Cientistas criam célula sintética que se alimenta, cresce e se reproduz

A vida não é binária, e não existe uma linha clara
A bióloga Kate Adamala explica por que hesita em definir suas células sintéticas como vivas.

Na fronteira entre a química e a biologia, pesquisadores da Universidade de Minnesota criaram células sintéticas capazes de se alimentar, crescer, se reproduzir e competir — sem que se possa dizer com certeza se estão vivas. A SpudCell, batizada pela bióloga Kate Adamala, não foi patenteada, mas aberta à ciência coletiva, como um convite à humanidade para repensar o que entende por vida. Quanto mais perto chegamos de fabricá-la, menos nítida se torna a linha que acreditávamos separar o vivo do inerte.

  • Pela primeira vez, uma célula construída em laboratório reúne alimentação, crescimento, reprodução e competição — funções que antes só existiam juntas na natureza.
  • A descoberta desestabiliza conceitos fundamentais da biologia: se algo faz tudo o que uma célula faz, mas não sabemos se é vivo, o que exatamente é a vida?
  • A equipe recusou patentes e fundou uma organização sem fins lucrativos, apostando que centenas de cientistas e centenas de milhões de dólares serão necessários para levar a SpudCell adiante.
  • Versões mutantes já competem e superam as células originais em laboratório, sugerindo que um processo semelhante à evolução pode ser induzido artificialmente.
  • As limitações ainda são reais — a célula não produz seus próprios ribossomos e sobrevive apenas algumas gerações com dieta especial —, mas o horizonte aponta para medicamentos, captura de carbono e substâncias impossíveis de obter com células naturais.

Na semana passada, pesquisadores da Universidade de Minnesota anunciaram a criação da SpudCell — uma célula sintética que se alimenta, cresce, se reproduz e compete por comida com outras células. A bióloga Kate Adamala, que liderou o trabalho, recusou-se a patenteá-lo, preferindo abri-lo à comunidade científica global.

Adamala é cuidadosa ao chamar sua criação de vida. "A vida não é binária", ela disse. "Não existe uma linha clara." Outros cientistas, como Drew Endy, de Stanford, foram mais diretos: é uma célula fabricada, mas faz exatamente o que as células fazem.

A receita envolveu cerca de cem tipos de proteínas e moléculas, além de 36 genes emprestados de um vírus e da bactéria Escherichia coli. Quando misturados com os componentes de membranas celulares, esses ingredientes se organizaram espontaneamente em bolhas que passaram a realizar reações químicas semelhantes às de células reais. O processo de divisão levou um ano inteiro para funcionar no laboratório — mas, uma vez que funcionou, funcionou de forma consistente.

O momento mais revelador veio quando os cientistas criaram uma versão mutante da SpudCell que competia com mais eficiência pelo alimento disponível. Ao misturar as duas versões, as mutantes superaram as originais — um esboço de evolução artificial induzida em laboratório.

A célula ainda tem limites: não produz seus próprios ribossomos e sobrevive apenas algumas gerações com dieta especial. Mesmo assim, Adamala e Endy já organizam uma rede científica sem fins lucrativos que deve reunir centenas de pesquisadores e investir centenas de milhões de dólares na próxima década. O objetivo é desenvolver células capazes de produzir medicamentos, capturar carbono atmosférico ou sintetizar substâncias que células naturais não conseguem fabricar — transformando um experimento de engenharia biológica em resposta a alguns dos problemas mais urgentes da humanidade.

Na quarta-feira passada, pesquisadores da Universidade de Minnesota anunciaram algo que desafia a própria definição de vida: células sintéticas que se alimentam, crescem, se reproduzem e até competem entre si pela comida. A equipe, liderada pela bióloga Kate Adamala, chamou sua criação de SpudCell — e recusou-se a patenteá-la, optando em vez disso por abrir o trabalho para uma comunidade científica mais ampla.

Adamala é cautelosa ao chamar suas células de vivas. "A vida não é binária", ela disse ao anunciar o resultado. "Não existe uma linha clara, por mais que gostaríamos que existisse." Essa hesitação reflete uma verdade incômoda da biologia moderna: quanto mais perto chegamos de sintetizar vida, menos certos ficamos sobre o que ela realmente é. John Glass, biólogo do Instituto J. Craig Venter na Califórnia que não participou do estudo, chamou o feito de impressionante — uma célula que conseguiu reunir tudo aquilo que os cientistas nunca haviam conseguido antes. Drew Endy, de Stanford, foi mais direto: é uma célula fabricada, mas faz exatamente o que as células fazem.

A receita para a SpudCell exigiu dezenas de ingredientes cuidadosamente combinados. Os pesquisadores começaram com um caldo contendo cerca de cem tipos de proteínas e moléculas simples — os componentes químicos necessários para reações cruciais como a produção de novas proteínas a partir de genes. Depois adicionaram 36 genes emprestados de um vírus e da bactéria Escherichia coli, selecionados para funções básicas como copiar DNA. Quando misturaram tudo isso com os blocos de construção das membranas, algo notável aconteceu: as moléculas se uniram espontaneamente em bolhas, cada uma englobando parte da sopa química. Muitas dessas bolhas capturaram a combinação certa de ingredientes e começaram a realizar as mesmas reações químicas observadas em células reais.

