Na virada de uma segunda-feira para terça-feira, em Porto Alegre, o Rio Grande do Sul deu início à sua campanha de vacinação contra a Covid-19 — um gesto simbólico e prático que reuniu, em uma mesma sala, cinco pessoas escolhidas para encarnar a diversidade dos mais vulneráveis: a idosa, o médico, a indígena, a trabalhadora da limpeza, a técnica de enfermagem. Após meses de quase 10 mil mortes e mais de 508 mil infecções, o Estado atravessou atrasos logísticos e incertezas para finalmente aplicar as primeiras doses da Coronavac. É o momento em que uma sociedade, depois de longa escuridão, deci
RS inicia vacinação contra covid com cinco representantes de grupos prioritários
Insistir no tratamento precoce é vender uma ilusão
Por que escolher exatamente essas cinco pessoas para serem as primeiras?
Cada uma delas representava um grupo que seria priorizado. A idosa de 99 anos simbolizava os mais velhos em asilos. O médico representava os profissionais de saúde. A indígena trazia visibilidade para uma população historicamente negligenciada. A auxiliar de limpeza e a técnica de enfermagem mostravam que não era só médico — era todo mundo que estava na linha de frente.
O governador fez questão de criticar o negacionismo e o tratamento precoce. Por que isso era importante naquele momento?
Porque havia confusão. O presidente da República estava promovendo medicamentos sem eficácia comprovada. Alguns estados estavam seguindo. O Rio Grande do Sul precisava deixar claro: aqui a gente segue a ciência, não a política.
Os atrasos logísticos parecem ter sido frustrantes. Qual era o risco real se as vacinas não chegassem?
Não era só frustração. Era sinal de desorganização federal. Se o Rio Grande do Sul não conseguisse vacinar, outros estados também não conseguiriam. A população já estava cansada, morrendo. Cada dia de atraso era mais gente infectada.
A secretária de Saúde chorou. O que ela estava sentindo naquele momento?
Alívio, provavelmente. Ela havia passado meses vendo pessoas morrerem, sabendo que havia uma solução mas não podendo usar. Aquela noite significava que o fim estava começando a aparecer no horizonte.
Como o Estado planejava distribuir as doses para 497 municípios?
Começaria pelas 18 coordenadorias regionais na terça-feira. Cada região receberia uma quantidade proporcional à sua população. Assim, na quarta-feira, a campanha poderia ganhar velocidade em todo o Estado simultaneamente.
El Pulso
- Atrasos sucessivos — de voos atrasados a negociações sobre rotas alternativas — fizeram a vacinação escorregar do fim da tarde para depois das 23 horas, testando a paciência de um Estado que já esperava demais.
- Com quase 10 mil mortos e mais de 508 mil infectados, o Rio Grande do Sul chegou a esse momento carregando o peso de uma pandemia que consumiu meses de luto e exaustão coletiva.
- O governador Eduardo Leite aproveitou o palco para confrontar diretamente o negacionismo e declarar sem rodeios que insistir no 'tratamento precoce' sem evidência científica é 'vender uma ilusão'.
- A secretária de Saúde, Arita Bergmann, chorou ao discursar — 'Eu pensei que não iria viver este dia' —, traduzindo em lágrimas o alívio de toda uma classe que esteve na linha de frente.
- A partir de terça-feira, as 341,8 mil doses começam a ser distribuídas para 18 coordenadorias regionais, com todos os 497 municípios gaúchos prontos para iniciar suas campanhas até quarta-feira.
Na virada de uma segunda-feira para terça-feira, em Porto Alegre, o Rio Grande do Sul deu início à sua campanha de vacinação contra a Covid-19 — um gesto simbólico e prático que reuniu, em uma mesma sala, cinco pessoas escolhidas para encarnar a diversidade dos mais vulneráveis: a idosa, o médico, a indígena, a trabalhadora da limpeza, a técnica de enfermagem. Após meses de quase 10 mil mortes e mais de 508 mil infecções, o Estado atravessou atrasos logísticos e incertezas para finalmente aplicar as primeiras doses da Coronavac. É o momento em que uma sociedade, depois de longa escuridão, decide que a ciência é o caminho.
Pouco antes da meia-noite de 18 de janeiro, cinco pessoas entraram juntas em uma sala do Hospital de Clínicas de Porto Alegre para receber as primeiras doses da Coronavac no Rio Grande do Sul. Cada uma delas representava um grupo prioritário: Eloina, 99 anos, moradora de asilo; Jorge, médico de UTI; Carla, indígena kaingang de 32 anos; Joelma, trabalhadora da limpeza hospitalar; e Aline, técnica de enfermagem em unidade covid. Juntas, encarnavam a lógica da campanha — proteger primeiro quem estava mais exposto e mais vulnerável.
