Split Payment não terá previsão para varejo, diz ex-secretário da Reforma Tributária

Quem se beneficia não é o governo, mas o bom pagador
Appy explica que as alíquotas menores refletem menos fraude, não mais arrecadação.
Mark

Por que o Split Payment não vai funcionar no varejo logo de cara?

Mimi

Porque se você retiver o imposto completo no momento em que alguém paga no caixa do supermercado, cria um incentivo para as pessoas voltarem a usar dinheiro físico. É uma questão de comportamento econômico.

Luke

Mas isso é especulação, certo? Ninguém testou isso ainda?

Mimi

Sim, é uma preocupação teórica, mas bem fundamentada. Por isso a cautela.

Mark

E quando vai chegar ao varejo, então?

Mimi

Não há previsão. Se chegar, será com uma alíquota muito reduzida, não o imposto cheio.

Luke

Então o Split Payment que começa em janeiro é só para empresas comprando de empresas?

Mimi

Exatamente. B2B. E ainda opcional no início.

Mark

Qual é o verdadeiro problema que o Split Payment resolve?

Mimi

Fraude fiscal. Notas frias. Empresas fantasma que emitem documentos de operações que nunca aconteceram.

Luke

Mas o Split só funciona se o sistema de mensagens entre o Fisco e os bancos estiver pronto. Está?

Mimi

Para operações B2B, sim. Os critérios já foram definidos. Para o varejo, nem se começou a pensar.

Mark

E o impacto no caixa das empresas? Vai ser ruim?

Mimi

Menos do que as pessoas imaginam. Em muitos casos, zero. Porque o pagamento é a prazo, e o sistema verifica se o imposto já foi pago antes de reter.

Luke

Então há versões diferentes do Split Payment?

Mimi

Sim. Split Super Inteligente e Split Inteligente. Cada uma com regras diferentes sobre quando retém e quando devolve.

  • Split Payment começa em 1º de janeiro de 2027, apenas para operações B2B
  • Sem previsão de implementação para vendas no varejo (B2C)
  • Se chegar ao varejo, será com alíquota reduzida, nunca imposto cheio
  • Objetivo é combater notas fiscais frias e fraude fiscal

O Split Payment é um mecanismo que retém impostos automaticamente no momento do pagamento entre empresas, evitando que o tributo passe pelo caixa das companhias. Para vendas no varejo (B2C), não há previsão de implementação, e se ocorrer, será com alíquota reduzida para evitar incentivos a transações em dinheiro.

Bernard Appy, ex-secretário da Reforma Tributária, esclarece que o Split Payment será implementado apenas em operações B2B a partir de 2027, sem previsão para vendas no varejo.

Bernard Appy, que chefiou a Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária, ofereceu um esclarecimento importante sobre como o Split Payment funcionará quando entrar em vigor: ele não chegará ao varejo quando começar a operar, e pode nunca chegar ao consumidor final da forma que muitos imaginam.

O Split Payment é um mecanismo simples em conceito, mas complexo em execução. Em vez de o imposto passar pelo caixa da empresa e depois ser recolhido ao governo, o tributo é retido automaticamente no momento exato em que uma empresa paga seu fornecedor. O dinheiro vai direto para o Fisco. A Reforma Tributária criou esse sistema, e ele começará a ser implementado gradualmente a partir de 2027. Mas há nuances importantes que Appy quis deixar claras.

Para operações entre empresas — o que se chama B2B — o Split Payment será opcional no início e depois pode se tornar obrigatório, embora não haja data confirmada para isso. Mas para vendas no varejo, aquelas que acontecem em supermercados e lojas, entre empresa e consumidor final (B2C), não existe sequer um cronograma. "Não tem definição ainda de quando e se vai entrar em vigor", disse Appy. Se eventualmente for implementado nesse segmento, será com uma alíquota reduzida, nunca com o imposto cheio. A razão é prudência: aplicar o Split Payment completo no varejo criaria um incentivo para as pessoas voltarem a pagar em dinheiro, fugindo do sistema.

Para entender por que o Split Payment foi criado, é preciso conhecer um problema crônico do sistema tributário brasileiro: as notas fiscais frias. Empresas fantasma, muitas vezes com sócios laranjas, emitem notas fiscais de operações que nunca aconteceram. Essas notas geram crédito para quem as recebe, mas o imposto nunca foi pago. O padrão é previsível: a empresa opera com baixo volume, depois emite um valor altíssimo em notas e desaparece sem pagar nada. O Fisco precisa provar que a operação não ocorreu para negar o crédito, o que é extremamente difícil no Brasil. Em outros países, alguém iria para a cadeia. Aqui, presume-se a boa-fé, e comprovar fraude em serviços é muito mais complicado do que em mercadorias.

O Split Payment resolve parte desse problema ao criar um direito ao crédito apenas quando o imposto da operação anterior foi efetivamente pago. Appy explicou que existem dois mecanismos para dar segurança ao comprador. Um é o Recolhimento pelo Adquirente, que permite a uma empresa pagar o imposto do fornecedor se este não o fizer, depois deduzindo esse valor de futuras transações. O outro é o Split Payment propriamente dito, que retém o imposto no momento do pagamento. Esse último estará pronto para entrar em vigor no dia 1º de janeiro de 2027, mas apenas para operações B2B.

Aqui está o ponto que Appy enfatizou: o impacto sobre o caixa das empresas será menor do que muitos temem. Nas operações entre empresas, os pagamentos geralmente ocorrem a prazo — 30, 60, 90 dias. O Split Payment tem uma versão chamada Split Super Inteligente que verifica, entre a emissão de uma nota e o pagamento, se o imposto já foi pago. Se foi, não há retenção. Há também o Split Inteligente, que devolve o valor retido em até três dias úteis se o imposto já tiver sido quitado. Em muitos casos, portanto, não há efeito sobre liquidez.

O objetivo do Split Payment nunca foi antecipar arrecadação, ressaltou Appy. Foi sempre oferecer segurança ao comprador de que terá direito ao crédito fiscal mesmo que seu fornecedor fique inadimplente. E quem se beneficia não é o governo, mas a empresa que paga seus impostos em dia. As alíquotas dos novos tributos — IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) — serão calibradas para manter a carga tributária como proporção do PIB. Se há menos fraude e menos inadimplência, a arrecadação se reflete em alíquotas menores para o bom pagador. O mecanismo, portanto, premia a conformidade.

No caso da venda ao varejo, no B2C, não tem definição ainda de quando e se vai entrar em vigor. Se entrar em vigor, será com uma porcentagem reduzida; não será do imposto cheio.
— Bernard Appy, ex-secretário da Reforma Tributária
Quem se beneficia do novo modelo não é o governo, porque a alíquota dos novos tributos IBS e CBS vai ser calibrada para manter a carga como proporção do PIB. Portanto, se eu tiver menos fraude, menos inadimplência, essencialmente a arrecadação vai se refletir numa alíquota menor para o bom pagador.
— Bernard Appy
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