable Quotes
Com esses gargalos de oferta no mercado internacional, o custo das importações poderá chegar a R$ 1.800 por tonelada para os brasileiros no próximo ano— Vlamir Brandalizze, analista