O caminho até ali foi longo. Adamala passou anos estudando como as células naturais se dividem — um processo que envolve proteínas que se encaixam formando um anel, apertando a célula até dividi-la em duas, enquanto outras proteínas agem como guinchos movendo DNA e moléculas para as células em formação. No início, ela tentou imitar esse sistema natural de forma simplificada. Mas depois mudou de estratégia. Biofísicos já haviam descoberto que proteínas fixadas em uma membrana geram pressão suficiente para curvá-la. Adamala e sua equipe desenvolveram bolhas capazes de capturar proteínas flutuando ao seu redor. Quando uma bolha coletava proteínas suficientes, sua superfície começava a se curvar para dentro até se dividir em duas. A ideia era simples, mas fazer com que funcionasse no laboratório exigiu um ano inteiro de experimentos. "Mas, uma vez que funciona, funciona", ela disse.

Quando os cientistas adicionaram alimento aos frascos contendo as SpudCells, as células absorveram pequenas moléculas através de canais em suas superfícies. Os pesquisadores também colocaram bolhas menores carregadas com proteínas e moléculas grandes demais para passar por esses canais. Ao colidir e se fundir com essas bolhas, as células conseguiam se alimentar do que havia dentro delas. As SpudCells cresciam. Em poucas horas, já estavam grandes o suficiente para se dividir. Os cientistas adicionaram uma proteína especial que se fixava na superfície das células, forçando-as a se curvarem para dentro. Uma vez divididas, o par de novas células continuava crescendo.

Mas o mais notável veio depois. Adamala e seus colegas criaram uma versão mutante que se ligava com mais força às bolhas cheias de alimento. Quando fizeram uma mistura meio a meio de SpudCells originais e mutantes, as células competiram pelo alimento. As mutantes superaram as originais em número, sugerindo que estavam vencendo a competição. Isso abriu uma possibilidade extraordinária: os cientistas poderiam colocar várias células sintéticas em competição umas com as outras e desenvolver rapidamente versões mais sofisticadas através de um processo que imita a evolução natural.

Apesar de tudo isso, a SpudCell ainda tem limitações importantes. Ela não consegue produzir ribossomos — a fábrica molecular que gera novas proteínas. Além disso, por enquanto, só consegue sobreviver algumas gerações com uma dieta especial de laboratório. Mas Adamala e Endy já estão organizando uma comunidade científica voltada a desenvolvê-la e adaptá-la a novos tipos de experimentos. Eles fundaram uma organização de pesquisa sem fins lucrativos que, segundo estimativas de Endy, gastará centenas de milhões de dólares na próxima década, com a participação esperada de centenas de cientistas. O trabalho foi publicado em um relato e está em análise para sair em uma revista científica.

Os cientistas esperam que células sintéticas possam levar a revelações sobre a vida — questões básicas como quantos genes são necessários para uma forma mínima de vida. Mas as aplicações práticas são o que realmente move a pesquisa. Um dia, essas células poderiam ser projetadas para produzir novos tipos de medicamentos ou capturar dióxido de carbono da atmosfera. SpudCells modificadas poderiam produzir uma vasta gama de proteínas que células naturais não conseguem ser induzidas a fabricar, ou até mesmo substâncias químicas tóxicas como combustível de foguete. O que começou como um exercício de engenharia biológica pode se tornar uma ferramenta para resolver alguns dos problemas mais urgentes da humanidade.

A vida não é binária. Não existe uma linha clara, por mais que gostaríamos que existisse.
— Kate Adamala, bióloga que liderou a pesquisa
É uma célula fabricada, mas faz o que as células fazem.
— Drew Endy, biólogo da Universidade Stanford
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Adamala hesita em chamar isso de vida, se a célula faz tudo que uma célula faz?

Model

Porque vida é uma categoria que criamos, e a SpudCell não se encaixa perfeitamente em nenhuma das nossas definições. Ela não é viva no sentido tradicional, mas também não é apenas química inerte. Existe algo de perturbador em estar tão perto da resposta e ainda não saber o que perguntar.

Inventor

Então qual é a diferença entre isso e uma célula natural?

Model

A SpudCell precisa de uma dieta especial de laboratório e não consegue produzir seus próprios ribossomos — aquelas fábricas que fazem proteínas. Uma célula natural é autossuficiente. Mas essa diferença pode desaparecer em alguns anos de pesquisa.

Inventor

E por que eles não patentearam? Isso parece valioso demais.

Model

Porque Adamala e Endy perceberam que a SpudCell só vai evoluir rapidamente se muitas mentes trabalhem nela. Uma patente teria trancado a porta. Em vez disso, eles criaram uma organização sem fins lucrativos que vai gastar centenas de milhões de dólares para que centenas de cientistas possam mexer com isso.

Inventor

Qual é o risco aqui? Criar vida em laboratório não assusta ninguém?

Model

Assusta, mas de formas diferentes. O risco imediato é baixo — a SpudCell morre sem sua dieta especial. O risco real é mais longo: quando conseguirmos fazer células sintéticas que se autossustentam e se replicam rapidamente, aí sim teremos que pensar seriamente sobre o que fazemos com elas.

Inventor

E a competição entre as mutantes e as originais — isso é evolução?

Model

É um simulacro de evolução. As mutantes que se ligavam melhor ao alimento tiveram mais sucesso reprodutivo. Mas é evolução em câmera lenta, controlada, observável. Pela primeira vez, podemos ver a seleção natural acontecendo em tempo real em um sistema que criamos.

Inventor

Então o futuro é células que produzem medicamentos ou capturam carbono?

Model

Esse é um futuro possível. Mas há outro: células que fazem coisas que nenhuma célula natural jamais fez. Combustível de foguete, por exemplo. Quando você consegue desenhar vida do zero, as possibilidades ficam estranhas muito rápido.

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