Setor pró-cloroquina pede ao Ministério da Saúde para 'abortar' veto ao kit Covid

Manter a porta aberta para medicamentos que não funcionam
O conflito dentro do ministério refletia resistência em aceitar que certos tratamentos para Covid-19 simplesmente não tinham eficácia comprovada.
Mark

Por que um grupo dentro do próprio ministério se moveria para bloquear diretrizes que a maioria dos conselhos de saúde apoiava?

Mimi

Porque havia pessoas que tinham investido politicamente nessa ideia. Bolsonaro havia defendido esses medicamentos publicamente, repetidamente. Alguns funcionários ainda estavam tentando manter essa porta aberta.

Mark

Mas eles sabiam que não havia evidência científica?

Mimi

Provavelmente sabiam. Ou fingiam não saber. A questão é que admitir a ineficácia significaria admitir que uma posição que o governo havia tomado estava errada. Isso é politicamente custoso.

Mark

O empate na votação foi acidental ou estratégico?

Mimi

Difícil dizer. Mas o fato de que o Conselho Federal de Medicina também se posicionou contra o parecer sugere que havia resistência organizada, não apenas desacordo genuíno.

Mark

Quem tinha mais poder institucional nesse momento — os cinco do ministério ou os conselhos que apoiavam o veto?

Mimi

Os conselhos tinham legitimidade e representatividade. Mas os cinco estavam dentro da máquina, com acesso direto ao secretário. Às vezes, estar perto do poder importa mais do que ter razão.

Mark

O que isso diz sobre como decisões de saúde pública são tomadas no Brasil?

Mimi

Que elas não são puramente técnicas. São políticas. E quando a política entra, a ciência fica em segundo plano.

  • Cinco representantes do Ministério da Saúde na Conitec assinaram um documento de 29 páginas pedindo que o processo de contraindicação do kit Covid fosse 'imediatamente abortado'.
  • A votação na comissão terminou empatada, deixando cloroquina e ivermectina numa zona cinzenta dentro do SUS — nem recomendadas, nem proibidas oficialmente.
  • Do lado oposto, uma coligação expressiva se formou: Conass, Conasems, Conselho Nacional de Saúde e a ANS apoiavam o texto que vetava os medicamentos sem eficácia comprovada.
  • Os signatários não eram figuras periféricas — ocupavam cargos de direção e secretaria-executiva, com acesso direto aos tomadores de decisão do ministério.
  • A disputa expõe uma resistência política enraizada: meses após o pico da pandemia, parte do governo federal ainda recusava aceitar o que a ciência já havia estabelecido sobre esses tratamentos.

No interior do Ministério da Saúde, uma batalha silenciosa se travava sobre o que a ciência já havia decidido: cinco funcionários de peso pediram que fossem 'abortadas' as diretrizes que contraindicam a cloroquina e a ivermectina no SUS, enquanto conselhos estaduais, municipais e nacionais defendiam o veto ao chamado kit Covid. O empate na Conitec revelou que, mesmo com as evidências científicas consolidadas, a disputa sobre quem detém a autoridade de dizer o que funciona ainda não havia chegado ao fim.

Dentro do Ministério da Saúde, cinco funcionários de posições estratégicas — entre eles um secretário-executivo adjunto e uma chefe de gabinete — assinaram um documento de 29 páginas pedindo que o ministério 'abortasse' a publicação de diretrizes que contraindicam o uso de cloroquina e ivermectina contra a Covid-19. O texto foi endereçado ao secretário Hélio Angotti, supervisor da Conitec, e circulou entre os demais membros do colegiado. A linguagem era direta: qualquer iniciativa de estabelecer recomendações centralizadas deveria ser paralisada de imediato.

O parecer que contraindicava o kit Covid havia entrado em análise na comissão em 21 de outubro. Quando chegou à votação, o resultado foi um empate — o que significava que, apesar da ausência de evidências científicas favoráveis, a comissão não conseguiu chegar a um consenso para banir os medicamentos do sistema público. O Conselho Federal de Medicina também se posicionou contra o veto.

Do outro lado, porém, havia uma coligação considerável: o Conass, o Conasems, o Conselho Nacional de Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar apoiavam o texto que contraindicava o kit. Era uma frente que reunia gestores estaduais e municipais, representantes da sociedade civil e órgãos reguladores do setor privado.

O que estava em disputa ia além de uma questão técnica sobre remédios. Era uma luta institucional sobre quem teria autoridade para definir o que funciona no tratamento da Covid-19. Com a votação empatada e o documento circulando, o kit Covid permanecia numa zona cinzenta — e a resistência política dentro do próprio governo federal mostrava que certas posições públicas, mesmo sem amparo científico, ainda encontravam defensores dispostos a travar o processo por dentro.

Dentro do Ministério da Saúde, um grupo de funcionários decidiu fazer uma aposta arriscada. Em um documento de 29 páginas obtido pela Folha de S.Paulo, cinco representantes da pasta na Conitec — a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia no SUS — pediram explicitamente que o ministério "abortasse" a publicação de diretrizes que contraindicam o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19. O alvo era claro: impedir que o SUS vetasse o chamado "kit Covid", aquele conjunto de remédios como cloroquina e ivermectina que o ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu publicamente durante toda a pandemia.

O documento foi endereçado ao secretário Hélio Angotti, que supervisiona a Conitec, e também circulou entre os demais membros do colegiado. Nele, os cinco signatários — Vinicius Nunes Azevedo, Alessandro Glauco dos Anjos Vasconcelos, Maria Inez Gadelha, Lana de Lourdes Aguiar Lima e Rodrigo dos Santos Santana — argumentavam que era "urgente" que qualquer iniciativa de estabelecer recomendações centralizadas para todo o país fosse "imediatamente abortada". A linguagem não deixava margem para interpretação: eles queriam travar o processo na comissão.

O parecer que contraindicava o kit Covid havia sido colocado em análise no colegiado em 21 de outubro. Quando chegou a hora da votação, o resultado foi um empate. Isso significava que, apesar da falta de evidência científica para esses medicamentos, a comissão não conseguiu chegar a um consenso para bani-los do sistema público de saúde. O Conselho Federal de Medicina, que também participava da discussão, se posicionou contra o parecer — ou seja, também rejeitava a ideia de vetar o kit.

Mas do outro lado da mesa estavam forças consideráveis. Duas secretarias de Saúde, o Conass (conselho de secretários estaduais), o Conasems (conselho de secretários municipais), o Conselho Nacional de Saúde e a Agência Nacional de Saúde Suplementar todos apoiavam o texto que contraindicava o kit Covid. Era uma coligação que representava tanto o setor público quanto o privado, tanto gestores estaduais quanto municipais, além de órgãos de representação da sociedade civil.

O que estava em jogo era mais do que uma simples questão técnica sobre medicamentos. Era uma disputa institucional sobre quem teria autoridade para dizer o que funciona e o que não funciona no tratamento da Covid-19. De um lado, havia funcionários do ministério que queriam manter a porta aberta para esses tratamentos, mesmo diante de evidências científicas apontando sua ineficácia. Do outro, havia conselhos, secretarias e órgãos reguladores que queriam fechar essa porta de uma vez por todas.

Os cinco signatários do documento ocupavam posições estratégicas dentro da pasta: um era diretor de gestão do trabalho, outro era secretário-executivo adjunto, uma era chefe de gabinete, outra era coordenadora de ciclos da vida, e o quinto era diretor de determinantes ambientais da saúde indígena. Não eram funcionários menores. Tinham peso institucional e acesso direto aos tomadores de decisão.

A tensão refletia uma realidade mais ampla: meses depois do pico da pandemia, ainda havia pessoas dentro do governo federal que resistiam a aceitar que certos medicamentos simplesmente não funcionavam contra o novo coronavírus. Essa resistência não era apenas científica — era política, enraizada em posições públicas que haviam sido tomadas anos antes e que agora se tornava cada vez mais difícil de defender.

O que aconteceria a seguir dependeria de como o secretário Hélio Angotti e os demais membros da Conitec responderiam a esse documento. A votação empatada significava que a questão ainda estava aberta. E enquanto estivesse aberta, o kit Covid permaneceria numa zona cinzenta dentro do SUS — não oficialmente recomendado, mas também não oficialmente proibido.

Era urgente que a iniciativa de estabelecer recomendações centralizadas para todo o país fosse imediatamente abortada
— Grupo de cinco representantes do ministério na Conitec
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