Pesquisa FAPESP publica carta de despedida após 27 anos de excelência em jornalismo científico

Desligamento de 25 jornalistas, vários com duas décadas de dedicação à publicação, sem reconhecimento institucional ou diálogo prévio.
Nem excelência, nem prêmios garantem segurança institucional
A revista recebeu o maior prêmio de jornalismo científico do Brasil enquanto sua equipe era desligada sem reconhecimento.

A revista recebeu o prêmio José Reis de Divulgação Científica em maio, maior reconhecimento do jornalismo científico brasileiro, confirmando sua excelência. A FAPESP reclassificou a revista como veículo institucional, comparando custos com agência de notícias, ignorando diferenças conceituais fundamentais entre jornalismo e comunicação institucional.

  • Revista Pesquisa FAPESP recebeu prêmio José Reis em 25 de maio de 2026
  • Equipe de 25 jornalistas será desligada em junho de 2026
  • Vários integrantes trabalharam na revista por 20 anos
  • 15 milhões de visualizações no site em 2025; 163 mil seguidores no Instagram
  • FAPESP não publicou nota sobre o prêmio em seu site institucional

A revista Pesquisa FAPESP, premiada pelo CNPq em maio de 2026, encerra suas atividades em junho após decisão da FAPESP de reestruturar a publicação e desligar sua equipe de 25 jornalistas.

No dia 25 de maio, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico concedeu à revista Pesquisa FAPESP o prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica de 2026, o maior reconhecimento que o jornalismo científico brasileiro pode receber. A honraria chegava no 27º ano de vida da publicação, confirmando duas décadas e meia de trabalho rigoroso em reportagens sobre pesquisa, tecnologia e política científica no Brasil. Mas havia uma ironia amarga na data: a equipe que construiu essa excelência estava de saída.

A revista nasceu no final dos anos 1990 como um boletim informativo e evoluiu para um veículo de jornalismo sobre ciência de verdade — não comunicação institucional, mas jornalismo. A distinção importava. Enquanto a comunicação institucional serve para divulgar as ações de uma organização, o jornalismo coloca o leitor em primeiro lugar, escolhe suas próprias pautas, questiona, aprofunda. A FAPESP, a fundação que a criou, havia entendido isso perfeitamente quando decidiu criar a revista com uma equipe de jornalistas especializados dedicados integralmente à publicação, mantendo-a separada de sua assessoria de imprensa. Essa visão permitiu que Pesquisa FAPESP se tornasse uma referência nacional.

Ao longo de 27 anos, a revista distribuiu 100 páginas mensais para mais de 4 mil escolas e bibliotecas públicas. Cinco mil pessoas pagavam assinatura mesmo tendo acesso gratuito online. O site recebia 15 milhões de visualizações em 2025. Havia um programa semanal de rádio em parceria com a USP, um canal no YouTube com quase um milhão de visualizações anuais, 163 mil seguidores no Instagram, newsletters, e todo o conteúdo traduzido para inglês e espanhol. Era um projeto ambicioso, sustentado pela estrutura e continuidade que a FAPESP oferecia, e pelo empenho de profissionais que se dedicaram integralmente a produzi-lo.

Mas em algum momento, a visão se perdeu. A FAPESP começou a ver a revista não como um projeto jornalístico, mas como um veículo institucional — e portanto, comparável a uma agência de notícias. Em 9 de março de 2026, a direção da fundação emitiu um comunicado comparando o desempenho de Pesquisa FAPESP ao de sua agência de notícias e cotejando custos de produção com os da gerência de comunicação institucional. A única métrica mencionada era "menções na mídia nacional e internacional" — um indicador que faz sentido para assessoria de imprensa, não para jornalismo. Era uma confusão conceitual fundamental: comparar objetos de categorias diferentes como se fossem equivalentes, exatamente o tipo de erro que a FAPESP ensinaria a qualquer pesquisador iniciante a não cometer.

Produzir jornalismo de qualidade tem custo, assim como fazer ciência com rigor tem custo. A revista mantinha procedimentos rigorosos de checagem e aperfeiçoamento de texto. Suas pautas eram avaliadas e aprovadas pela direção da FAPESP antes de ir para a gráfica. Nenhuma edição circulava sem o aval de todos os diretores. Mas números fantasiosos sobre o custo da revista começaram a circular na comunidade científica, difundidos por jornalistas sem verificação. A desinformação, somada à confusão conceitual sobre o propósito da revista e a dificuldades operacionais resultantes de escolhas administrativas equivocadas, levaram a uma reestruturação radical em 2026.

