Vinte anos após os originais, o remake de Tony Hawk's Pro Skater 1+2 chega não apenas como atualização gráfica, mas como ato de memória cultural — especialmente para o Brasil, onde a presença de 'Confisco', do Charlie Brown Jr., na trilha sonora evoca a figura de Chorão, vocalista que foi símbolo da fusão entre skate, música e identidade periférica. O jogo carrega, em seus dois minutos de sessão e em cada queda repetida, a filosofia que sempre esteve no coração do skate: tentar, errar e recomeçar é o próprio caminho.
Tony Hawk's Pro Skater 1 + 2 brilha com a essência do Charlie Brown Jr.
Tentar, cair, tentar novamente — é assim que o skate funciona
Por que usar as letras do Chorão como fio condutor de uma análise de videogame?
Porque Chorão não era só um vocalista. Ele era parte da estrutura do skate brasileiro. Mais de 30 letras dele falam de skate. Usar essas letras não é uma gimmick — é reconhecer que a música e o esporte estão entrelaçados na mesma cultura.
O jogo é fácil ou difícil?
Parece fácil no começo. Dois botões, manobras simples. Mas quando você tenta completar os desafios, percebe que exige empenho real. É como aprender skate de verdade — parece simples até você tentar.
O que mais frustra no jogo?
A ferramenta de criação de pistas. Os menus são extremamente problemáticos. Você quer criar algo, mas gastar tempo procurando peças e posicionando tudo é quase impossível. Pena, porque a ideia é ótima.
E o multiplayer online?
Rápido, viciante, funciona bem em loop. Mas você está jogando com estranhos. Não há interação real. E sem cross-play, seus amigos que têm o jogo em outra plataforma não conseguem jogar com você.
Qual é o verdadeiro valor deste remake?
Ele entende que skate é sobre tentar, cair e tentar novamente. E que a cultura do skate é diversa — não é só rock americano, é rap, é pagode, é tudo junto. O jogo reflete isso.
Chorão teria gostado?
Sim. Ele construiu um skate park em Santos. Ele amava o esporte. O remake captura essa paixão — não só pela presença de uma música dele, mas pela forma como o jogo respeita a essência do skate.
O Pulso
- A inclusão de 'Confisco' na trilha sonora não é detalhe menor — é um reconhecimento de que Chorão e o Charlie Brown Jr. ajudaram a moldar a cultura do skate brasileiro de forma insubstituível.
- O jogo seduz pela simplicidade dos controles, mas logo revela sua exigência real: dominar combos e cumprir objetivos demanda repetição intensa, e as pistas novas só se abrem para quem persiste.
- A ausência de cross-play e de interação genuína entre jogadores online esvazia parte do potencial social do multiplayer, tornando o desafio entre amigos um luxo caro a R$ 199 por cabeça.
- O modo de criação de pistas já movimenta uma comunidade ativa, mas menus confusos e a impossibilidade de adicionar desafios às fases customizadas limitam o que poderia ser uma ferramenta poderosa.
- O remake aponta para um futuro onde a nostalgia e a renovação coexistem — novos skatistas como Letícia Bufoni dividem espaço com lendas dos anos 1990, e a trilha sonora abraça vozes do rap australiano ao persa-neozelandês.
Vinte anos após os originais, o remake de Tony Hawk's Pro Skater 1+2 chega não apenas como atualização gráfica, mas como ato de memória cultural — especialmente para o Brasil, onde a presença de 'Confisco', do Charlie Brown Jr., na trilha sonora evoca a figura de Chorão, vocalista que foi símbolo da fusão entre skate, música e identidade periférica. O jogo carrega, em seus dois minutos de sessão e em cada queda repetida, a filosofia que sempre esteve no coração do skate: tentar, errar e recomeçar é o próprio caminho.
O remake de Tony Hawk's Pro Skater 1+2 chegou em setembro de 2020 trazendo nostalgia dos originais de 1999 — e, para o público brasileiro, um presente inesperado: 'Confisco', do Charlie Brown Jr., na trilha sonora. A escolha não é acidental. Chorão, morto em 2013, foi uma das vozes mais representativas da intersecção entre skate, música e cultura popular no Brasil, e sua presença no jogo vai além de uma única faixa.
O elenco de skatistas inclui nomes clássicos como Tony Hawk, Chad Muska e Elissa Steamer, mas também incorpora Letícia Bufoni, referência do skate street contemporâneo. Criar um personagem próprio é possível, mas a ferramenta de customização é limitada. A escolha de estilo — street, vertical ou freestyle — implica decisões reais de atributos, como em um RPG, e não há caminho fácil.
A estrutura do jogo preserva o que funcionava nos originais: sessões de dois minutos, objetivos claros, controles diretos. Apertar um ou dois botões já inicia manobras. Mas os desafios exigem muito mais do que isso. A progressão é lenta e deliberada — novas pistas só se abrem após completar objetivos nas anteriores. Cair, refazer, tentar de novo: é a lógica do skate traduzida em mecânica de jogo.
A trilha sonora equilibra clássicos dos originais — Goldfinger, Dead Kennedys, The Suicide Machines — com artistas contemporâneos de origens diversas, ecoando a multiplicidade musical que o Charlie Brown Jr. sempre representou ao transitar entre rock, rap, pagode e MPB. Um detalhe sutil reforça essa atmosfera: ao errar uma manobra, um efeito de glitch e um som de rebobinar surgem na tela, como se a sessão fosse um vídeo sendo gravado — referência direta à cultura das revistas de skate que Chorão celebrava em suas letras.
