Dávila compara empresas de IA a regimes autoritários sem accountability, destacando que regulação e taxação são as únicas linguagens que essas corporações entendem. A União Europeia implementou novas regras em agosto de 2025 exigindo transparência e proteção de direitos autorais de sistemas de IA mais poderosos como ChatGPT e Google.
Regulação e taxação são caminhos para responsabilizar empresas de IA, diz Sérgio Dávila
Essas empresas são como a Coreia do Norte, não têm ombudsman
Quando Dávila compara empresas de IA a regimes autoritários, ele está sendo literal ou é mais uma provocação retórica?
Ele está sendo preciso. O ponto é que essas corporações não têm mecanismos internos de accountability — não há ombudsman, não há ouvidoria, não há ninguém dentro delas respondendo por danos causados. Elas só entendem duas linguagens: regulação e impostos.
Mas a Folha acabou de fazer um acordo comercial com a OpenAI. Não é contraditório defender regulação rigorosa enquanto negocia com essas mesmas empresas?
Não é contraditório, é pragmático. Dávila defende que a regulação deve existir, mas enquanto ela não existe ou é fraca, os jornais precisam se proteger através de negociações diretas. É uma estratégia de curto prazo enquanto se trabalha pela mudança estrutural.
A anedota sobre a IA e os jogadores negros — por que ela importa tanto?
Porque mostra que o viés não é um bug isolado. É sistêmico. A IA foi treinada com dados que refletem preconceitos humanos, e quando confrontada com informações contraditórias, ainda assim reproduz estereótipos. Ninguém é responsável por isso.
Carol Tilkian fala sobre a busca por clareza em relacionamentos. Isso é realmente um problema novo ou a IA só amplifica algo que já existia?
A IA amplifica, mas também muda a natureza do problema. Antes, as pessoas tinham que lidar com a ambiguidade porque não havia alternativa. Agora, podem terceirizar a interpretação. Isso atrofia a capacidade de tolerar incerteza, que é fundamental para intimidade real.
Se regulação europeia está funcionando, por que outras regiões não copiam o modelo?
Porque as empresas têm poder político imenso. Dávila disse que em cinco segundos aparecem cem lobistas no Congresso quando se fala em regulação. A Europa conseguiu agir porque tem mercado grande o suficiente para impor condições. Países menores têm menos alavanca.
O Pulso
- Acordo entre Folha e OpenAI firmado em maio de 2026, primeiro de mídia brasileira com a empresa
- União Europeia implementou regulação de IA em 2 de agosto de 2025
- Pesquisa mostra que 1 em cada 4 brasileiros não se sente próximo a ninguém
- Processo da Folha contra OpenAI iniciado em agosto de 2025, encerrado com acordo em 2026
Dávila compara empresas de IA a regimes autoritários sem accountability, destacando que regulação e taxação são as únicas linguagens que essas corporações entendem. A União Europeia implementou novas regras em agosto de 2025 exigindo transparência e proteção de direitos autorais de sistemas de IA mais poderosos como ChatGPT e Google.
Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, defende regulação e taxação de empresas de IA como mecanismos de responsabilização, citando o modelo europeu como exemplo bem-sucedido de controle sobre gigantes tecnológicas.
Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha, fez uma observação mordaz sobre o poder de mobilização das grandes empresas de inteligência artificial. Falando numa mesa da CasaFolha durante a Festa Literária Internacional de Paraty, na quinta-feira 23 de julho, ele descreveu o que acontece quando alguém menciona regulação e taxação dessas corporações: em segundos, dezenas de lobistas aparecem nos corredores do Congresso para defender os interesses das gigantes tecnológicas. "Tem que ser por aí", completou, sugerindo que apenas essas duas ferramentas — regulação e tributação — conseguem fazer essas empresas responderem por suas ações.
