No Brasil, quase meio milhão de armas legalmente adquiridas por caçadores, atiradores e colecionadores circulam com registros vencidos — uma lacuna silenciosa entre a lei e a realidade que o Estado ainda não consegue fechar. O Anuário da Segurança Pública 2026 coloca em evidência uma tensão antiga entre o acesso facilitado a armamentos e a capacidade institucional de rastreá-los. A transferência da fiscalização do Exército para a Polícia Federal, em 2025, sinaliza uma tentativa de reordenamento, mas o tamanho do problema sugere que a burocracia corre atrás de uma história que já avançou longe
Três em cada dez armas de CACs têm registros vencidos, revela Anuário
O Estado não tem pleno conhecimento sobre o paradeiro dessas armas
Por que exatamente 480 mil armas com registros vencidos representam um problema tão grave?
Porque o Estado não sabe onde elas estão. Uma arma legalmente comprada pode ter sido vendida no mercado negro, roubada ou simplesmente desaparecida — e ninguém tem registro disso. É como ter 480 mil caixas pretas em circulação sem saber o conteúdo.
Mas essas armas foram adquiridas legalmente. Não deveria haver algum tipo de rastreamento automático?
Deveria, mas não há. O proprietário original tem a responsabilidade de renovar o registro, e muitos não fazem. Quando a Polícia Federal assumiu o controle em 2025, herdou um sistema já com falhas acumuladas de anos.
Como isso se conecta com o crescimento de armas durante o governo Bolsonaro?
Simples: mais armas registradas significa mais oportunidades para registros vencerem. Em 2022, o Brasil tinha 580 mil novos certificados em um único ano. Agora, três em cada dez estão com documentação expirada. É um efeito cascata.
E se essas armas estão sendo usadas em crimes? Como a polícia saberia?
Não saberia, a menos que a arma fosse apreendida. Por isso o especialista fala em "pleno conhecimento". O Estado perdeu visibilidade. Isso complica investigações, dificulta políticas de controle e deixa um vazio que pode ser preenchido por atividades ilícitas.
O que a mudança para a Polícia Federal em 2025 deveria ter resolvido?
Teoricamente, uma instituição com mais recursos e estrutura deveria modernizar o sistema de registros e fiscalização. Mas o número de armas vencidas sugere que o problema é maior que a capacidade de resposta institucional atual.
Isso é um problema que vai piorar ou melhorar?
Depende de ação política. Se não houver investimento em sistemas de rastreamento e campanhas de renovação de registros, o número tende a crescer. O especialista alertou que o tema saiu do debate público, o que é preocupante.
El Pulso
- Três em cada dez armas de CACs estão com documentação vencida, totalizando 480 mil armamentos cujo paradeiro o Estado não consegue confirmar.
- Sem registros atualizados, abre-se espaço para que essas armas tenham sido vendidas ilegalmente, roubadas ou simplesmente desaparecidas sem qualquer rastro oficial.
- A explosão de novos certificados durante o governo Bolsonaro — mais de 580 mil só em 2022 — criou uma base de proprietários civis que cresceu mais rápido do que a capacidade de fiscalização.
- Em julho de 2025, a Polícia Federal assumiu o controle dos CACs, herdando do Exército um acervo de registros desatualizados e um desafio institucional de grande escala.
- Especialistas alertam que o tema saiu do debate público justamente quando mais exige atenção, enquanto as apreensões de armas pelas polícias estaduais cresceram 5,4% em 2025.
No Brasil, quase meio milhão de armas legalmente adquiridas por caçadores, atiradores e colecionadores circulam com registros vencidos — uma lacuna silenciosa entre a lei e a realidade que o Estado ainda não consegue fechar. O Anuário da Segurança Pública 2026 coloca em evidência uma tensão antiga entre o acesso facilitado a armamentos e a capacidade institucional de rastreá-los. A transferência da fiscalização do Exército para a Polícia Federal, em 2025, sinaliza uma tentativa de reordenamento, mas o tamanho do problema sugere que a burocracia corre atrás de uma história que já avançou longe demais.
Cerca de 480 mil armas pertencentes a Caçadores, Atiradores e Colecionadores — os CACs — circulam pelo Brasil com registros vencidos, segundo o Anuário da Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 23 de julho. O número representa três em cada dez armamentos desse grupo, que controla um arsenal de 1,6 milhão de armas dentro de um universo de 2,1 milhões de registros ativos no país.
David Marques, gerente de programas do Fórum, define a situação como alarmante: na prática, o Estado brasileiro perdeu o rastro de armas adquiridas dentro da lei. Elas podem ter mudado de mãos sem registro, sido roubadas ou simplesmente desaparecido. A rastreabilidade — condição básica de qualquer política de controle responsável — está comprometida em escala significativa.
A fiscalização dos CACs passou do Exército para a Polícia Federal em julho de 2025, quando o país já contava com 1,5 milhão de armas registradas. O crescimento posterior reflete, em parte, as políticas de facilitação ao armamento civil do governo Bolsonaro, que em seu último ano de mandato emitiu mais de 580 mil novos certificados. A nova gestão federal herdou não apenas os números, mas também o acúmulo de documentação desatualizada.
O anuário traz ainda um panorama mais amplo da segurança pública. O Brasil registrou o menor número de assassinatos desde 2012 — 40.775 vítimas, queda de 8% —, mas os feminicídios bateram recorde, com quatro mulheres mortas por dia em média. Violências psicológicas subiram 17%, stalking cresceu 30% e casos de bullying entre jovens aumentaram mais de 60%. A população carcerária chegou a 964 mil detentos, podendo ultrapassar um milhão já em 2027.
O problema das armas com registros vencidos permanece sem solução clara. A mudança institucional de 2025 é um passo, mas o desafio acumulado é maior do que a capacidade de resposta atual — e o debate público, segundo especialistas, ainda não acompanhou a urgência do tema.
Aproximadamente 480 mil armas legalmente registradas estão circulando pelo Brasil com documentação vencida. Esse número representa três em cada dez armamentos pertencentes a Caçadores, Atiradores e Colecionadores — os CACs — e foi revelado pelo Anuário da Segurança Pública 2026, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na quinta-feira 23 de julho. O levantamento oferece um retrato preocupante do controle estatal sobre armas de fogo em poder de civis.
O Brasil possui atualmente 2,1 milhões de registros ativos de armas de fogo distribuídos entre empresas e cidadãos. Desse total, um milhão de certificados pertencem a CACs, que controlam um arsenal de 1,6 milhão de armas. A proporção de registros vencidos entre esse grupo específico sugere uma lacuna significativa na fiscalização. David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, descreve a situação como alarmante. "Na prática, significa que o Estado brasileiro não tem pleno conhecimento sobre o paradeiro dessas armas, que foram adquiridas legalmente", afirma. Essa falta de rastreabilidade abre espaço para cenários problemáticos: as armas podem ter sido vendidas sem registro de transferência, roubadas, furtadas ou simplesmente desaparecidas.
A responsabilidade pela fiscalização dos CACs mudou de mãos em julho de 2025, quando a Polícia Federal assumiu o controle que antes era exercido pelo Exército. Naquele momento, havia 1,5 milhão de armas registradas no país. O crescimento subsequente reflete, em parte, as políticas de facilitação de acesso a armamentos implementadas durante o governo de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022. No último ano daquele mandato, o Brasil registrou mais de 580 mil novos certificados de armas, um pico que contribuiu para a atual base de proprietários civis.
Marques ressalta que o tema saiu do centro do debate público nos últimos anos, apesar de sua importância crítica. "É uma política que precisa ter atenção. Ainda é um aspecto muito importante para podermos ter uma política de controle mais responsável com relação a esse armamento de civis", observa. A questão ganha relevância quando considerada junto a outros dados do mesmo anuário: as polícias estaduais apreenderam 108.786 armas ao longo de 2025, um aumento de 5,4% comparado a 2024.
O Anuário de 2026 também revelou tendências mais amplas na segurança pública brasileira. O país registrou o menor número de assassinatos desde 2012, quando o Fórum começou seus levantamentos — 40.775 vítimas, queda de 8% em relação ao ano anterior. A taxa de mortes violentas caiu para 19,1 por 100 mil habitantes, a menor já registrada. Porém, esse progresso geral mascara disparidades preocupantes. Os feminicídios atingiram recorde, com quatro mulheres mortas por dia em média. Outros crimes contra mulheres também cresceram: violências psicológicas subiram 17%, stalking aumentou 30%, descumprimento de medidas protetivas cresceu 17%. O Brasil registrou três tentativas de feminicídio para cada crime consumado.
Geograficamente, as dez cidades mais violentas do país ficam no Nordeste, com metade na Bahia. Maranguape, no Ceará, lidera o ranking pelo segundo ano consecutivo e foi o único município a superar a taxa de 100 mortes violentas por 100 mil habitantes. Santa Catarina emergiu como o estado com a menor taxa de mortes violentas — 7,6 por 100 mil habitantes — deslocando São Paulo, que ocupava essa posição desde 2014.
Outros indicadores do anuário mostram pressões crescentes em diferentes frentes. O número de pessoas no sistema prisional cresceu 6% e chegou a 964 mil detentos. Se a tendência se mantiver, o Brasil pode ultrapassar a marca de um milhão de presos já em 2027. Registros de produção, posse ou distribuição de conteúdo de abuso sexual infantil cresceram 25%. Casos de bullying e cyberbullying entre jovens subiram mais de 60% após a criação de tipo penal específico em 2024. Ao mesmo tempo, a quantidade de adolescentes cumprindo medidas socioeducativas caiu 54% em nove anos, chegando a 12,2 mil jovens, majoritariamente meninos (93%), negros (74%) e entre 16 e 18 anos (76%).
O problema das armas com registros vencidos permanece como uma questão em aberto. Sem atualização de documentação, o Estado perde a capacidade de rastreamento e controle. A transferência de responsabilidade para a Polícia Federal em 2025 representa uma tentativa de fortalecer a fiscalização, mas o acúmulo de registros desatualizados sugere que o desafio é maior que a capacidade institucional atual de resposta.
Citas Notables
Na prática, significa que o Estado brasileiro não tem pleno conhecimento sobre o paradeiro dessas armas, que foram adquiridas legalmente— David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
É uma política que precisa ter atenção. Ainda é um aspecto muito importante para podermos ter uma política de controle mais responsável com relação a esse armamento de civis— David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública