Em uma cidade que busca na tecnologia uma resposta ao medo, o Smart Sampa revela a distância entre promessa e realidade: o consórcio que opera seus 58 mil câmeras atribuiu as falhas do sistema a uma onda de furtos e vandalismo que, segundo ele, fugiu a qualquer previsão. A prefeitura de São Paulo recusou o argumento, manteve multas de R$ 101 mil e, ainda assim, concedeu reajuste anual de 3,92%, mostrando que o contrato pesa mais do que as falhas. A questão que permanece é quem deve arcar com o risco de uma vigilância que a própria cidade precisa vigiar.
Smart Sampa alega 'onda de violência inesperada' para pedir reajuste e cancelar multas da prefeitura de SP
Uma operação contra a violência tem dificuldade de funcionar por causa dela
Por que o consórcio diz que a violência foi inesperada?
Alega que furtos e vandalismo contra as câmeras superaram o previsto na licitação. Foram 3.131 casos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, e por isso pede reequilíbrio do contrato.
E a prefeitura aceitou?
Não as multas. A Procuradoria manteve os R$ 101 mil, lembrando que o contrato põe a reposição dos equipamentos, inclusive por furto, na conta do consórcio.
Mas houve um aumento de R$ 338,7 mil por mês. Isso não contradiz a firmeza?
A prefeitura diz que é só o reajuste anual pelo IPC-Fipe de 3,92%, previsto em contrato, e não resposta ao pedido.
Então o pedido de reequilíbrio ainda está sem desfecho divulgado?
A reportagem não informa uma decisão sobre ele. Só diz que as multas ficaram.
E o vazamento do UOL?
Credenciais ficaram cerca de 11 meses expostas. O MP-SP abriu notícia de fato, mas ainda não há inquérito.
A multa de R$ 58,8 milhões está garantida?
Não. É o teto contratual, de 10%, e a prefeitura nega falha de segurança. O valor depende de apuração que nem começou formalmente.
E os números de prisões e foragidos?
São da prefeitura, sem verificação independente na reportagem.
Le Pouls
- O consórcio pede o reequilíbrio do contrato alegando que furtos e vandalismo superaram em muito as projeções da licitação.
- A Procuradoria rejeitou a tese de força maior e lembrou que a empresa assumiu integralmente a reposição dos equipamentos.
- Na mesma semana em que as multas foram mantidas, a prefeitura elevou os repasses mensais para R$ 11,1 milhões.
- Um vazamento de credenciais e dados de agentes, revelado pelo UOL, pode resultar em multa de até R$ 58,8 milhões enquanto o MP-SP analisa os indícios.
Em uma cidade que busca na tecnologia uma resposta ao medo, o Smart Sampa revela a distância entre promessa e realidade: o consórcio que opera seus 58 mil câmeras atribuiu as falhas do sistema a uma onda de furtos e vandalismo que, segundo ele, fugiu a qualquer previsão. A prefeitura de São Paulo recusou o argumento, manteve multas de R$ 101 mil e, ainda assim, concedeu reajuste anual de 3,92%, mostrando que o contrato pesa mais do que as falhas. A questão que permanece é quem deve arcar com o risco de uma vigilância que a própria cidade precisa vigiar.
No fim de setembro, o Consórcio Smart City SP enviou à Prefeitura de São Paulo um ofício em defesa própria. As empresas responsáveis pelo Smart Sampa, programa de monitoramento com 58 mil câmeras, haviam sido multadas em R$ 101 mil por equipamentos fora do ar. O grupo respondeu que a cidade vive uma "onda de violência inesperada e extraordinária", com 3.131 casos de furto e vandalismo entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, e pediu o reequilíbrio econômico-financeiro do contrato.
A Procuradoria não aceitou o argumento. Para o procurador responsável, ao assinar o contrato o consórcio assumiu a responsabilidade pela reposição e manutenção dos equipamentos, inclusive diante de roubos e vandalismo. As multas foram mantidas. Mesmo assim, a prefeitura autorizou um reajuste de R$ 338,7 mil nos repasses mensais, elevados para R$ 11,1 milhões, reajuste que, segundo a gestão, é o índice anual previsto em contrato. A prefeitura afirma que o sistema funciona plenamente e já ajudou na captura de milhares de foragidos.
Especialistas veem contradição. Para um professor da FGV, o vandalismo deveria ter sido previsto na avaliação de risco do negócio. Uma pesquisadora do CESeC questiona como um sistema de segurança pública pode proteger a cidade se não consegue conter furtos contra si mesmo. O consórcio não respondeu à reportagem.
