Às vésperas das eleições presidenciais brasileiras, a Folha de S.Paulo propõe uma forma de preparação incomum: mergulhar em obras cinematográficas e televisivas que tratam o poder não como teoria, mas como experiência humana. De Frank Capra a produções nórdicas contemporâneas, sete títulos atravessam décadas e fronteiras para mostrar que as contradições da política — o idealismo traído, a máscara do poder, a apatia do cidadão — são constantes que resistem ao tempo e à geografia. É um convite à reflexão que chega no momento em que o Brasil se prepara para escolher seus próximos rumos.
Séries e filmes sobre política para maratonar até a eleição
É preciso mudar para que tudo continue como está
Por que assistir a filmes sobre política agora, especificamente?
Porque estamos a semanas das eleições presidenciais. Essas histórias oferecem um espelho — não para prever o que vai acontecer, mas para entender como o poder funciona, como as pessoas lidam com escolhas difíceis, como a apatia política tem consequências reais.
Mas são ficções. "Sr. Smith vai a Washington" é de 1939. A política mudou muito desde então.
Verdade, mas o que Capra mostra — um homem idealista enfrentando uma máquina política — ainda ressoa. Os conflitos específicos mudam, mas as estruturas de poder, a corrupção, o idealismo em choque com a realidade, essas coisas persistem.
E "Borgen"? Por que uma série dinamarquesa importa para um eleitor brasileiro?
Porque mostra a governabilidade em ação. Birgitte tem que fazer escolhas que desagradam seus aliados, que prejudicam sua vida pessoal. Não é sobre heróis — é sobre pessoas reais em posições de poder, negociando, cedendo, resistindo.
Mas a Dinamarca é um país muito diferente do Brasil. Seus sistemas políticos não são comparáveis.
Não são, mas o dilema humano é o mesmo. Como você governa quando precisa manter coalizões? Como você equilibra princípios com pragmatismo? Essas perguntas transcendem fronteiras.
Qual desses filmes você recomendaria para começar?
"Sr. Smith vai a Washington" é acessível e emocionante. Mas se você quer algo mais contemporâneo, "Leões e Cordeiros" mostra como decisões políticas afetam vidas reais — soldados na frente, estudantes apáticos em casa.
Nenhum desses filmes oferece respostas, certo? Eles apenas mostram o problema.
Exatamente. E talvez seja isso que precisamos agora — não de respostas fáceis, mas de histórias que nos ajudem a pensar com mais profundidade sobre o que está em jogo.
Il Polso
- Com as eleições presidenciais se aproximando, a urgência de compreender o poder político ganha uma dimensão cultural: o cinema e a televisão como espelhos do que acontece nas urnas e nos gabinetes.
- A seleção vai do idealismo ingênuo de 'Sr. Smith vai a Washington' à frieza calculista de 'O Leopardo', revelando que a tensão entre princípios e pragmatismo é tão antiga quanto a própria democracia.
- Obras como 'Leões e Cordeiros' e 'Eleição' expõem a apatia política como cumplicidade — o cidadão que se afasta do processo não escapa das suas consequências.
- A comédia política de 'Viva a Liberdade' e 'O Palácio Francês' sugere que a sinceridade e o humor são subversivos dentro de sistemas construídos sobre vaidade e controle da narrativa.
- A série 'Borgen' ancora a lista no presente: uma mulher no poder enfrentando simultaneamente a governabilidade, a imprensa, a extrema direita e as cobranças domésticas — um retrato que ressoa além da Dinamarca.
Às vésperas das eleições presidenciais brasileiras, a Folha de S.Paulo propõe uma forma de preparação incomum: mergulhar em obras cinematográficas e televisivas que tratam o poder não como teoria, mas como experiência humana. De Frank Capra a produções nórdicas contemporâneas, sete títulos atravessam décadas e fronteiras para mostrar que as contradições da política — o idealismo traído, a máscara do poder, a apatia do cidadão — são constantes que resistem ao tempo e à geografia. É um convite à reflexão que chega no momento em que o Brasil se prepara para escolher seus próximos rumos.
