Samuel Pessoa: a baixa produtividade é o limite da Nova República e explica a fuga do emprego formal

Para metade dos brasileiros, a carteira assinada deixou de ser objeto de desejo
Pessoa interpreta pesquisa do Meio sobre o que os eleitores entendem por melhorar de vida.
Mark

Por que uma pergunta sobre "melhorar de vida" abre uma coluna sobre produtividade?

Mimi

Porque Pessoa lê a resposta como sintoma. Entre eleitores de Flávio, 62,3% querem o próprio negócio; entre eleitores de Lula, 65,4% querem a carteira assinada. Para ele, metade do país deixou de desejar o emprego formal.

Mark

E a ligação com a produtividade?

Mimi

Ele diz que a produtividade da hora trabalhada cresceu 0,8% ao ano de 1985 a 2025, contra 2% nos EUA. Acumulado: 40% contra 123%.

Luke

Vale separar as coisas. Os números da pesquisa e da produtividade vêm de fontes citadas. Já a ligação entre os dois, de que a baixa produtividade explica a fuga do emprego formal, é interpretação do colunista.

Mark

Ele cita causas?

Mimi

Duas: a escola fundamental pública fraca e instituições que não tiram do mercado as empresas menos produtivas. Menciona a tributação, a legislação trabalhista, a regulação e o Judiciário.

Luke

Mas o texto não traz dados que meçam o peso de cada fator no Brasil. A afirmação de que metade da diferença entre países vem de habilidades é apresentada sem fonte.

Mark

E o argumento de que a estabilização atrapalhou os primeiros anos?

Mimi

Ele responde que de 1995 a 2025 o resultado é parecido: 31% no período, 0,9% ao ano.

Luke

Isso é um ponto concreto. Já a previsão de que não há melhora à vista se apoia no tom da campanha, o que é impressão, não dado.

  • A produtividade da hora trabalhada cresceu cerca de 0,8% ao ano entre 1985 e 2025, enquanto os Estados Unidos avançaram 2% ao ano, e a distância só aumenta.
  • Pesquisa do canal Meio mostra eleitores de Flávio Bolsonaro e de Lula com ideias opostas sobre o que é melhorar de vida, e metade do país deixou de desejar o emprego formal.
  • A escola pública de ensino fundamental aparece como gargalo central, com a indisciplina dos alunos apontada como principal problema para 90% deles.
  • Empresas ineficientes seguem operando, e o sistema tributário, trabalhista e judicial falha em deslocar capital e trabalho para as firmas mais produtivas.
  • MEI, Simples e lucro presumido se expandem, e a tendência é que o empreendedorismo de baixa produtividade cresça ainda mais, sem sinal de mudança na campanha eleitoral.

Num país que aprendeu a medir o sucesso pela segurança de um emprego formal ou pela liberdade de um negócio próprio, o economista Samuel Pessoa, em sua coluna na Folha de S.Paulo, lê um mesmo sintoma: a produtividade brasileira, que desde 1985 avança em ritmo modesto diante de economias como a dos Estados Unidos, revela uma promessa da Nova República que não se cumpriu. Para ele, as raízes estão numa escola pública que não forma habilidades cognitivas e socioemocionais e em instituições que deixam sobreviver empresas ineficientes, impedindo que capital e trabalho migrem para onde seriam mais produtivos. O quadro se fecha com regimes especiais que, ao acolher o pequeno negócio sem exigir ganho de escala, parecem apenas adiar o problema.

Na semana passada, o canal Meio perguntou aos brasileiros o que significa melhorar de vida. As respostas separaram eleitores de Flávio Bolsonaro e de Lula de forma marcante: para os primeiros, ter o próprio negócio vem em primeiro lugar; para os segundos, o emprego com carteira assinada. Para Samuel Pessoa, em sua coluna na Folha, esse retrato revela que, para metade da população, o emprego formal deixou de ser um sonho, e que isso reflete a grande derrota da Nova República: não ter conseguido elevar a produtividade.

Os números são eloquentes. Entre 1985 e 2025, a produtividade da hora trabalhada no Brasil cresceu 0,8% ao ano, contra 2% nos Estados Unidos. Mesmo descontando a década de estabilização econômica, o ritmo entre 1995 e 2025 foi de apenas 0,9% ao ano.

