Toda eleição tem um Enéas e um Padre Kelmon

Nem o silêncio cabia no horário eleitoral
Referência ao absurdo da campanha de 2022, quando até o silêncio foi vítima da lógica do tempo de TV.
Mark

Por que essa coluna escolhe focar em candidatos excêntricos em vez de debater propostas sérias?

Mimi

Porque as propostas excêntricas revelam algo sobre como a política funciona quando não há filtros. Grassi não é uma aberração; ele é sintomático.

Luke

Mas quantos votos Grassi realmente recebeu? A coluna não diz. Sabemos que Tiririca teve 1,3 milhão, mas Grassi?

Mimi

Ótima pergunta. A coluna trata a excentricidade como fenômeno cultural, não como ameaça eleitoral real.

Mark

E quanto aos nove candidatos com mandado de prisão? Isso é verificado ou é estimativa?

Luke

A coluna não especifica a fonte. Parece ser dado confirmado, mas merecia contexto: quantos foram presos depois? Quantos tiveram mandados suspensos?

Mimi

O ponto não é o número exato. É que a barreira para candidatar é tão baixa que até isso é possível.

Mark

Então a coluna está argumentando que o sistema eleitoral é frágil?

Mimi

Não exatamente. Está dizendo que a excentricidade é característica permanente, não bug. É feature.

Luke

Mas há diferença entre candidatos memoráveis e candidatos que violam lei. A coluna mistura os dois.

Mimi

Verdade. Enéas era excêntrico mas não criminoso. Padre Kelmon era improvável mas não investigado. Hoje os dois tipos aparecem juntos.

Mark

E o que muda isso?

Luke

Nada, aparentemente. O eleitor segue tendo opção. Só que agora a opção inclui gente com processo.

  • Candidato Democrata propõe toxina botulínica para mulheres de baixa renda como política de autoestima
  • Nove candidatos com mandado de prisão disputam a eleição de 2026
  • Tiririca recebeu 1,3 milhão de votos em sua candidatura presidencial
  • Padre Kelmon surgiu do nada em 2022 e impactou os debates presidenciais

Candidato Democrata propõe oferecer toxina botulínica a mulheres de baixa renda como política pública de autoestima. Eleição de 2026 reúne propostas criativas: extinção do STF, salário mínimo de R$ 7.500, bomba atômica e nove candidatos com mandado de prisão.

Colunista da Folha critica propostas absurdas de candidatos presidenciais, como Botox para mulheres pobres, destacando a tradição de candidaturas excêntricas na história eleitoral brasileira.

Wilson Grassi Júnior, candidato à Presidência pela legenda Democrata, apresentou uma proposta que merecia atenção: distribuir toxina botulínica para mulheres de baixa renda como política pública de autoestima. Não se trata de brincadeira de clínica estética. Grassi insiste que o projeto é sério. Segundo ele, o tratamento não visa eliminar rugas, mas restaurar a confiança das mulheres — uma injeção de autoestima a cada seis meses, indefinidamente. Na visão do candidato, uma testa lisa permitiria que as mulheres trabalhassem melhor, produzissem mais e escapassem de relacionamentos destrutivos. Homens, aparentemente, envelhecerão sem assistência estatal.

A lógica inverte a causalidade de forma notável. Mulheres acumulam rugas por razões que Grassi não menciona: pobreza, violência doméstica, transporte precário, dupla jornada de trabalho, meses de espera por uma consulta ginecológica. O candidato propõe resolver o problema pelo caminho oposto — deixar as causas intactas e alisar a superfície. Também apresentou plano para reformular o Supremo Tribunal Federal, substituindo juízes por profissionais de outras áreas: padeiros, professores, caixas de banco, empresários, cabeleireiros. O Supremo do Povo, como chamou.

Grassi não é caso isolado. A eleição de 2026 reúne um acervo impressionante de soluções criativas para salvar o país. Há propostas para abolir a Consolidação das Leis do Trabalho, extinguir o STF, elevar o salário dos parlamentares para um milhão de reais mensais, expropriar bilionários, fixar o salário mínimo em sete mil e quinhentos reais, construir uma bomba atômica, transformar o governo numa versão política do reality show BBB. O pluralismo, dizem, é uma das vantagens brasileiras.

Nove candidatos com mandado de prisão ativo disputam a eleição. Vinte se apresentam como versões de Bolsonaro — sem contar os da família: filhos, mulher, ex-mulher, primos, até um papagaio. Oito outros se posicionam como Lulas, detalhe curioso: um deles, o "Lula do Bem", é bolsonarista convicto. Plínio Trump encarna a figura do ex-presidente americano. Neguinho Celular, o "bolsolulista" que em 2020 apareceu num santinho entre Lula e Bolsonaro sob o lema "juntos somos mais fortes", abandonou a conciliação nacional mas não a política — concorre a deputado federal pela Bahia.

Essa excentricidade não é fenômeno novo. Enéas Carneiro já se foi, mas "Meu Nome é Enéas" permanece vivo no imaginário eleitoral. Eyeyeymael, candidato democrata cristão perene, deixou um jingle que teima em ecoar na memória. Levy Fidelix carregou seu Aerotrem por quatorze candidaturas sem nunca conseguir embarcar. Tiririca provou, com seus um milhão e trezentos mil votos, que pior fica. Padre Kelmon, surgido do nada em 2022, incendiou os debates presidenciais com sua presença improvável.

Em 2022, Lourdes Melo, candidata ao governo do Piauí, criou uma obra-prima involuntária no horário eleitoral. Aparecia com a boca coberta por fita adesiva enquanto uma voz anunciava sua intenção de fazer um minuto de silêncio — "mas só temos 57 segundos". Nem o silêncio cabia no tempo permitido.

O eleitor não pode reclamar de falta de opção. O desafio agora é manter a sanidade — e, aparentemente, a testa lisa.

O projeto é muito sério. A gente não vai estar tratando ruga, a gente vai estar tratando autoestima.
— Wilson Grassi Júnior, candidato à Presidência
Pior fica
— Conclusão sobre Tiririca e sua votação expressiva
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