Quando um apresentador português descreveu um arquiteto acusado de assédio e filmagem não consentida como um 'ícone' cujas 'asneiras' não o definem, a reação foi imediata — e reveladora. O episódio não é apenas sobre uma publicação apagada ou um pedido de desculpas nas histórias do Instagram; é sobre como sociedades inteiras aprendem, ao longo de décadas, a transformar o abuso em lenda urbana. Em Portugal, em 2021, a pergunta que ressoa não é quem errou, mas por que razão o erro pareceu, por um momento, tão natural.
Rui Unas recua após críticas por apresentação de Tomás Taveira como 'ícone'
Um homem não pode ser definido apenas pelas asneiras que fez
Porque é que isto importa agora, mais de trinta anos depois?
Porque nunca foi realmente resolvido. O caso foi enterrado, transformado em anedota, e Taveira continuou a ser uma figura pública respeitada. Quando Unas o apresenta como "ícone", está a validar essa normalização.
Mas cuidado — as mulheres nunca apresentaram queixa formal. Sabemos que houve vídeos, sabemos que houve chantagem, mas o que exatamente foi provado em tribunal?
Taveira processou a revista, sim, mas por invasão de privacidade, não por negar os atos. E o primeiro-ministro da altura escolheu chamar-lhe "notícias falsas".
Então o silêncio das vítimas — foi medo?
Provavelmente. Eram outras épocas, outras dinâmicas de poder. Uma era aluna dele, potencialmente. Outra era casada com um ministro. Quem ia acreditar?
Ainda assim, não sabemos os nomes delas, não sabemos os detalhes completos. O que sabemos é o que a revista publicou e o que a história oral preservou.
E agora, com Sofia Arruda a falar, sente-se que algo está a mudar?
Há uma abertura, sim. Mas Sara Barros Leitão teve de dizer "temos de chegar lá um dia" — o que significa que ainda não chegámos.
E Rui Unas pediu desculpas. Isso é importante — mostra que há consequências, que as pessoas estão a ouvir.
Ou mostra apenas que ele teve medo de ser cancelado.
Talvez. Mas o medo de ser cancelado é, neste caso, o que força a mudança de narrativa.
Il Polso
- Rui Unas anunciou uma entrevista com Tomás Taveira chamando-o de 'ícone' e minimizando os seus atos como meras 'asneiras', ignorando um escândalo de assédio e filmagem não consentida que data de 1989.
- A reação nas redes sociais foi imediata e severa: figuras públicas e utilizadores comuns denunciaram a linguagem como uma normalização de comportamentos predatórios que nunca foram verdadeiramente julgados.
- O caso de Taveira — que envolveu chantagem, assédio e gravação de atos sexuais sem consentimento de várias mulheres — foi enquadrado na época como invasão de privacidade e nunca resultou em queixa formal, cristalizando-se como uma espécie de mito pop.
- Perante a avalanche de críticas, Unas removeu a publicação e pediu desculpas, admitindo que a mensagem era contrária aos seus próprios princípios.
- A controvérsia coincidiu com as declarações da atriz Sofia Arruda sobre assédio televisivo, abrindo uma conversa mais ampla sobre a ausência de um movimento #MeToo em Portugal e a persistência do silêncio institucional.
Quando um apresentador português descreveu um arquiteto acusado de assédio e filmagem não consentida como um 'ícone' cujas 'asneiras' não o definem, a reação foi imediata — e reveladora. O episódio não é apenas sobre uma publicação apagada ou um pedido de desculpas nas histórias do Instagram; é sobre como sociedades inteiras aprendem, ao longo de décadas, a transformar o abuso em lenda urbana. Em Portugal, em 2021, a pergunta que ressoa não é quem errou, mas por que razão o erro pareceu, por um momento, tão natural.
Rui Unas publicou no Instagram um texto a apresentar o próximo episódio do seu podcast, com o arquiteto Tomás Taveira como convidado. Descreveu-o como um 'ícone' e escreveu que 'um homem não pode ser definido apenas pelas asneiras que fez na vida'. A frase desencadeou uma reação imediata e severa.
O problema estava no peso real daquelas 'asneiras'. Em 1989, Taveira foi envolvido num escândalo sexual: a revista Semana Ilustrada divulgou imagens retiradas de vídeos íntimos, e os relatos da época descreviam um esquema de assédio, chantagem e filmagem de atos sexuais com várias mulheres sem o seu consentimento. As vítimas nunca apresentaram queixa formal. O então primeiro-ministro Cavaco Silva enquadrou as acusações como 'notícias falsas ou caluniosas', e Taveira ganhou um processo contra a revista por abuso de liberdade de imprensa. O caso sobreviveu nas décadas seguintes como uma espécie de lenda urbana.
Helena Ferro de Gouveia foi uma das primeiras a reagir: 'Asneiras fazem os putos de 5 anos quando riscam o sofá da sala.' Pedro Miguel Coelho, do Espalha Factos, foi mais direto, criticando a glorificação de 'um homem que foi um predador e um abusador' em espaços de entretenimento. Nessa quinta-feira, Unas e Taveira dominavam as tendências do Twitter, dividindo a plataforma entre piadas e indignação genuína.