A afirmação surgiu em resposta a uma pergunta do público sobre responsabilidade corporativa e viés algorítmico. Um espectador havia questionado quem deveria ser responsabilizado pelos problemas de discriminação em sistemas de inteligência artificial, citando acusações de racismo. Dávila respondeu com uma anedota pessoal: havia perguntado a uma IA quais seleções de futebol não tinham jogadores negros na Copa do Mundo masculina de 2026. A resposta inicial foi estereotipada, mencionando Suécia, Suíça e Japão — países que, embora tenham populações negras minoritárias, possuem jogadores negros em suas equipes. O episódio ilustrava como esses sistemas perpetuam preconceitos mesmo quando confrontados com informações contraditórias.
Para Dávila, o problema fundamental é a falta de prestação de contas. Ele comparou as empresas de IA a regimes autoritários: "Essas empresas são como a República Popular da Coreia do Norte, não têm ombudsman, não têm ouvidor". Elogiou o modelo europeu de regulamentação como resposta efetiva. A União Europeia, segundo ele, comunicou às corporações uma mensagem clara: se querem operar acima das leis nacionais e dos países, então enfrentarão tributação e regulação rigorosa. Em julho de 2025, as autoridades europeias anunciaram novas regras para os sistemas de IA mais poderosos — aqueles desenvolvidos por OpenAI, Microsoft e Google — exigindo maior transparência, limitação de violações de direitos autorais e proteção da segurança pública. A regulação começou a vigorar em 2 de agosto e será implementada em etapas.
Dávila também comentou as negociações que a Folha conduziu com essas mesmas empresas. Em maio de 2026, o jornal e o UOL firmaram o primeiro acordo comercial entre uma empresa de mídia brasileira e a OpenAI, responsável pelo ChatGPT. O acordo fornece conteúdo jornalístico para o ecossistema de inteligência artificial da empresa, aumentando a confiabilidade das respostas do chatbot. Embora os termos sejam sigilosos, Dávila afirmou que são "vantajosos para os dois lados" e defendeu o diálogo com as corporações. A estratégia da Folha segue um protocolo: primeiro tenta conversar, depois envia notificação extrajudicial e, se necessário, inicia ação judicial. Com a OpenAI, um processo iniciado em agosto de 2025 foi encerrado com o acordo deste ano. Com o Google, a parceria foi firmada em abril de 2026. O objetivo é impedir que as empresas se apropriem de reportagens sem compensar os veículos de comunicação.
A mesa também contou com a participação de Carol Tilkian, colunista da Folha e psicanalista, que analisou os impactos da inteligência artificial em relacionamentos amorosos, afetivos e terapêuticos. Para ela, a busca obsessiva por otimização de tempo e respostas, e o desejo constante pelo "melhor", prejudicam as interações humanas genuínas. Tilkian citou pesquisa mostrando que um em cada quatro brasileiros relata não se sentir próximo a ninguém. Usar IA como terapeuta, segundo ela, elimina o atrito natural da conversa humana — aquele incômodo produtivo que força as pessoas a mudar de perspectiva e se estranharem. "É querer que alguém entenda e traduza nossas emoções e não é sobre traduzir, é sobre mudar de posição, estranhar", disse. Ela argumentou que o processo terapêutico não deveria buscar boas respostas, mas formular melhores perguntas.
Tilkian relatou que pacientes chegam ao consultório dizendo que enviaram conversas com parceiros para agentes de IA para determinar quem estava certo, ou fazem perguntas para decifrar o significado de questionamentos do outro. A lógica é a mesma: substituir a complexidade do sentir por respostas claras. "Você não sabe por que quis se separar, não tem um único motivo claro depois de 20 anos", exemplificou. "A IA dá respostas claras pra coisas que são da ordem do sentir", concluiu, sugerindo que essa busca por clareza artificial pode ser prejudicial ao desenvolvimento emocional e relacional genuíno.
Citações Notáveis
Quando você fala em regulação e taxação de empresas de IA, em cinco segundos aparecem cem funcionários dessas empresas para fazer lobby no Congresso— Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha
A IA dá respostas claras para coisas que são da ordem do sentir— Carol Tilkian, psicanalista e colunista da Folha