Chegar até ali não foi simples. O Estado havia recebido 341,8 mil doses, mas obstáculos logísticos do Ministério da Saúde foram empurrando o horário: do fim da tarde para as 21h30, e depois para depois das 23 horas, quando o voo da Azul atrasou e chegou a se cogitar transporte por estrada ou avião da FAB. Mas as vacinas chegaram.
Diante da multidão reunida no hospital, o governador Eduardo Leite fez uma declaração abertamente política: defendeu a ciência, criticou narrativas negacionistas e foi direto ao ser questionado sobre o chamado tratamento precoce. 'Insistir no tratamento precoce, na minha opinião, é vender uma ilusão', afirmou. A secretária estadual de Saúde, Arita Bergmann, chorou ao microfone. 'Eu pensei que não iria viver este dia', disse.
O plano seguinte era distribuir as doses para as 18 coordenadorias regionais a partir de terça-feira, alcançando todos os 497 municípios gaúchos. Porto Alegre recebeu 51,6 mil doses. A campanha deveria ganhar ritmo a partir de quarta-feira. Mas naquela noite, o que importava era o primeiro passo: uma agulha, cinco pessoas, e uma centelha de esperança depois de meses de morte e incerteza.
Pouco antes da meia-noite de segunda-feira, 18 de janeiro, o Rio Grande do Sul enfim começou a vacinar sua população contra a covid-19. Cinco pessoas entraram simultaneamente em uma sala do Hospital de Clínicas de Porto Alegre para receber as primeiras doses da Coronavac — cada uma delas escolhida para representar um segmento diferente dos grupos que seriam priorizados nos dias seguintes. Havia Eloina Gonçalves Born, uma mulher de 99 anos moradora de um asilo. Havia Jorge Amilton Hoher, médico responsável pela unidade de terapia intensiva da Santa Casa. Havia Carla Ribeiro, 32 anos, indígena da etnia kaingang. Havia Joelma Kazimirski, 48 anos, que trabalha limpando hospitais. E havia Aline Marques da Silva, 40 anos, técnica de enfermagem em uma unidade covid. Juntas, elas encarnavam a intenção do Estado: proteger primeiro quem estava mais exposto, quem era mais velho, quem era mais vulnerável.
O atraso para chegar até ali havia sido longo. O Estado recebeu 341,8 mil doses, mas a logística do Ministério da Saúde criou obstáculos sucessivos. Pela manhã, o governador Eduardo Leite havia dito que a vacinação começaria no fim da tarde. Depois mudou para as 21h30. Quando o voo da companhia aérea Azul atrasou, o governo precisou reagendar tudo para depois das 23 horas. Em algum momento, discutiu-se até a possibilidade de trazer as vacinas por estrada ou em um avião da Força Aérea Brasileira. Mas enfim chegaram.
O Rio Grande do Sul naquele momento contabilizava mais de 508 mil pessoas infectadas e quase 10 mil mortas. A pandemia havia consumido meses. Leite, ao falar para a multidão reunida no hospital, não hesitou em fazer uma declaração política. Falou sobre a importância da ciência, sobre a escuridão daqueles que a negam. Criticou diretamente o que chamou de narrativas negacionistas. E quando perguntado sobre o chamado tratamento precoce — a hidroxicloroquina e outros medicamentos que circulavam sem comprovação científica — foi claro: não há evidência que justifique isso. "Insistir no tratamento precoce, na minha opinião, é vender uma ilusão", disse.
A secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann, chorou ao falar. "Eu pensei que não iria viver este dia", disse, emocionada. Leite também dirigiu palavras aos profissionais de saúde que estavam ali e em toda parte, exaustos mas ainda de pé. "Em nome de 11,5 milhões de gaúchos, eu faço um agradecimento aos funcionários da rede pública, do SUS, que garantem o nosso atendimento."
O plano era começar pelos profissionais na linha de frente — médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares. Depois viriam os idosos em instituições de longa permanência e os indígenas, um total de 30,1 mil pessoas. Porto Alegre recebeu 51,6 mil doses. Na terça-feira seguinte, a distribuição começaria para as 18 coordenadorias regionais de saúde do Estado, permitindo que todos os 497 municípios iniciassem suas campanhas. O Estado tinha capacidade de armazenar até 10 milhões de doses.
A partir de quarta-feira, a campanha deveria ganhar ritmo. Mas naquela noite de segunda, o que importava era que o primeiro passo havia sido dado — cinco pessoas representando milhões, uma agulha entrando na pele, uma gota de esperança depois de meses de morte e incerteza.
Citas Notables
Nunca uma noite foi tão clara. Iluminada pela ciência que rompe com a escuridão daqueles que negam a importância da pesquisa— Governador Eduardo Leite
Eu pensei que não iria viver este dia— Secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann