Stuhlberger teme cenário de 'república bananeira' se Lula vencer por margem apertada

Não sei precificar dólar, câmbio e bolsa se o Lula ganhar por uma pequena diferença
Stuhlberger expressa a incerteza que paralisa até gestores experientes diante de um cenário de vitória apertada.

Stuhlberger teme impossibilidade de precificar ativos em caso de vitória por margem mínima, citando risco de crise institucional de duas a três semanas. Gestor aponta transição do Brasil para fase de populismo eleitoral com propensão a maior gasto público, inflação e pressão nas taxas de juros.

  • Stuhlberger teme vitória de Lula por margem mínima (51% a 49%)
  • Prevê possível crise institucional de duas a três semanas após resultado
  • Aponta transição do Brasil para fase de populismo eleitoral com maior gasto público
  • Landau argumenta que ciclo econômico importa mais que ideologia governamental

CEO da Verde Asset expressa preocupação com cenário de vitória apertada de Lula, comparando risco a 'banana republic' e alertando para imprevisibilidade dos mercados financeiros.

Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde e executivo-chefe da Verde Asset, saiu de um painel na Expert XP 2022 com uma preocupação que o mantém acordado à noite: o que acontece aos mercados brasileiros se Lula vencer por apenas dois pontos percentuais?

Numa eleição polarizada onde as pesquisas apontam para um resultado potencialmente apertado — algo como 51% contra 49% — Stuhlberger teme um cenário que batizou de "república bananeira". Não é apenas uma metáfora. Ele fala de uma crise institucional que poderia irromper duas ou três semanas após o resultado, um período de turbulência para o qual, em sua avaliação, o mercado financeiro não está preparado. "Não sei precificar dólar, câmbio e bolsa se o Lula ganhar por uma pequena diferença de margem", disse ele, expondo a incerteza que paralisa até os profissionais mais experientes.

O cenário que o preocupa não é novo nas ameaças políticas brasileiras. Stuhlberger aponta para o que chama de "explosividade" do momento — as ameaças constantes do presidente em torno da sucessão, o noticiário carregado de tensão. Como gestor, ele reconhece que risco traz oportunidades, mas confessa que não consegue se posicionar com confiança: não fica comprado em pré-fixados e vendido em câmbio por medo dessa ruptura institucional que poderia se desenrolar.

Sua análise sobre o que viria depois é igualmente sombria. Stuhlberger observa que o Brasil passou por reformas estruturantes — o teto de gastos, a reforma trabalhista — mas entrou numa fase que ele chama de populismo eleitoral. Se Lula vencer, como as pesquisas sugerem, o governo tenderá a gastar mais. Isso pressionará a inflação e as taxas de juros. A pergunta que o deixa sem resposta é simples e devastadora: qual classe de ativos se comporta bem quando um país vira populista? "No último ano de mandato é uma coisa, mas se for em quatro anos de governo? É difícil dizer, não tem clarividência."

Mas nem todos no painel compartilham dessa visão apocalíptica. João Landau, sócio fundador e gestor macro da Vista Capital, oferece uma perspectiva diferente. Para ele, como pessoa física, as eleições importam muito. Como gestor de recursos, porém, são secundárias. Ele tenta pensar como um investidor estrangeiro olharia para o Brasil. E o que esse investidor vê é menos drama ideológico e mais ciclo econômico.

Landau aponta para um fato que desmente a narrativa de que a direita é mais responsável fiscalmente: no governo Lula, o Brasil cresceu mais; no de Bolsonaro, as contas públicas pioraram, com o imposto inflacionário mascarando parte da deterioração. "O gringo fala: 'eu conheço emergente e o Brasil nunca é nota 10 e quando a popularidade está sofrendo vai gastar o fiscal'. Ele olha e não vê grandes diferenças."

Para Landau, o que importa mesmo é o ciclo econômico, não a cor do governo. Ele vê oportunidades onde Stuhlberger vê risco. O segmento de commodities está, em sua visão, "grosseiramente" subinvestido. Os leilões de partilha dos próximos cinco ou seis anos vão atrair investimento pesado para o setor. Petróleo segue como posição relevante de seu fundo pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, mesmo com o risco de uma pequena recessão global. Metais, porém, o deixam mais pessimista — ele está vendido em minério de ferro.

O debate entre os dois gestores captura a tensão real do momento: há quem veja a eleição como um ponto de ruptura institucional, e há quem a veja como um episódio dentro de um ciclo maior que o transcende. O mercado, por enquanto, segue esperando pelo resultado.

Tenho dado o nome hipotético de 'república bananeira' a uma crise de duas a três semanas depois, e acho que o mercado não está preparado para esse tipo de risco
— Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset
O que importa é o ciclo econômico
— João Landau, sócio fundador da Vista Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando você diz "república bananeira", está falando de colapso institucional ou de volatilidade de mercado?

Model

Dos dois. A volatilidade é o sintoma visível, mas o medo é que uma vitória muito apertada deixe em aberto a possibilidade de contestação, de ruptura. Não é só o dólar subir — é não saber se há regras do jogo.

Inventor

Mas Landau parece dizer que isso não importa tanto quanto você pensa.

Model

Ele tem razão em parte. Se você é um investidor estrangeiro vendo o Brasil de longe, ideologia é menos importante que fluxo de caixa. Mas se você está aqui, vendo as ameaças diárias, é difícil ignorar.

Inventor

Então qual é a aposta correta?

Model

Não há aposta correta. Stuhlberger admite isso — não consegue precificar. Landau aposta em commodities porque acredita que o ciclo econômico vence a política. Mas são apostas diferentes sobre a mesma realidade.

Inventor

E se ambos estiverem certos?

Model

Então temos volatilidade alta, oportunidades em setores específicos, e muito risco político que não desaparece. O Brasil fica caro para quem quer segurança e interessante para quem aguenta incerteza.

Inventor

O que você acha que vai acontecer?

Model

Ninguém sabe. É por isso que Stuhlberger fica acordado à noite.

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