Faltam semanas para as eleições presidenciais no Brasil, e a Folha reúne sete filmes e séries que tratam a política como matéria viva — não como abstração, mas como drama humano filmado.
O ponto de partida clássico é 'Sr. Smith vai a Washington' (1939), de Frank Capra, em que um jovem idealista é colocado no Senado americano por quem esperava controlá-lo. O que ninguém previu foi sua recusa em se dobrar à máquina. Décadas depois, Luchino Visconti respondeu com 'O Leopardo' (1963): o príncipe de Salina, interpretado por Burt Lancaster, compreende que é preciso mudar para que tudo continue como está — e a memorável sequência do baile condensa essa verdade política em imagem.
Entre as produções mais recentes, 'Leões e Cordeiros' (2007), de Robert Redford, costura três histórias simultâneas para mostrar como as decisões nos gabinetes do poder e a apatia da sociedade afetam diretamente o cidadão comum. Já 'Eleição' (1999), de Alexander Payne, reduz a política à escala de um grêmio estudantil em Omaha — e a interferência de um professor em crise de meia-idade na disputa revela mecanismos que escalam perfeitamente para o mundo real.
Duas comédias europeias completam o panorama com leveza e ironia. Em 'Viva a Liberdade' (2013), o irmão gêmeo filósofo de um político em queda livre — recém-saído de um hospital psiquiátrico — se revela mais sincero e popular do que o original. Em 'O Palácio Francês' (2013), um jovem responsável pelos discursos do ministro francês de relações exteriores navega a vaidade, o fogo amigo e as crises diplomáticas sem hora marcada.
A lista fecha com 'Borgen', série dinamarquesa disponível na Netflix em quatro temporadas. Birgitte Nyborg, a primeira-ministra interpretada por Sidse Babett Knudsen, enfrenta o preço real do poder: concessões, traições de aliados, pressão da imprensa, oposição de extrema direita — e ainda as cobranças de filhos e marido que a veem cada vez mais consumida pelo Borgen. É o retrato mais completo e contemporâneo da lista, e talvez o mais necessário para quem vai às urnas.
Faltam semanas para as eleições presidenciais no Brasil, e há uma forma particular de gastar esse tempo: assistindo a histórias que exploram o poder, suas contradições e o modo como ele toca a vida de pessoas comuns. A Folha reúne filmes e séries que tratam a política não como abstração, mas como matéria viva de cinema e televisão.
O cinema clássico oferece dois pontos de partida. Em "Sr. Smith vai a Washington" (1939), Frank Capra coloca um jovem James Stewart no papel de Jefferson Smith, um ingênuo líder de escoteiros alçado ao cargo de senador. Quem o colocou ali esperava exatamente isso: um homem que não interferisse em seus interesses. O que ninguém previu foi que o idealismo de Smith entraria em choque direto com a máquina política. A secretária Saunders, interpretada por Jean Arthur, é quem o ajuda nessa jornada — uma mulher cínica que se apaixona pelo novo senador. O filme permanece como um retrato do americano comum enfrentando a capital.
Meia década depois, Luchino Visconti dirigiu "O Leopardo" (1963), estrelado por Burt Lancaster como o príncipe de Salina, um aristocrata siciliano que compreende uma verdade política fundamental: é preciso mudar para que tudo continue como está. Enquanto a Itália se unifica nos anos 1860, ele corteja a burguesia em ascensão e se aproxima dos revolucionários garibaldinos. Seu sobrinho Tancredi, vivido por Alain Delon, representa a aliança entre a velha aristocracia e a nova classe social. A sequência do baile aristocrático, em que o príncipe dança com Angélica — filha do prefeito local, papel de Claudia Cardinale — sob os olhares de Tancredi, está entre as mais memoráveis do cinema. O filme é baseado no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e ganhou uma adaptação em série pela Netflix em 2025.
