Treinador espanhol na Índia é sócio em operação de R$ 468 mi investigada pelo MPF

Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo
Reação do treinador espanhol ao ser confrontado com sua própria assinatura em documentos da empresa.

No cruzamento entre o mundo do futebol e o sistema financeiro brasileiro, uma investigação do Ministério Público Federal expõe como uma pequena distribuidora de alimentos paulista — com capital declarado de menos de um milhão de reais — teria servido de veículo para movimentar quase meio bilhão de reais entre o Banco Master e fundos da Reag. O nome de um treinador espanhol que trabalha na Índia aparece nos registros da empresa, revelando como identidades reais podem ser instrumentalizadas em arquiteturas financeiras opacas. O caso ilumina uma questão mais ampla sobre a fragilidade dos mecanismos de controle quando o dinheiro circula velozmente entre fundos, ativos sem valor e certificados bancários, deixando rastros que só a investigação paciente consegue decifrar.

  • Uma empresa com capital de R$ 900 mil recebeu empréstimo de R$ 468,8 milhões e transferiu quase todo o valor para um fundo de investimento em questão de dias — uma velocidade que acendeu o alerta dos investigadores.
  • O sócio registrado da empresa é um treinador de futebol espanhol radicado nos Emirados Árabes Unidos, que afirma desconhecer completamente a companhia brasileira e ficou alarmado ao saber que sua assinatura constava em documentos oficiais.
  • Ativos praticamente sem valor de mercado — papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina — foram reavaliados em até 10.502.205% acima dos parâmetros reais, sugerindo manipulação artificial para inflar o patrimônio dos fundos.
  • O ciclo se fechava com o retorno dos recursos ao Banco Master via compra de CDBs, configurando o que os investigadores descrevem como um possível esquema estruturado de fraude financeira.
  • O advogado da empresa apresentou versões contraditórias sobre o destino do empréstimo, enquanto o contador que constituiu a empresa em 2012 afirma ter saído no ano seguinte, deixando lacunas sobre quem efetivamente controlava a operação.

Um treinador de futebol espanhol que atua na Índia aparece como sócio de uma pequena distribuidora de alimentos paulista envolvida em uma operação financeira de quase R$ 500 milhões, agora investigada pelo Ministério Público Federal. A BMQ Mirage, com capital declarado de apenas R$ 900 mil, recebeu um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master em junho de 2024 e transferiu cerca de R$ 444 milhões para um fundo administrado pela Reag — movimento que despertou suspeitas de fraude estruturada.

Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United na Super League indiana, negou categoricamente qualquer vínculo com a empresa brasileira. Ao ser confrontado com sua própria assinatura em uma procuração usada na constituição da companhia, reagiu com alarme: "Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo." O contador que o representou na criação da empresa em 2012 afirma ter saído no ano seguinte e descreve um projeto no setor sucroalcooleiro que nunca saiu do papel.

O contrato de crédito previa explicitamente que ao menos 90% do empréstimo fosse depositado em fundo da Reag. O advogado da empresa apresentou versões contraditórias — primeiro disse que o empréstimo foi quitado, depois que o contrato foi desfeito e a operação nunca se concretizou. Sobre o papel do treinador, afirmou surpresa com a negativa pública, dizendo manter contato regular com ele.

A investigação da Compliance Zero identificou um padrão sistemático: o Banco Master concedia empréstimos a empresas que reaplicavam os recursos em fundos da Reag, onde ativos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina — de valor ínfimo — eram reavaliados de forma artificial. Em um dos casos, a valorização chegou a 10.502.205% acima de qualquer parâmetro realista. Ao final do ciclo, os recursos retornavam ao banco via CDBs, completando o que os investigadores descrevem como um possível esquema de fraude financeira estruturada.

Um treinador de futebol espanhol que trabalha na Índia aparece nos registros de uma pequena empresa brasileira envolvida em uma operação financeira de quase meio bilhão de reais, agora sob investigação do Ministério Público Federal. A BMQ Mirage, registrada em São Paulo como distribuidora de alimentos com capital declarado de apenas R$ 900 mil, recebeu um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master em junho de 2024 e, logo em seguida, transferiu aproximadamente R$ 444 milhões para um fundo de investimento administrado pela Reag — uma operação que despertou suspeitas de fraude estruturada.

Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United na Super League da Índia, consta como sócio da BMQ Mirage nos registros da empresa. Quando procurado, negou categoricamente qualquer envolvimento com a companhia brasileira. "Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol", respondeu. Os dados cadastrais indicam que ele é espanhol, reside nos Emirados Árabes Unidos e possui um CPF brasileiro — um documento que o técnico afirma não reconhecer. A situação se complicou quando investigadores obtiveram a procuração usada na constituição da empresa. Ao ser confrontado com sua própria assinatura no documento, Benali Hammou reagiu com alarme: "Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo".

O contador João Fernando Machado de Miranda, que atuou como procurador do técnico quando a empresa foi criada em 2012, ofereceu uma narrativa diferente. Segundo ele, saiu da companhia em 2013 e participou de um aporte inicial de R$ 500 mil feito pelo treinador espanhol. Miranda afirmou que houve contato direto com Benali Hammou naquele período e que a empresa foi constituída para atuar no setor sucroalcooleiro — um projeto que nunca saiu do papel.

O contrato de crédito entre a BMQ Mirage e o Banco Master continha uma cláusula explícita: pelo menos 90% do empréstimo deveria ser depositado em um fundo administrado pela Reag. O advogado Pedro Jaguaribe, responsável pela defesa da empresa, apresentou versões conflitantes sobre o que aconteceu. Primeiro disse que o empréstimo havia sido quitado. Depois afirmou que o contrato foi desfeito e a operação nunca se concretizou. Quando questionado sobre o aporte no fundo da Reag, classificou-o como uma "questão contábil" e sustentou que não houve investimento efetivo — uma posição que alinha com a linha de investigação do MPF. Sobre o papel do treinador espanhol, Jaguaribe declarou surpresa com a negativa pública de Benali Hammou, dizendo: "Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro".

A investigação conduzida pela empresa Compliance Zero revelou um padrão sistemático. O Banco Master concedia empréstimos a empresas que, em seguida, reaplicavam os recursos em fundos da Reag. O rastreamento do fluxo financeiro mostra transferências rápidas entre fundos em curtos intervalos de tempo, envolvendo ativos de baixa liquidez — papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina que tinham pouco ou nenhum valor de mercado. Durante essas operações, esses papéis passavam por reavaliações sucessivas que os inflavam enormemente. Em um dos casos analisados, a valorização chegou a 10.502.205% acima de qualquer parâmetro de mercado realista. Ao final do ciclo, os recursos retornavam ao banco através da compra de CDBs, encerrando uma sequência que os investigadores descrevem como um possível esquema estruturado de fraude financeira.

O caso integra um inquérito mais amplo que apura a concessão sistemática de crédito seguida de reaplicação dos recursos em fundos específicos, com indícios de manipulação artificial de valores de ativos. A operação envolvendo a BMQ Mirage e o Banco Master é apenas um dos casos analisados nessa investigação maior, que busca desvendar como recursos foram movimentados através de uma rede de empresas e fundos de investimento, gerando ganhos fictícios que nunca existiram de fato.

Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol
— Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United
Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro
— Pedro Jaguaribe, advogado da BMQ Mirage
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que um treinador de futebol na Índia apareceria como sócio de uma empresa brasileira de alimentos?

Model

Essa é a pergunta central. Ele nega qualquer envolvimento, mas sua assinatura está em documentos de constituição da empresa. Pode ser que tenha sido usado como sócio de fachada sem saber, ou que esteja mentindo — o próprio advogado da empresa diz que fala com ele regularmente.

Inventor

E a operação financeira em si — o que torna isso suspeito?

Model

Uma empresa com capital de R$ 900 mil recebe R$ 468 milhões emprestados. Isso já é estranho. Mas o contrato obrigava que 90% fossem depositados em um fundo específico. Parece menos um empréstimo real e mais um mecanismo para movimentar dinheiro.

Inventor

E esses ativos que foram reavaliados — o que eram?

Model

Papéis do Banco do Estado de Santa Catarina, que já tinha falido. Basicamente lixo financeiro. Mas quando passavam por essas reavaliações sucessivas, seus valores subiam milhões de por cento. Em um caso, 10 milhões de por cento acima do valor real.

Inventor

Como isso funciona na prática?

Model

O dinheiro entra em um fundo, é transferido para outro fundo, os papéis são reavaliados para cima, transferidos novamente. Tudo muito rápido. No final, o dinheiro volta ao banco como se fosse um investimento legítimo. É um ciclo fechado que gera ganhos fictícios.

Inventor

E o treinador — ele ganhou algo com isso?

Model

Não sabemos. Ele nega saber de tudo. Mas seu nome está lá como sócio, e o contador diz que ele fez um aporte inicial de R$ 500 mil. Se ele sabia ou não, é o que o MPF está tentando descobrir.

Contact Us FAQ