Série brasileira 'Habeas Corpus' da Netflix retrata racismo nos tribunais

Muita gente não tem noção sobre as Marinas do nosso país
Any Gabrielly, que interpreta Marina, reflete sobre a invisibilidade de pessoas vulneráveis na Justiça brasileira.
Mark

Por que uma série sobre o sistema judiciário brasileiro agora? Parece um tema muito específico.

Mimi

Porque o Brasil tem um problema estrutural que a maioria das pessoas ignora ou prefere não pensar. O Innocence Project Brasil já reverteu condenações de inocentes — isso não é ficção, é realidade. A série quer tornar isso visível.

Luke

Mas quantas condenações injustas o Innocence Project realmente reverteu? O texto diz 624 inocentes globalmente, mas não especifica quantos foram no Brasil.

Mimi

Ótima pergunta. O texto não detalha isso. Mas o ponto é que existem casos reais, e a série consultou voluntários do projeto, visitou tribunais, falou com advogados.

Mark

E quanto à questão racial? Como a série aborda isso?

Mimi

Marina, a personagem de Any Gabrielly, é negra e pobre. Ela representa as pessoas vulneráveis que enfrentam hostilidade na Justiça. Any cresceu na periferia de São Paulo, então ela traz autenticidade ao papel.

Luke

Mas a série realmente analisa racismo estrutural nos tribunais, ou apenas mostra uma personagem negra em dificuldades?

Mimi

O diretor Villaça disse que queria retratar a "imensa diferença socioeconômica e cultural" do Brasil. A série parece focar nisso, mas o texto não detalha cenas específicas ou como o racismo é retratado.

Mark

E a comparação com "How to Get Away with Murder"? Villaça nega inspiração.

Mimi

Ele diz que se baseou em documentários brasileiros, não na série americana. O estrutura é parecida — advogada recruta alunos — mas o contexto é completamente diferente.

Luke

Villaça nega inspiração, mas a Netflix tirou "How to Get Away" do catálogo um ano antes de lançar "Habeas Corpus". Coincidência? Não sabemos.

Mark

Qual é a aposta real da Netflix aqui?

Mimi

Produção original brasileira, com atores conhecidos, baseada em realidade. É um investimento em conteúdo local que fala sobre contradições do país.

Luke

E funciona? Não sabemos ainda — a série acabou de chegar. Tudo que temos são promessas de veracidade e boas intenções.

  • A série chega com urgência simbólica: o Brasil ainda não tinha uma produção jurídica original na Netflix, e 'Habeas Corpus' preenche esse vazio com um tema que dói — o racismo institucional nos tribunais.
  • A tensão central não é apenas dramática, mas social: uma advogada traumatizada e uma estudante negra e pobre navegam juntas por um sistema que historicamente as ignora ou condena.
  • A produção provocou desconforto criativo ao exigir rigor documental — roteiristas consultaram o Innocence Project Brasil, observaram julgamentos reais e tiveram advogados revisando cada episódio.
  • Any Gabrielly, que interpreta Marina, traz ao papel uma experiência vivida: cresceu na periferia de São Paulo e já foi, segundo ela própria, 'deixada na mão pela Justiça'.
  • A série se posiciona como provocação política deliberada, com Marjorie Estiano declarando querer oferecer ao espectador reflexões sobre as contradições do país — não apenas uma história.

Em toda sociedade, a Justiça carrega o peso de suas próprias contradições — e é nesse espaço fraturado que a série brasileira 'Habeas Corpus', estreando na Netflix, escolhe habitar. Inspirada no trabalho real do Innocence Project Brasil e nas desigualdades raciais e socioeconômicas que marcam os tribunais do país, a produção acompanha uma advogada que recruta estudantes para inocentar condenados injustamente. Mais do que entretenimento jurídico, a série propõe um espelho incômodo diante de um sistema que, com frequência, pune mais duramente aqueles que já carregam o peso da vulnerabilidade.

Quando a advogada criminalista Inez sofre um atentado, ela abandona os tribunais e passa a lecionar direito. Da sala de aula, recruta estudantes escolhidos a dedo para uma missão paralela: tentar inocentar um homem preso injustamente. É o ponto de partida de 'Habeas Corpus', primeira série jurídica brasileira da Netflix, que estreia nesta quarta-feira.

O diretor Luiz Villaça nega inspiração na americana 'How to Get Away with Murder' — série de estrutura semelhante protagonizada por Viola Davis. Segundo ele, a produção se baseou em documentários sobre a Justiça brasileira e no trabalho do Innocence Project Brasil, instituição que há dez anos revisa erros do judiciário nacional e já ajudou a reverter condenações de 624 inocentes ao redor do mundo. A equipe visitou tribunais reais, observou julgamentos e consultou casos concretos antes de escrever os oito episódios.

O que Villaça queria retratar era algo específico ao Brasil: a desigualdade socioeconômica e racial que marca o país. Por isso, a protagonista Inez, vivida por Marjorie Estiano, divide o centro da narrativa com Marina, uma estudante negra e pobre que carrega segredos próprios e ainda precisa cuidar de um filho. A personagem é interpretada por Any Gabrielly, que cresceu em bairros periféricos de São Paulo. 'Sou preta, nasci pobre, e já fui deixada na mão pela Justiça', diz a atriz. 'Eu conhecia essa hostilidade que pessoas vulneráveis enfrentam.'