Pessoa aponta duas causas principais. A primeira é a baixa qualidade do ensino fundamental público, já que habilidades cognitivas e socioemocionais, que explicam metade das diferenças de produtividade entre países, se formam na escola. A segunda é a falha das instituições em garantir que capital e trabalho migrem das empresas menos produtivas para as mais produtivas, papel que cabe às leis tributárias e trabalhistas, à regulação e ao Judiciário.

O resultado é um ciclo perverso. Onde a alocação é ruim, o trabalhador não ganha produtividade ao longo da vida, como acontece nos países ricos. No Brasil, regimes como MEI, Simples e lucro presumido se multiplicam para acolher pequenos negócios ineficientes, e a política, ao ampliá-los, agrava o problema. Pelo tom da campanha atual, o colunista não vê sinais de mudança.

Na semana passada, o canal jornalístico Meio divulgou uma pesquisa com uma pergunta simples: o que significa "melhorar de vida"? As respostas, diz o economista Samuel Pessoa em sua coluna na Folha de S.Paulo, revelam a economia que o país construiu nas últimas quatro décadas.

Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), 62,3% responderam que melhorar de vida é ter o próprio negócio. Entre os eleitores de Lula (PT), foram 33,5%. Já trabalhar com carteira assinada, em contrato CLT, foi a resposta de 30,2% dos eleitores de Flávio e de 65,4% dos eleitores de Lula. Para Pessoa, o quadro mostra que, para metade da população brasileira, o emprego formal deixou de ser objeto de desejo.

Ele vê nisso a grande derrota da Nova República: a incapacidade de elevar a produtividade. Segundo o observatório da produtividade Regis Bonelli, do FGV Ibre, a produtividade da hora trabalhada no Brasil cresceu 0,8% ao ano entre 1985 e 2025. Nos Estados Unidos, no mesmo período, o ritmo foi de 2% ao ano. Em termos acumulados, o avanço foi de 40% aqui e de 123% lá.

O colunista antecipa uma objeção: a primeira década do período, de 1985 a 1994, foi consumida pela estabilização da economia. Mas os números do intervalo seguinte não são melhores. Entre 1995 e 2025, a produtividade da hora trabalhada no país subiu 31%, ou 0,9% ao ano.

Pessoa aponta dois determinantes próximos para esse desempenho. O primeiro é a baixa qualidade da escola pública de ensino fundamental. Metade das diferenças de produtividade do trabalho entre economias de alta e de baixa produtividade, afirma, se explica por habilidades cognitivas e socioemocionais embutidas nas pessoas, e ambas se adquirem na escola. Ele lembra que, como tratou em coluna recente, para 90% dos alunos o maior problema das escolas públicas é a indisciplina dos próprios estudantes.

O segundo determinante é o marco legal e institucional que deveria favorecer a correta alocação de capital e trabalho. Segundo o autor, essa alocação não depende de este ou aquele setor, mas de esta ou aquela empresa, já que a produtividade varia muito entre firmas do mesmo setor. Boas instituições, sobretudo as legislações tributária e trabalhista, a regulação em geral e o bom funcionamento do Judiciário, fazem com que as empresas menos produtivas deixem de operar e que capital e trabalho migrem para as mais produtivas.

Um setor formal bem regulado também cria um ciclo de vida do trabalho. Nos países ricos, a produtividade do trabalhador cresce ao longo da vida, porque conhecimento e experiência aumentam. Esse processo piora muito onde há má alocação generalizada dos fatores de produção, como nos países presos na armadilha da renda média.

No Brasil, observa Pessoa, os regimes especiais que subsidiam empresas pequenas e ineficientes, como MEI, Simples e lucro presumido, só têm crescido. Diante da mediocridade geral da economia, a aposta de cada pessoa é o empreendedorismo individual, de baixa produtividade. A política responde ampliando o espaço desses regimes, e o problema se agrava. Pelo tom da atual campanha eleitoral, conclui, não há melhora à vista.

A desistência do contrato formal de trabalho por metade da população expressa a grande derrota da Nova República: a incapacidade de elevar a produtividade.
— Samuel Pessoa, colunista da Folha (paráfrase)
Contact Us FAQ