O caso ganhou peso com a revelação do UOL de que credenciais e dados de agentes ficaram cerca de 11 meses em um repositório público. A prefeitura nega falha nos mecanismos de segurança. O Ministério Público abriu uma notícia de fato, etapa preliminar que ainda pode ou não evoluir para investigação formal, e o contrato prevê multa de até R$ 58,8 milhões.
No dia 17 de setembro deste ano, o Consórcio Smart City SP enviou à Prefeitura de São Paulo um ofício em que se defendia de multas por falhas técnicas e por períodos em que câmeras do Smart Sampa ficaram fora do ar. As penalidades, aplicadas entre agosto e setembro, somam R$ 101 mil. O argumento central do consórcio, contratado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como uma das respostas à criminalidade, é que a cidade enfrenta uma "onda de violência inesperada e extraordinária".
O consórcio é formado por quatro empresas: CLD Construtora e Eletrônica, PK9 Tecnologia, Flama Serviços e Sentinelx Tecnologia. O programa conta hoje com 58 mil câmeras de monitoramento, parte delas com reconhecimento facial. Segundo o ofício, houve 3.131 casos de furto e vandalismo contra os equipamentos entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, média de 4,6 ocorrências por dia.
Com base nisso, o grupo pediu o "reequilíbrio econômico-financeiro" do contrato. Afirma que os índices de furtos e vandalismo superaram em muito as projeções da proposta apresentada na licitação, e classifica os ataques como "contingências do mundo real", "eventos de força maior" e "alteração extraordinária da realidade fática".
A Procuradoria do município não aceitou a tese. Em parecer técnico, o procurador Gian Paolo Gasparini escreveu que a alegação de força maior baseada em furtos, vandalismo ou falhas de energia e telecomunicações não afasta a penalidade, pois ao assinar o contrato o consórcio assumiu a responsabilidade integral pela reposição e manutenção dos equipamentos, inclusive em casos de roubo, furto e vandalismo. As multas foram mantidas.
Na segunda-feira (19), porém, a gestão Nunes autorizou um reajuste de R$ 338,7 mil nos repasses mensais, que passam a R$ 11,1 milhões. Por ano, o consórcio recebe R$ 133,8 milhões; desde o início do contrato, em 2024, o sistema já custou R$ 588,8 milhões aos cofres municipais. A prefeitura disse à Folha que o aditivo é o reajuste anual previsto em contrato, calculado pela variação do IPC-Fipe (3,92%), e que penalidades, quando comprovadas, são aplicadas de forma proporcional. Afirmou ainda que o Smart Sampa funciona plenamente e já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos, quase 7 mil prisões em flagrante e a localização de 284 pessoas desaparecidas.
Especialistas ouvidos pela Folha veem uma contradição. Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que o vandalismo deveria ter entrado na avaliação de risco do negócio e que a empresa parece não ter percebido onde operava. Para ele, o caso evidencia a dimensão dos problemas estruturais de segurança na capital. Thallita Lima, do CESeC, pergunta como o sistema resolverá a segurança pública se nem consegue conter furtos contra si mesmo, e diz que isso gera ruído na finalidade de um projeto que consome muito dinheiro público. O consórcio não respondeu a mensagens, ligações e e-mails da reportagem, e o dono de uma das empresas também não atendeu. A Secretaria da Segurança Pública afirmou que os furtos recuaram 4,3% entre janeiro e agosto de 2026 em relação a 2025.
O episódio coincide com outro problema. Na terça-feira (20), o UOL revelou que informações restritas do programa, como credenciais e dados de agentes de segurança, ficaram cerca de 11 meses em um repositório público na internet. O colunista Artur Rodrigues gravou e recuperou imagens de oito equipamentos na região central. A prefeitura diz que não houve falha nos mecanismos de segurança.
O Ministério Público de São Paulo abriu uma notícia de fato, etapa que ainda não equivale a inquérito civil; cabe ao promotor decidir se há elementos para investigação formal. O contrato prevê multa de até 10% do valor total, o que pode chegar a R$ 58,8 milhões, e atribui à contratada a segurança dos sistemas. O Smart Sampa também serve de referência a Flávio Bolsonaro (PL), que propõe câmeras com reconhecimento facial pelo país, embora reportagem de domingo (18) tenha apontado obstáculos à expansão e a falta de comprovação científica de que esses sistemas reduzam o crime.
Citations marquantes
A alegação de força maior fundada em furtos, vandalismo ou falhas de energia e telecomunicações não tem o condão de afastar a penalidade.— Gian Paolo Gasparini, procurador do município
O Smart Sampa funciona plenamente na cidade.— Gestão Ricardo Nunes, em nota à Folha