Entre as produções mais recentes, "Leões e Cordeiros" (2007) traz Robert Redford tanto como ator quanto diretor. Ele interpreta um professor que questiona um aluno apático sobre política com uma pergunta simples: de que adianta um Mercedes se as ruas estão esburacadas? Simultaneamente, em Washington, o senador Irving (Tom Cruise) promete um furo de reportagem à jornalista Janine (Meryl Streep) sobre a estratégia para encerrar a guerra no Iraque e no Afeganistão. No front, dois soldados esperam resgate cercados por inimigos. Redford, falecido em 2025, costura essas ações simultâneas para mostrar como o que se discute nos gabinetes do poder e a apatia da sociedade afetam diretamente a vida do cidadão comum. Os conflitos mudaram, mas os discursos permanecem os mesmos.
"Eleição" (1999), dirigido por Alexander Payne, adapta o romance de Tom Perrotta sobre uma disputa pela presidência do grêmio estudantil em uma escola de Omaha. Matthew Broderick interpreta Jim, um professor em crise de meia-idade que se incomoda com Tracy Flick (Reese Witherspoon em começo de carreira) sendo candidata única. Ele então incentiva um segundo nome na corrida — um atleta popular chamado Paul — para desbancar a favorita. A interferência de Jim piora conforme sua crise pessoal se aprofunda. O filme rendeu a Payne uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado em 2000 e permanece como um pequeno clássico da década.
"Viva a Liberdade" (2013), do italiano Roberto Andò, parte de uma premissa cômica: um político que vai mal nas pesquisas desaparece. Seus assessores entram em pânico. A solução é recorrer ao irmão gêmeo dele, um filósofo que acabou de deixar um hospital psiquiátrico. Quando o gêmeo dá sua primeira entrevista fingindo ser o político, ele se mostra sincero, bem-humorado e empático — tudo aquilo que o verdadeiro político não é. A popularidade dispara. Enquanto isso, o político real vai à França, se reconecta com uma amiga da juventude e redescobre sua antiga paixão, o cinema. Toni Servillo ("A Grande Beleza") interpreta ambos os irmãos com sutileza, distinguindo-os através da atuação. O filme perde um pouco de ritmo na parte final, mas a ideia central persiste: é preciso ser um pouco louco para dizer verdades na política.
"O Palácio Francês" (2013), dirigido por Bertrand Tavernier, acompanha o dia a dia do gabinete do ministro de relações exteriores francês através dos olhos de Arthur (Raphaël Personnaz), um jovem contratado para ser responsável pela "linguagem" do ministério — ou seja, pelos discursos. Na selva que é o gabinete de um político, ele lida com a vaidade do ministro, o fogo amigo entre assessores especializados em diferentes regiões do mundo, e crises diplomáticas sem hora marcada. Claude, papel de Niels Arestrup, é o chefe de gabinete e eminência parda do ministério. O tom é de comédia, talvez o ideal para registrar um político e seus assessores em ação. O título original, "Quai d'Orsay", é o endereço do ministério em Paris.
A série "Borgen", produção nórdica disponível na Netflix em quatro temporadas, acompanha Birgitte Nyborg (Sidse Babett Knudsen), eleita primeira-ministra da Dinamarca. O poder e a governabilidade impõem escolhas duras: escantear um aliado antigo, fazer concessões reprovadas por um partido que sustenta seu governo, lidar com a imprensa e a oposição ferrenha de um parlamentar de extrema direita. Como Birgitte é uma mulher no poder, também enfrenta cobranças domésticas — seus filhos e marido a veem cada vez mais tomada pelo dia a dia no Borgen, apelido para o Palácio de Christiansborg, sede do Parlamento dinamarquês. A série teve três temporadas entre 2010 e 2013 e retornou em 2022 com uma quarta, intitulada "Borgen: O Reino, o Poder e a Glória", agora com Birgitte como ministra das Relações Exteriores.
Citazioni salienti
Política e cinema não são assim tão distantes. Blefe e genialidade coexistem em ambos, e não é fácil distinguir entre os dois.— Personagem em 'Viva a Liberdade' (2013), de Roberto Andò