A retatrutida é um agonista triplo que imita GLP-1, GIP e glucagon, três hormônios que reduzem apetite, controlam açúcar e estimulam queima de gordura. No ensaio TRIUMPH-2 com 1.152 pacientes, 40% alcançaram glicose normal (abaixo de 5,7%) e 52% perderam mais de 20% do peso inicial com dose máxima.
Retatrutida reduz 20% do peso e normaliza glicose em 40% dos diabéticos
Quarenta por cento alcançaram glicose de quem não tem diabetes
Por que esse medicamento é tão diferente dos que já existem?
Porque adiciona um terceiro hormônio à fórmula. Os anteriores imitavam dois — o GLP-1 e o GIP. A retatrutida acrescenta o glucagon, que parece estimular o corpo a queimar mais gordura, especialmente no fígado.
Mas isso é confirmado no estudo ou é teoria?
O estudo mostra os resultados finais — perda de peso e controle de glicose — mas o mecanismo exato de como o glucagon contribui não é o foco principal do artigo.
E por que pacientes com diabetes perdem menos peso com esses medicamentos?
Depois de anos com glicose alta e resistência à insulina, o corpo parece se agarrar mais à gordura. É como se o metabolismo estivesse mais resistente.
Isso é especulação ou há evidência disso?
É observado nos dados dos grandes estudos — pacientes diabéticos consistentemente perdem menos peso que não-diabéticos com os mesmos medicamentos. Mas o "porquê" exato ainda não está totalmente claro.
Então a retatrutida consegue vencer essa resistência?
Parece que sim, pelo menos mais do que as drogas anteriores. Quarenta por cento dos pacientes normalizaram completamente a glicose.
Mas só foi comparada ao placebo, certo? Não sabemos como se sai contra a tirzepatida ou semaglutida diretamente.
Exato. Qualquer comparação agora é indireta. E há outro detalhe importante: o medicamento ainda não foi aprovado em lugar nenhum.
Nem no Brasil?
Nem no Brasil. E há produtos sendo vendidos com esse nome na internet que são falsificações completas, sem registro na Anvisa.
Então por enquanto é apenas promessa?
É promessa baseada em dados sólidos de um estudo bem desenhado. Mas sim, ainda não é realidade para pacientes.
Il Polso
- Retatrutida é agonista triplo que imita GLP-1, GIP e glucagon
- Estudo TRIUMPH-2 com 1.152 pacientes em 8 países, incluindo Brasil
- Perda de peso de 20,8% com dose máxima versus 4% no placebo
- 40% dos pacientes alcançaram glicose normal (abaixo de 5,7%)
- Medicamento ainda não aprovado em nenhum país
A retatrutida é um agonista triplo que imita GLP-1, GIP e glucagon, três hormônios que reduzem apetite, controlam açúcar e estimulam queima de gordura. No ensaio TRIUMPH-2 com 1.152 pacientes, 40% alcançaram glicose normal (abaixo de 5,7%) e 52% perderam mais de 20% do peso inicial com dose máxima.
Estudo publicado na The Lancet mostra que retatrutida, medicamento experimental da Eli Lilly, reduz cerca de 20% do peso corporal e normaliza glicose em 40% dos pacientes com diabetes tipo 2, superando resultados de drogas similares.
Quem vive com diabetes tipo 2 e excesso de peso conhece uma frustração particular: os medicamentos que funcionam para emagrecer funcionam menos quando o corpo já passou anos lutando contra glicose alta e resistência à insulina. Nos grandes ensaios clínicos do Ozempic, Wegovy e Mounjaro, pacientes diabéticos perdem menos quilos do que pessoas sem a doença, como se o organismo se agarrasse com mais força a cada grama de gordura acumulada. Um estudo publicado na revista The Lancet e apresentado no congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes em Milão sugere que esse limite pode estar começando a ceder.
A esperança tem nome: retatrutida, uma molécula experimental desenvolvida pela Eli Lilly que funciona de forma diferente das drogas anteriores. Ela é um "agonista triplo" porque imita três hormônios simultaneamente. Dois deles já são conhecidos — o GLP-1, que a semaglutida explora, e o GIP, que a tirzepatida adicionou ao arsenal terapêutico. Ambos reduzem o apetite e ajudam o pâncreas a manter o açúcar sob controle. O terceiro é o glucagon, um hormônio que parece estimular o gasto energético do corpo e a queima de gordura no fígado, um mecanismo novo nessa classe de medicamentos.
O ensaio clínico chamado TRIUMPH-2 acompanhou 1.152 adultos de oito países, entre eles o Brasil, durante 80 semanas. Os participantes tinham peso médio de 106 quilos, conviviam com obesidade há cerca de 21 anos e com diabetes há quase seis. Foram divididos por sorteio em grupos que recebiam injeção semanal de placebo ou de retatrutida em doses de 4, 9 ou 12 miligramas. O objetivo principal não era controlar a glicose, mas sim medir a perda de peso — uma mudança de foco que revelaria se o medicamento conseguia vencer a resistência que o diabetes impõe.
Os números foram expressivos. Na dose máxima de 12 miligramas, a perda média de peso foi de 20,8%, comparada a apenas 4% no placebo — aproximadamente 22 quilos para uma pessoa de 106 quilos. Entre os participantes com maior grau de obesidade, a redução chegou a 23,4%. Quando se olha para as metas de peso, o impacto fica ainda mais claro: com 12 mg, 82% dos pacientes perderam pelo menos 10% do peso inicial, 67% ultrapassaram 15%, 52% alcançaram 20% ou mais, e 35% perderam um quarto ou mais do seu peso de partida. Esses números aproximam-se de resultados que, até pouco tempo, só a cirurgia bariátrica conseguia oferecer.
O controle da glicose acompanhou a perda de peso. A hemoglobina glicada, exame que reflete a média de açúcar no sangue dos últimos três meses, caiu 1,5 ponto com a dose máxima, contra apenas 0,2 no placebo. Com 12 mg, 86% dos pacientes terminaram abaixo de 7%, a meta clássica do tratamento, e 79% chegaram a 6,5% ou menos. O dado mais notável: cerca de 40% dos pacientes nas doses de 9 e 12 miligramas alcançaram hemoglobina glicada abaixo de 5,7%, a faixa de quem não tem diabetes. No placebo, apenas 4% atingiram esse patamar. Embora isso não signifique cura — o valor depende do uso contínuo do medicamento — demonstra quanto a doença recuou. Outros marcadores também melhoraram: a circunferência abdominal reduziu 17 centímetros, a pressão sistólica caiu 11 mmHg, os triglicérides diminuíram quase 40%, e o colesterol não-HDL, que reúne as frações prejudiciais às artérias, caiu 20%.
Mas a potência tem seu preço. Os efeitos colaterais mais frequentes foram gastrointestinais: diarreia em cerca de um terço dos pacientes nas doses mais altas e náusea em até 28%, ambos significativamente acima dos índices no placebo. Um efeito menos comum chamou atenção dos pesquisadores — a disestesia, uma sensação de ardor ou desconforto na pele, relatada por até 7% dos pacientes, embora sem casos graves. Houve três casos de pancreatite, todos entre os que recebiam retatrutida, e 12% dos participantes na dose intermediária abandonaram o tratamento por efeitos adversos, mais que o dobro do placebo.
É importante examinar o estudo com cuidado. Ele comparou a retatrutida apenas ao placebo, não a outros medicamentos como tirzepatida ou semaglutida, então qualquer ranking entre elas por enquanto é apenas uma comparação indireta. A tirzepatida produziu 14,7% de perda de peso em estudo similar com pessoas com diabetes tipo 2. A própria retatrutida, testada em pessoas sem diabetes no estudo TRIUMPH-1, alcançou 28,3% de redução de peso, confirmando que a doença continua impondo resistência, ainda que menor do que antes.
Um aviso crucial: a retatrutida ainda não está aprovada em nenhum país, incluindo o Brasil. Qualquer frasco vendido atualmente com esse nome pela internet ou em clínicas é um produto sem registro na Anvisa, sem garantia de conteúdo ou pureza, e representa um risco real à saúde. Não há previsão de lançamento no Brasil nem em outros países do mundo.
Citazioni salienti
É como se o corpo, depois de anos de glicose alta e resistência à insulina, se agarrasse com mais força a cada quilo— Descrição do fenômeno observado em estudos anteriores