Estudo analisou 300 prontuários; 48% das mulheres trans tinham registro de silicone industrial e apresentavam 2,21 vezes mais chance de abandonar tratamento. Silicone industrial não é causa comprovada do abandono, mas marcador de exposição a barreiras sociais que dificultam acesso contínuo aos serviços de saúde.
Silicone industrial marca mulheres trans com HIV em risco de abandono de tratamento
O silicone funciona como um marcador social de vulnerabilidade
Por que o silicone industrial aparece em quase metade dos prontuários? Isso é comum?
Não é que seja comum em termos de frequência absoluta, mas o que o estudo mostra é que entre mulheres trans vivendo com HIV naquele serviço, era muito frequente. E isso reflete uma realidade: quando não há acesso a procedimentos seguros e regulares de afirmação de gênero, as pessoas buscam alternativas. O silicone industrial é mais barato, mais acessível, mas perigoso.
Então o silicone não causa o abandono do tratamento?
Não. O que a pesquisa encontrou foi uma associação. O silicone funciona como um marcador — uma bandeira que diz: essa mulher está exposta a barreiras sociais que dificultam seu acesso contínuo aos serviços. As mesmas dificuldades que a levam ao silicone industrial podem também interromper seu vínculo com o HIV.
Qual é o risco real do abandono do tratamento?
É grave. Quando a pessoa para de tomar os antirretrovirais, o HIV volta a se multiplicar sem controle. A carga viral sobe, as defesas do corpo caem, e aumenta o risco de infecções oportunistas. Pode levar à progressão para AIDS e à morte. Por isso o achado é tão importante — não é só um número, é uma questão de vida.
O que os pesquisadores propõem como solução?
Começam pelo óbvio: serviços de saúde mais acolhedores, com profissionais capacitados, horários flexíveis, respeito ao nome social. Mas também defendem que a resposta tem que ser maior — políticas públicas de acesso a procedimentos seguros de afirmação de gênero, políticas contra o racismo, educação. A saúde sozinha não resolve.
Por que é importante que pessoas trans participem da elaboração dessas políticas?
Porque quem vive a realidade sabe melhor do que ninguém o que precisa. Ouvir as demandas delas, entender seus recortes, adequar os espaços para essas vivências — isso é basal. Não é caridade, é necessidade.
E quanto ao silicone industrial em si? Qual é o risco?
O silicone industrial não é autorizado para procedimentos estéticos. Pode causar inflamações, infecções, necrose, trombose, migração do produto. Algumas manifestações aparecem anos depois. Quem já recebeu aplicações deve procurar acompanhamento mesmo sem sintomas, registrar onde foi injetado, avaliar a cada seis meses.
Le Pouls
- 300 prontuários analisados; 144 (48%) tinham registro de silicone industrial
- Chance 2,21 vezes maior de abandono do tratamento antirretroviral no grupo com silicone
- Silicone industrial não é causa comprovada, mas marcador de vulnerabilidade social
- Pesquisa apresentada na AIDS 2026 no Rio de Janeiro
Estudo analisou 300 prontuários; 48% das mulheres trans tinham registro de silicone industrial e apresentavam 2,21 vezes mais chance de abandonar tratamento. Silicone industrial não é causa comprovada do abandono, mas marcador de exposição a barreiras sociais que dificultam acesso contínuo aos serviços de saúde.
Pesquisa brasileira apresentada na AIDS 2026 identificou associação entre uso de silicone industrial e abandono de tratamento antirretroviral em mulheres trans e travestis, sugerindo que o produto funciona como marcador de vulnerabilidade social.
No Rio de Janeiro, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids em 2026, pesquisadores brasileiros apresentaram um achado que conecta três realidades raramente discutidas juntas: silicone industrial, HIV e a permanência de mulheres trans e travestis nos serviços de saúde. A descoberta veio de uma análise de 300 prontuários de pacientes atendidas no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo. Entre essas mulheres, 144 — quase metade — tinham registro de uso de silicone industrial. E nesse grupo, a chance estatística de haver um episódio documentado de abandono do tratamento antirretroviral era 2,21 vezes maior.
Mas o que o número realmente diz é mais complexo do que parece. A pesquisa, coordenada pelo infectologista Dyemison Pinheiro e idealizada pela médica infectologista Mafê Medeiros — ambos pesquisadores do CRT-SP — não prova que o silicone tenha causado o abandono. O alerta é outro: o registro do produto nos prontuários funciona como um marcador social, um sinal de que aquela mulher está exposta a barreiras que vão muito além do consultório. As mesmas dificuldades que a levam a buscar procedimentos de afirmação de gênero sem segurança — porque não consegue acessar alternativas regulares — são as mesmas que podem interromper seu vínculo com o tratamento do HIV.
A pesquisa nasceu de uma lacuna. Mafê, mulher trans não binárie, percebeu que faltavam dados sobre sua própria população. Sabia-se que mulheres trans e travestis enfrentavam maiores dificuldades na cascata de cuidado do HIV — aquele percurso que começa no diagnóstico, passa pela vinculação ao serviço, pelo acesso regular aos medicamentos e chega ao controle do vírus. Mas não havia números que mapeassem essas barreiras com precisão. "A transfobia que nos atravessa todos os dias, em graus diferentes, acaba sendo a grande força motriz para que eu tivesse a ideia deste trabalho", disse Mafê. A coorte TRANSbordar foi criada para traçar um perfil dessas mulheres a partir de informações já registradas nos prontuários — uma pesquisa retrospectiva que olha para trás.
O que os 300 prontuários revelaram exigiu interpretação cuidadosa. Dos 144 casos com registro de silicone industrial, a análise encontrou uma associação estatisticamente significativa com o abandono do tratamento. Os pesquisadores verificaram se diferenças de raça, cor ou escolaridade poderiam explicar o resultado. Mesmo considerando esses fatores, a associação permaneceu. Mas havia limitações importantes: nos outros 156 prontuários, a ausência de informação sobre silicone não provava que essas mulheres nunca o usaram — o uso pode simplesmente não ter sido perguntado, informado ou anotado. Além disso, todos os dados vieram de um único serviço, então o resultado não pode ser automaticamente generalizado para todas as mulheres trans do Brasil ou do Sul Global.
Na interpretação de Dyemison, o silicone funciona como um indicador de vulnerabilidade. "Muitas vezes o uso está relacionado a uma espécie de marcador social, tendo em vista que esses procedimentos são mais acessíveis que procedimentos de modificação corporal regulares e são majoritariamente feitos por pessoas mais vulnerabilizadas." A hipótese dos pesquisadores é que as mesmas condições que restringem o acesso a procedimentos seguros de afirmação de gênero também dificultam a chegada aos serviços de saúde e a continuidade do tratamento. Nas entrevistas, apontaram como possíveis barreiras as dificuldades de deslocamento, horários rígidos, transfobia, desrespeito ao nome social e despreparo das equipes. Esses fatores ainda precisam ser testados por novas pesquisas.
O estudo também avaliou a falha virológica — quando o tratamento não consegue reduzir ou manter controlada a quantidade de HIV no sangue. Encontrou associação entre o registro de silicone industrial e o abandono, mas não identificou associação com falha virológica atual ou anterior. Isso significa algo importante: fazer a retenção de pessoas trans femininas mais vulneráveis em serviços de saúde pode ser complexo, mas uma vez que essas pessoas são retidas, o tratamento pode ser tão efetivo quanto para outras pessoas. O maior desafio não estava na eficácia dos antirretrovirais, mas na continuidade do cuidado. Quando há perda de seguimento e interrupção dos medicamentos, o HIV volta a se multiplicar e compromete progressivamente as defesas do organismo. "O abandono de tratamento é o início de toda uma cascata de eventos que pode levar à morte por AIDS", explicou Dyemison.
Transformar esse achado em cuidado real exige mudanças que começam na formação das equipes. Dyemison propõe serviços com profissionais capacitados e interessados nas diferentes realidades possíveis, com menos julgamento, agendas mais flexíveis e equipes multiprofissionais que deem conta desde a hormonização até o cuidado de possíveis complicações do silicone industrial. "Oferecer serviços que entreguem mais do que a medicação — que é essencial, mas não é suficiente." Mafê também propõe alternativas como teleconsultas e dispensação de medicamentos em outros locais, reduzindo a dependência de horários rígidos. O acolhimento começa antes da consulta, com respeito ao nome social e aos pronomes, com capacitação de quem atua na recepção.
Mas a resposta não pode ficar restrita ao consultório. Para Mafê, o dado de que quase metade dos prontuários registrava silicone industrial expõe a deficiência do SUS em auxiliar mulheres trans e travestis na busca por procedimentos seguros de afirmação de gênero. "Acredito que escancara a deficiência do SUS em auxiliar mulheres trans e travestis na busca por procedimentos de afirmação de gênero que possam, de alguma forma, influenciar numa diminuição das transfobias vividas." A resposta exige políticas públicas que aumentem a presença de mulheres trans nas escolas e faculdades, que combatam o racismo, que trabalhem com populações jovens com linguagem específica. Os dois pesquisadores defendem também a participação direta de pessoas trans na elaboração dos serviços e das políticas. Quando o silicone industrial aparece no prontuário, a resposta do Estado não pode terminar em uma advertência sobre os riscos do produto. Precisa começar com acesso a procedimentos seguros, acompanhamento das complicações e condições reais para que o vínculo com o tratamento do HIV não seja rompido.
Citations marquantes
A transfobia que nos atravessa todos os dias, em graus diferentes, acaba sendo a grande força motriz para que eu tivesse a ideia deste trabalho— Dra. Mafê Medeiros, médica infectologista e pesquisadora
O abandono de tratamento é o início de toda uma cascata de eventos que pode levar à morte por AIDS— Dr. Dyemison Pinheiro, médico infectologista e pesquisador