Saúde premium aposta em check-up mental, exames preditivos e anéis inteligentes

Cláudia Realista, 59 anos, sofreu infarto neste ano, passou oito dias na UTI e encontrou dificuldade para obter acompanhamento cardiológico próximo de casa.
A vida acontece entre as consultas.
Frase da diretora médica da Le Health, Nathally Baston, que resume a aposta no monitoramento remoto.
Mark

Por que a história da Cláudia abre a reportagem?

Mimi

Porque mostra a lacuna que esse mercado quer ocupar. Ela saiu de oito dias de UTI e ouviu para voltar em seis meses. Foi aí que procurou a Le Health.

Mark

E o mercado é grande?

Mimi

A Bain estima R$ 15 bilhões em 2025, com crescimento de cerca de 5% ao ano. O Fleury calcula R$ 38 bilhões para a longevidade, uma definição mais ampla.

Luke

Convém separar as duas cifras: são estimativas de fontes diferentes, com recortes distintos. Não dá para somá-las nem compará-las diretamente.

Mark

O check-up mental do Einstein custa R$ 6.800. O que ele entrega?

Mimi

Cinco etapas em cerca de cinco horas e um laudo integrado duas semanas depois, com encaminhamento ao tratamento, se for o caso.

Luke

A reportagem descreve o serviço, mas não traz dados de resultado. Não sabemos quantas pessoas o fizeram nem o que mudou na saúde delas.

Mark

E os anéis e relógios?

Mimi

O próprio CEO do Oswaldo Cruz lembra que não são certificados como dispositivos médicos e podem gerar ruído. Ainda assim, vê utilidade na transição da UTI para o quarto ou para casa.

Luke

A tese de que a IA barateia o monitoramento é de um consultor, Sydow. Aparece como avaliação dele, não como dado medido.

Mark

Então o que fica?

Mimi

Uma aposta em cuidado contínuo, com cautela explícita dos próprios médicos sobre validação científica.

  • Um infarto aos 59 anos transformou uma paciente de Tietê em alguém que procurou, sem sucesso imediato, acompanhamento cardiológico perto de casa.
  • Clínicas de alto padrão disputam pacientes com check-ups mentais de R$ 6.800 e centros de longevidade que mapeiam a saúde por aplicativo.
  • A inteligência artificial barateia exames e monitoramentos, e os hospitais correm para prender o cliente com acompanhamento que dure anos.
  • Relógios e anéis inteligentes coletam dados de sono e batimentos, mas não são certificados como dispositivos médicos e podem gerar mais alarme que diagnóstico.
  • Especialistas pedem validação científica antes de transformar métricas de vestíveis e testes preditivos em decisões clínicas.

Num país em que a alta renda ainda encontra mais portas do que a maioria da população, a saúde premium começa a deslocar o foco do exame anual para o acompanhamento contínuo da mente, do sono e do corpo. Cláudia Realista, que sobreviveu a um infarto e oito dias de UTI, encontrou na distância entre o hospital e a casa uma lacuna que o mercado agora tenta preencher. O setor, que soma cerca de R$ 15 bilhões, cresce de forma modesta, mas sinaliza uma aposta: diante de uma inteligência artificial que barateia diagnósticos, a fidelidade do paciente passa a ser a moeda mais valiosa. Resta saber se a promessa de cuidado acompanhará a ciência que ainda está em construção.

Cláudia Realista, de 59 anos, moradora de Tietê, no interior paulista, sentiu uma dor de estômago e um repuxão no braço. Era um infarto. Atendida na Santa Casa de São Paulo, passou oito dias na UTI. Na alta, ouviu que precisava de um cardiologista perto de casa, mas na cidade a orientação foi voltar em seis meses. "Fiquei meio insegura", diz. Foi nesse intervalo que encontrou a Le Health, clínica inaugurada neste mês, e pagou R$ 1.500 pela primeira consulta.

A história ilustra o movimento do mercado de saúde premium no país. Hospitais, laboratórios e clínicas vão além do check-up anual, com acompanhamento contínuo que inclui saúde mental, sono, alimentação, exames preditivos e dados de relógios e anéis inteligentes. Segundo a Bain & Company, o setor passou de R$ 13 bilhões em 2022 para R$ 15 bilhões em 2025, cerca de 5% ao ano. Para consultores, o público de alta renda busca atendimento personalizado em uma jornada de anos. O consultor Guilherme Hummel Sydow vê nisso uma forma de fidelizar clientes diante da inteligência artificial, e aposta no acompanhamento pós-alta, algo ausente no Brasil hoje.

O Einstein lançou um check-up mental para executivos, com cinco etapas em cerca de cinco horas, que custa R$ 6.800. O psiquiatra Luiz Zoldan observa que, em executivos acima de 60 anos, o exame pode revelar comprometimento cognitivo leve. O Hospital Alemão Oswaldo Cruz mantém um centro de memória com check-up de cerca de R$ 4.000, contratado em geral por empresas, com margem baixa e função de vitrine para formadores de opinião. Já o Grupo Fleury investiu R$ 35 milhões no Lifecare, centro de longevidade para adultos a partir de 35 anos, que oferece o relógio epigenético e o exame Galleri, de sangue, para sinais de mais de 50 tipos de câncer. A maioria dos pacientes são mulheres de 40 a 55 anos, com queixas ligadas à menopausa.

Na Le Health, o foco é o monitoramento remoto. Relógios e anéis geram dados de sono, frequência cardíaca e desempenho, acompanhados à distância por uma equipe que ajusta alertas a cada paciente. Cláudia, que se sentiu "em casa" ali, passará a usar um anel inteligente.