Villaça se encantou com a teatralidade dos tribunais: ao observar julgamentos de longe, teve a impressão de que juízes, promotores e defensores encenavam seus discursos para convencer o público. Essa dimensão performática atravessa a série — no primeiro episódio, Estiano gesticula, impõe a voz e muda de tom ao narrar os feitos de seu cliente, até ser atingida por um tiro que a transforma.

Para Marjorie Estiano, 'Habeas Corpus' é mais do que sua estreia em uma produção original da Netflix. 'Quero oferecer reflexões e provocações ao espectador', afirma. 'Me faz um ser político mais engajado.' A série chega em um momento em que a plataforma aposta em narrativas enraizadas na realidade brasileira — não apenas para entreter, mas para expor as contradições de um sistema que, com frequência, pune mais duramente quem já é vulnerável.

Quando a advogada criminalista Inez sofre um atentado, ela abandona a profissão e se torna professora de direito. Dessa sala de aula, ela escolhe estudantes perspicazes para uma missão paralela: tentar inocentar um homem preso injustamente. É o enredo de "Habeas Corpus", série brasileira que estreia nesta quarta-feira na Netflix, e que guarda uma semelhança estrutural com a americana "How to Get Away with Murder" — onde uma advogada também recruta alunos para ajudá-la nos tribunais. Mas ali terminam as coincidências.

O diretor Luiz Villaça, um dos criadores, nega que tenha se inspirado na série de Viola Davis, que saiu do catálogo da Netflix um ano antes do lançamento de "Habeas Corpus". Segundo ele, a produção brasileira se baseou em documentários sobre a Justiça nacional, particularmente nos trabalhos da documentarista Maria Ramos. O que Villaça queria contar era algo muito específico ao Brasil: a "imensa diferença socioeconômica e cultural" que marca o país. Por isso, a protagonista Inez, interpretada por Marjorie Estiano, divide o protagonismo com Marina, uma estudante negra e pobre selecionada para integrar seu grupo de trabalho. Marina carrega segredos próprios e, além de participar das aulas, precisa cuidar de um filho.

A atriz Any Gabrielly, que interpreta Marina, cresceu em bairros periféricos de São Paulo antes de ficar famosa aos 14 anos como integrante do grupo musical Now United. Ela traz para o papel uma compreensão visceral do tema. "Sou preta, nasci pobre, e já fui deixada na mão pela Justiça", diz. "Eu conhecia essa hostilidade que pessoas vulneráveis enfrentam." Para ela, a série preenche uma lacuna: "Muita gente não tem noção sobre as Marinas do nosso país. Ou até têm, mas não pensam nelas."

Embora "Habeas Corpus" e "How to Get Away with Murder" sigam caminhos narrativos distintos, ambas expõem a corrupção da Justiça e os preconceitos do sistema prisional. Na série brasileira, o foco recai especialmente sobre o racismo que permeia os tribunais. Para construir essa narrativa com rigor, Villaça e sua equipe de roteiristas consultaram voluntários do Innocence Project Brasil, uma instituição que há dez anos revisa erros do judiciário brasileiro. O programa, criado em São Paulo, integra uma rede global que já reverteu condenações de 624 inocentes. Os criadores visitaram tribunais reais, observaram julgamentos, consultaram casos concretos e só então escreveram os oito episódios. A Netflix contratou advogados para verificar a veracidade da trama.

Villaça se interessou imediatamente quando descobriu que três advogados do Innocence Brasil recrutam estudantes de faculdades para buscar possíveis inocentes condenados. "É prato cheio para uma série", afirmou. O que o atraiu foi perceber os tribunais como um palco teatral. Observando de longe durante os julgamentos, ele teve a impressão de que juiz, promotores e defensores encenavam seus discursos para impressionar e convencer o público. Essa teatralidade permeia a série: no primeiro episódio, Marjorie Estiano gesticula com os braços erguidos, impõe a voz, muda de tom, faz caras e bocas ao narrar os feitos de seu cliente — até ser atingida por um tiro que a traumatiza.

"Habeas Corpus" marca a primeira participação de Marjorie Estiano em uma produção original da Netflix. Embora tenha ficado conhecida em novelas da Globo, ela passou a se dedicar a obras autorais e independentes. Antes dessa série, já havia investigado o sistema judiciário ao interpretar a socialite Ângela Diniz em uma minissérie da HBO no ano passado. "Sou grata por estudar cidadania, meu país, o humano, as nossas contradições", diz. "Quero oferecer reflexões e provocações ao espectador. Me faz um ser político mais engajado."

A série chega um ano após "How to Get Away with Murder" deixar o catálogo da plataforma. Quando a série americana estreou no Brasil em 2015, a Netflix ainda apostava em conteúdo estrangeiro para atrair assinantes e se estabelecer como alternativa à televisão tradicional. Agora, com "Habeas Corpus", a plataforma investe em uma narrativa enraizada na realidade judicial brasileira, buscando expor não apenas a corrupção, mas a hostilidade sistemática que pessoas vulneráveis enfrentam nos tribunais do país.

Nosso sistema judicial é completamente diferente do mostrado nas séries de fora. A gente se baseou em documentários
— Luiz Villaça, diretor de 'Habeas Corpus'
Sou preta, nasci pobre, e já fui deixada na mão pela Justiça. Eu conhecia essa hostilidade que pessoas vulneráveis enfrentam
— Any Gabrielly, atriz
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