O multiplayer online oferece sete modos e funciona em loop contínuo, mas ressente da falta de cross-play e de interação real entre jogadores. O modo de criação de pistas já atrai uma comunidade ativa, embora menus confusos e a impossibilidade de adicionar desafios às fases customizadas reduzam seu potencial. Ainda assim, o engajamento da comunidade é sinal do amor duradouro ao skate virtual — o mesmo amor que mantém viva a memória de Chorão entre seus fãs.
O remake de Tony Hawk's Pro Skater 1 + 2 chegou em setembro de 2020 carregando a nostalgia dos primeiros jogos da série, mas para o público brasileiro trouxe algo a mais: a presença de Confisco, do Charlie Brown Jr., na trilha sonora. Essa escolha não é casual. Chorão, vocalista da banda que morreu em 2013, foi figura central na cultura de skate do Brasil, e sua influência permeia o jogo de formas que vão além de uma única música.
O remake oferece 22 skatistas profissionais já conhecidos dos jogos originais — Chad Muska, Elissa Steamer, Tony Hawk — mas também incorpora novos nomes da geração atual, como Letícia Bufoni, uma das principais referências do skate street contemporâneo. Ao lado deles, é possível criar um personagem próprio, embora a ferramenta de criação seja limitada e frustrante em seus detalhes. A decisão de qual caminho seguir — street, vertical ou freestyle — exige sacrifícios reais: gastar pontos de atributo em equilíbrio, velocidade ou outras habilidades, como em um RPG. Não é uma escolha trivial.
O jogo mantém a estrutura dos originais de 1999: sessões curtas de dois minutos, objetivos claros nas pistas, controles diretos que não exigem o uso dos analógicos. Apertar um ou dois botões é suficiente para começar a fazer manobras. Mas quando você abre o menu de desafios, percebe que a pontuação mínima está longe do seu alcance. Executar todas as missões exige empenho real. Depois de se adaptar a esse estilo mais simples de controle, o jogo revela seu verdadeiro propósito: empurrar o jogador a melhorar combos e sequências. As quedas são constantes. O erro é parte do processo. Refazer a mesma fase quantas vezes forem necessárias se torna viciante, especialmente porque novas pistas só se abrem após completar objetivos nas fases já disponíveis. Essa progressão lenta e deliberada reflete a essência da cultura do skate: tentar, cair, tentar novamente.
A trilha sonora é um aspecto tão importante quanto a jogabilidade. O remake traz de volta clássicos dos jogos originais — Superman do Goldfinger, New Girl do The Suicide Machines, Police Truck do Dead Kennedys — mas também absorveu algo da diversidade musical que o Charlie Brown Jr. representava. A banda transitava entre rock, rap, pagode, emo e MPB. O jogo reflete isso ao incluir artistas como os rappers australianos Backchat e Baker Boy, e a rapper persa-neozelandesa Chaii. Não é apenas Confisco que marca presença brasileira; é uma abertura para a multiplicidade sonora que o skate contemporâneo representa.
Um detalhe poético permeia a experiência: quando você cai ou erra uma manobra, um efeito de glitch aparece combinado com um som de rebobinar. É como se a sessão fosse um take de vídeo sendo gravado, e o jogador fosse aquele amigo filmando atrás da linha de manobras, esperando pelo melhor ângulo. Quando cai, a gravação volta para retomar a manobra. Algo sutil que evoca a cultura das revistas como a Trasher, que Chorão mencionava em suas letras — aquela vitrine onde skatistas pareciam super-heróis voando nas pistas.
O modo multiplayer online traz sete modos diferentes, incluindo Grafite e desafios de pontuação e combo. As partidas são rápidas e funcionam em um esquema de loop: uma vez dentro de uma sala, o jogo arranja novos jogadores e você pode ficar ali por horas. Mas há um problema: não há interação real entre os jogadores, e o jogo ainda não oferece cross-play. Jogar com desconhecidos não é a mesma coisa que desafiar aqueles amigos que você conhece, especialmente quando cada um precisa gastar R$ 199 no lançamento.
O modo de criação de pistas permite construir circuitos do simples ao impossível, de um skate park padrão a uma montanha-russa. Mas os menus são problemáticos, e encontrar peças, editá-las e posicioná-las exige paciência extrema. A comunidade já está criando pistas customizadas — algumas extremamente difíceis, outras com paisagens legais, algumas até meio malucas. O problema é que essas pistas criadas não permitem adicionar desafios ou segredos, funcionando apenas como locais para uma passada rápida. Ainda assim, o fato de membros ativos da comunidade já estarem criando essas fases é um sinal do amor eterno ao skateboard virtual. E se você conhece a cena de modders de Tony Hawk, sabe que são capazes de coisas incríveis.
O que mantém a paixão do público por Tony Hawk's Pro Skater mesmo depois de 20 anos é exatamente esse amor ao skate — nas ruas e agora revigorado no videogame. É o mesmo amor que mantém viva a memória de Chorão entre seus fãs, mesmo após sua morte. O remake não apenas atualiza gráficos e mecânicas; absorve a essência de uma cultura que segue evoluindo, tentando, caindo e tentando novamente.
Citações Notáveis
Cada escolha, uma renúncia, isso é a vida— Charlie Brown Jr., citado como guia para as decisões do jogo
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir— Charlie Brown Jr., refletindo a filosofia do skate no remake