Perante a pressão, Unas removeu a publicação e pediu desculpas nas histórias do Instagram, reconhecendo que a mensagem era contrária aos seus próprios princípios.
A controvérsia chegou numa semana em que a atriz Sofia Arruda denunciou publicamente ter sido vítima de assédio numa estação de televisão — e de ter pago por isso com anos de ausência desse espaço. A atriz Sara Barros Leitão expressou esperança de que Portugal chegasse um dia a um ajuste de contas genuíno com o seu passado de silêncio. Os dois episódios convergiram para a mesma pergunta incómoda: quando é que a sociedade portuguesa estará realmente pronta para deixar de transformar o abuso em cultura pop?
Rui Unas publicou um texto no Instagram para apresentar o próximo episódio do seu podcast Maluco Beleza, que teria como convidado o arquiteto Tomás Taveira, de 82 anos. Na introdução, Unas descreveu Taveira como um "ícone" e escreveu que "um homem não pode ser definido apenas pelas asneiras que fez na vida". A frase desencadeou uma reação imediata e severa nas redes sociais.
O problema estava no que aquelas "asneiras" realmente significavam. Em 1989, um escândalo sexual envolvendo Taveira veio à luz quando a revista Semana Ilustrada divulgou imagens retiradas de vídeos de conteúdo sexual. Segundo os relatos da época, o arquiteto estava envolvido num esquema de assédio, chantagem e filmagem de atos sexuais com várias mulheres, tudo sem o seu consentimento. As mulheres nunca apresentaram queixa formal e nunca foram identificadas publicamente, embora rumores da época sugerissem que poderiam ser alunas suas ou até a mulher de um ministro. Quando o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva se dirigiu ao país sobre o assunto — no mesmo dia em que caiu o muro de Berlim — escolheu enquadrar as acusações como "notícias falsas ou caluniosas", o que reforçou a narrativa de que se tratava de uma conspiração.
Helena Ferro de Gouveia, atual diretora de Comunicação, foi uma das primeiras a reagir no Twitter. "Asneiras fazem os putos de 5 anos quando riscam o sofá da sala", escreveu, sublinhando a inadequação de usar a palavra para descrever o que Taveira havia feito. Pedro Miguel Coelho, fundador do site Espalha Factos, foi mais direto: "Tomás Taveira, e aquilo que fez, foi normalizado em Portugal quase como lenda urbana e pedaço de cultura pop nas últimas quatro décadas. Em 2021, espaços de entretenimento não deviam usar a plataforma que têm para glorificar, como ícone, um homem que foi um predador e um abusador."
O que havia sido enquadrado nos anos 80 como uma questão de invasão de privacidade — Taveira havia processado a revista por abuso de liberdade de imprensa e ganhou — teria hoje um enquadramento muito mais grave. Mas apesar de mais de três décadas terem passado, o caso nunca desapareceu completamente da memória coletiva. Nesta quinta-feira, tanto Rui Unas como Tomás Taveira ocupavam os lugares cimeiros das tendências do Twitter, dividindo a plataforma entre piadas e uma onda de indignação genuína.
Perante a avalanche de críticas, Rui Unas removeu a publicação original em que surgia ao lado do arquiteto. Publicou depois um pedido de desculpas nas histórias do Instagram: "Se a mensagem é mal interpretada por muitos e até contrária aos teus princípios, o melhor é retractarmo-nos e, humildemente, corrigir."
A controvérsia chegou numa semana particularmente sensível. A atriz Sofia Arruda havia denunciado no programa Alta Definição, da SIC, que foi vítima de assédio numa estação de televisão. Depois de recusar aproximações de um superior, ouviu: "Então, tu nunca mais vais trabalhar aqui." E durante anos, de facto, não trabalhou nesse espaço. As suas declarações foram recebidas com ceticismo por alguns, que a acusaram de procurar protagonismo. Mas a reação maioritária foi de solidariedade. A atriz Sara Barros Leitão lamentou que o testemunho de Sofia Arruda pudesse não ser o catalisador para um movimento #MeToo em Portugal, mas expressou esperança: "Temos de chegar lá um dia."
Os dois episódios — o de Rui Unas e o de Sofia Arruda — convergiram para uma questão mais ampla: como Portugal lida com a normalização do abuso, como permite que predadores se tornem lendas urbanas, e quando é que a sociedade portuguesa estará realmente pronta para uma reckoning genuína com o seu passado de silêncio.
Citazioni salienti
Asneiras fazem os putos de 5 anos quando riscam o sofá da sala— Helena Ferro de Gouveia, diretora de Comunicação, no Twitter
Em 2021, espaços de entretenimento não deviam usar a plataforma que têm para glorificar, como ícone, um homem que foi um predador e um abusador— Pedro Miguel Coelho, fundador do site Espalha Factos