As cautelas, porém, permanecem. Relógios e anéis não são certificados como dispositivos médicos e podem gerar mais ruído do que decisão clínica. O multicâncer, segundo o próprio Oliveira, não resolve sozinho e precisa de contexto clínico. As médicas da Le Health criticam a obsessão por métricas, e o Einstein ainda não incorporou vestíveis ao check-up mental por falta de validação científica de muitos aparelhos.

Cláudia Realista, 59 anos, moradora de Tietê, no interior paulista, sentiu uma dor de estômago e um repuxão no braço. Era um infarto. Ela foi atendida na Santa Casa de São Paulo e passou oito dias na UTI. Na alta, ouviu que precisava de um cardiologista perto de casa. No consultório da cidade, a orientação foi voltar em seis meses. "Fiquei meio insegura", diz. Foi nesse intervalo que ela encontrou a Le Health, uma clínica inaugurada neste mês, e pagou R$ 1.500 pela primeira consulta.

A história ajuda a entender para onde caminha o mercado de saúde premium no Brasil. Hospitais, laboratórios e clínicas de alto padrão têm ido além do check-up anual e oferecem acompanhamento contínuo, com atenção à saúde mental, ao sono e à alimentação, além de exames preditivos e dados de relógios e anéis inteligentes. Segundo a Bain & Company, o mercado de saúde de luxo no país passou de R$ 13 bilhões em 2022 para R$ 15 bilhões em 2025, alta acumulada de 15,4%, ou cerca de 5% ao ano.

Para consultores, o público de alta renda procura menos tratamentos de luxo e mais atendimento personalizado, em uma jornada de anos que envolve longevidade, desempenho físico e equilíbrio emocional. O consultor Guilherme Hummel Sydow, do EMI-eHealth Mentor Institute, vê nesses serviços uma tentativa de fidelizar clientes diante da inteligência artificial, que barateia exames, procedimentos e monitoramentos por vestíveis. Ele aposta no acompanhamento pós-alta: "Hoje, quando você sai do hospital no Brasil, ninguém liga, ninguém quer saber como você está. Isso vai mudar."

O Einstein Hospital Israelita lançou um check-up de saúde mental para executivos. Em cerca de cinco horas, o paciente passa por cinco etapas: consulta com psiquiatra sobre estilo de vida e estresse, testes cognitivos com óculos de realidade virtual, avaliação de personalidade com neuropsicóloga, análise da alimentação e do "comer emocional" e biofeedback. Custa R$ 6.800 para pessoa física. Duas semanas depois sai um laudo integrado, com encaminhamento ao tratamento no próprio hospital, se necessário. O psiquiatra Luiz Zoldan diz que, em executivos acima de 60 anos, o exame pode revelar comprometimento cognitivo leve, e que programas desse tipo só funcionam com apoio da alta liderança.

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz mantém um centro de memória com testes, equipe multidisciplinar e quatro consultas para tentar adiar a perda cognitiva. Seu check-up, de cerca de R$ 4.000 (R$ 500 a mais para mulheres), inclui avaliação de estresse com psicólogo e plano de exercícios. Contratado em geral por empresas, tem margem baixa e serve, segundo o CEO José Marcelo de Oliveira, como experiência diferenciada para formadores de opinião e tomadores de decisão. Se algo for detectado, o tratamento passa a ser coberto pelo plano de saúde. A próxima fronteira, diz ele, são testes de risco genético, como os de BRCA1 e BRCA2.

O Grupo Fleury investiu R$ 35 milhões no Lifecare, centro de longevidade aberto em maio para adultos a partir de 35 anos. A empresa estima que o setor movimente R$ 38 bilhões por ano no país. A consulta inicial custa R$ 1.500, e o resultado é um "mapa de saúde" acompanhado por aplicativo, com nutrição, ioga e mindfulness. Há ainda o relógio epigenético, que estima a idade biológica pelo DNA, e o Galleri, exame de sangue que busca sinais de mais de 50 tipos de câncer. Segundo o endocrinologista Pedro Saddi, a maioria dos pacientes são mulheres de 40 a 55 anos, com queixas ligadas à menopausa, como névoa mental e distúrbios de sono. Uma surpresa foi a vacinação incompleta: no adulto, nenhuma especialidade cuida disso. O centro estuda levar serviços à casa do paciente.

A Le Health, no complexo da Fazenda Boa Vista e do Boa Vista Village, aposta no monitoramento remoto. Relógios e anéis geram dados de sono, frequência cardíaca e desempenho, acompanhados à distância. A diretora médica, Nathally Baston, diz que a vida acontece entre as consultas. Um software ajusta os alertas a cada paciente, em vez de usar limites padronizados, e o aplicativo permite que a família acompanhe até cinco parentes. Cláudia, que se sentiu "em casa" ali, passará a usar um anel inteligente.

Há cautelas. Oliveira lembra que relógios e anéis não são certificados como dispositivos médicos e podem gerar mais ruído do que decisão clínica; para ele, fazem diferença em transições como UTI-quarto ou hospital-casa. Sobre o multicâncer, diz que o teste sozinho não resolve e precisa de contexto clínico. As médicas da Le Health criticam a obsessão por métricas como horas de sono e VO2 máximo, e Zoldan explica que o Einstein ainda não incorporou vestíveis ao check-up mental por falta de validação científica de muitos aparelhos.

O teste sozinho não vai resolver nada. Ele vai precisar do contexto clínico.
— José Marcelo de Oliveira, CEO do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, sobre testes multicâncer
Hoje, quando você sai do hospital no Brasil, ninguém liga, ninguém quer saber como você está. Isso vai mudar.
— Guilherme Hummel Sydow, consultor de inovação em saúde
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