Em junho, toda a equipe de 25 pessoas seria desligada. Vários deles haviam trabalhado na revista por vinte anos. Nenhuma palavra de reconhecimento foi dirigida a eles. A FAPESP não publicou sequer uma nota em seu site institucional ou na Agência FAPESP sobre o prêmio José Reis que a revista havia recebido. Dezesseis jornalistas — Fabrício Marques, Maria Guimarães, Carlos Henrique Fioravanti, Ana Paula Orlandi, Yuri Vasconcelos, Christina Queiroz, Marcos Pivetta, Alexandra Ozorio de Almeida, Claudia Warrak, Andressa Matias, Ingrid Teodoro, Leonardo Ramos Chaves, Valter Rodrigues da Silva, Maria Paula Iliadis, Alexandre Affonso e Maria Cecilia Felli — assinaram uma carta de despedida em 8 de junho. Nela, descreveram um processo marcado pela ausência de diálogo, propostas de trabalho precarizado, informações contraditórias ou erradas, e insinuações sobre "usos político-partidários" da revista — acusações que não se sustentavam, já que toda pauta havia sido previamente avaliada e aprovada pela própria direção da FAPESP.

A ironia final era que a revista receberia o prêmio José Reis na reunião anual da SBPC em julho. A FAPESP e a nova equipe que a substituiria receberiam também a responsabilidade de levar adiante um projeto sério de jornalismo científico brasileiro, fazendo jus à história que Pesquisa FAPESP havia construído. Mas a história que a revista havia construído — 27 anos de excelência, rigor, independência editorial dentro de uma instituição científica — terminava com a saída silenciosa de uma equipe que merecia mais que o silêncio.

Uma revista jornalística tem por objetivo expor resultados de forma abrangente e crítica, escolhendo pautas e cuidando do texto de modo a atrair e reter a atenção dos leitores. Já a missão de uma agência de notícias institucional é fornecer a outros veículos de comunicação informações pertinentes à atuação da instituição que a abriga.
— Carta de despedida da equipe de Pesquisa FAPESP
Uma equipe em que vários integrantes trabalharam por vinte anos foi dispensada sem nenhuma palavra de reconhecimento.
— Carta de despedida da equipe de Pesquisa FAPESP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que uma fundação que financia pesquisa científica não entenderia a diferença entre jornalismo e comunicação institucional?

Model

Porque em algum momento a prioridade mudou. No começo, a FAPESP tinha uma visão clara: criar um espaço onde jornalistas pudessem falar diretamente com a população sobre ciência, sem as restrições de uma assessoria de imprensa. Mas quando os gestores mudaram, a revista começou a ser vista como um custo, não como um investimento em literacia científica.

Inventor

E o prêmio José Reis chegou no pior momento possível?

Model

Não foi coincidência. A revista foi premiada porque fez exatamente o que deveria fazer durante 27 anos. Mas a FAPESP já havia decidido reestruturá-la. Receber o maior prêmio de jornalismo científico do país enquanto sua equipe era desligada sem reconhecimento — isso diz tudo sobre o descaso.

Inventor

Como números fantasiosos sobre custos conseguem circular sem verificação?

Model

Porque ninguém questiona. Jornalistas repetem o que ouvem. A comunidade científica repassa. E uma instituição como a FAPESP, que deveria saber melhor, não corrige o registro. A desinformação prospera no silêncio.

Inventor

A carta de despedida é um ato de resistência?

Model

É um ato de clareza. Dezesseis profissionais que dedicaram décadas à revista estão documentando o que aconteceu — a ausência de diálogo, as acusações infundadas, a falta de reconhecimento. Não é raiva. É o registro de como uma instituição científica esqueceu seus próprios princípios.

Inventor

O que muda agora para o jornalismo científico no Brasil?

Model

Pesquisa FAPESP era uma referência. Tinha estrutura, continuidade, equipe especializada. Agora há um vazio. A revista pode continuar com outro formato, mas não será a mesma coisa. E outras publicações de jornalismo científico veem o que aconteceu: nem excelência, nem prêmios, nem duas décadas de dedicação garantem segurança institucional.

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