Por décadas, o Brasil sustentou um labirinto tributário de 5,6 mil legislações distintas que alimentou litígios, distorceu decisões empresariais e enriqueceu um ecossistema inteiro de especialistas em complexidade. A reforma tributária em curso, descrita por um de seus arquitetos, representa não apenas uma simplificação técnica, mas uma ruptura civilizatória: o fim da guerra fiscal entre entes federativos e a morte das brechas que transformaram o planejamento tributário em arte obscura. O imposto segue agora o consumidor, não o fabricante — e com ele, muda a lógica de onde e por que as empresa
Reforma tributária mata 'manobras' e tributaristas, diz coautor Eurico Santi
Não adianta mais saber onde está a fábrica, as empresas estão desesperadas
Por que exatamente a tributação no destino muda tanto o jogo para as empresas?
Porque elimina a razão pela qual elas construíam fábricas em lugares que não faziam sentido economicamente. Uma montadora podia produzir em Goiás com alíquota de 3% em vez de São Paulo com 18%. Agora, não importa onde está a fábrica — o imposto é cobrado onde o carro é vendido. Desaparece o incentivo.
E os advogados tributaristas? Eles realmente vão desaparecer?
Não vão desaparecer, mas vão mudar de função completamente. Hoje eles ganham dinheiro ajudando empresas a encontrar brechas em 5,6 mil legislações diferentes. Com uma legislação única, não há brecha para encontrar. Eles terão de aprender a ajudar as empresas a entender um novo modelo de negócios, não a escapar de impostos.
Qual é o risco maior dessa transição?
A convivência de dois sistemas ao mesmo tempo. Durante alguns anos, você tem o sistema antigo e o novo rodando juntos. Isso cria uma complexidade temporária ainda maior. Alguns tributaristas brincam que vão ganhar mais dinheiro nessa fase de transição do que ganharam em toda a carreira anterior.
E se a alíquota final ficar muito alta? As pessoas não vão reclamar?
Por isso existe a armadilha constitucional. O governo não pode arrecadar mais do que a média dos anos anteriores durante toda a transição. Então a alíquota é calibrada para manter a carga tributária estável. A ideia é que os preços caiam porque o custo de produção cai — sem cascata de impostos — e o governo arrecada a mesma coisa.
Você acredita que isso vai funcionar?
Ninguém consegue prever. Santi é honesto sobre isso. Economistas não conseguem nem acertar o PIB do ano passado. Mas a estrutura está montada para descobrir gradualmente, com um teste de 1% no primeiro ano.
Le Pouls
- O Brasil carregava o maior contencioso tributário do mundo, gerado por 5,6 mil regras diferentes aplicadas simultaneamente por municípios e Estados.
- Empresas deslocavam fábricas inteiras para Estados com alíquotas menores, distorcendo decisões industriais e criando custos invisíveis ao consumidor final.
- A reforma unifica tudo em um IVA dual — CBS e IBS —, com uma única regra interpretada por um comitê gestor centralizado, eliminando a selva regulatória.
- O Split Payment automatiza o recolhimento de impostos no momento do pagamento, tornando obsoletos departamentos tributários robustos e caros dentro das empresas.
- Uma cláusula constitucional congela a carga tributária por dez anos e exige um teste de alíquota de 1% antes da vigência plena, protegendo contra aumentos abruptos.
- Advogados tributaristas, que prosperaram nas brechas e no contencioso, enfrentam a necessidade de se ressignificar num sistema onde, pela primeira vez, há apenas uma lei.
Por décadas, o Brasil sustentou um labirinto tributário de 5,6 mil legislações distintas que alimentou litígios, distorceu decisões empresariais e enriqueceu um ecossistema inteiro de especialistas em complexidade. A reforma tributária em curso, descrita por um de seus arquitetos, representa não apenas uma simplificação técnica, mas uma ruptura civilizatória: o fim da guerra fiscal entre entes federativos e a morte das brechas que transformaram o planejamento tributário em arte obscura. O imposto segue agora o consumidor, não o fabricante — e com ele, muda a lógica de onde e por que as empresas decidem existir.
Eurico Santi, um dos arquitetos da reforma tributária brasileira, não tem dúvidas: uma era inteira do direito tributário chegou ao fim. O país carregava um problema estrutural grave — cerca de 5,6 mil municípios e Estados aplicavam regras próprias de impostos, gerando o maior contencioso tributário do mundo e um ecossistema onde empresas mantinham legiões de advogados apenas para sobreviver à selva regulatória.
A reforma substitui esse caos por uma arquitetura simples. PIS e Cofins dão lugar à CBS; ICMS e ISS se fundem no IBS. Juntos, formam um Imposto sobre Valor Agregado dual, administrado por um comitê gestor centralizado que uniformiza a interpretação da lei. Uma regra única no lugar de 5,6 mil variações.
A mudança mais profunda, porém, é conceitual: o imposto deixa de ser cobrado na origem e passa a incidir no destino do consumo. Acabou a corrida entre governadores e prefeitos para atrair indústrias com alíquotas baixas e terrenos gratuitos. A localização de uma fábrica deixa de ser uma decisão tributária.
O novo sistema de Split Payment automatiza o recolhimento no momento do pagamento, dispensando a separação manual que as empresas faziam. Com regra única, interpretação uniforme e processo automatizado, os grandes departamentos tributários corporativos perdem razão de ser. Santi brinca que os tributaristas terão de aprender outras habilidades — as brechas que alimentaram suas carreiras simplesmente deixarão de existir.
Para evitar choques, a reforma prevê uma transição cautelosa: um teste de um ano com alíquota de 1% e um teto constitucional que impede o governo de arrecadar mais do que a média de 2024 e 2025 durante toda a fase de migração. A carga tributária deve permanecer estável por uma década. Santi reconhece que ninguém sabe exatamente o que acontecerá quando o novo sistema operar em plena capacidade — mas a direção é inequívoca: menos complexidade, mais previsibilidade, e o fim da guerra fiscal que, por décadas, cobrou seu preço silencioso do consumidor brasileiro.
Eurico Santi, um dos arquitetos da reforma tributária brasileira, tem uma previsão radical para o futuro próximo: o fim das manobras fiscais que alimentaram décadas de litígios e complexidade. Sentado para conversa, ele não hesita em declarar morta uma era inteira do direito tributário.
O Brasil tinha um problema estrutural. Aproximadamente 5,6 mil municípios e Estados aplicavam suas próprias regras de impostos, cada um com interpretações distintas. Isso gerou um contencioso tributário monumental — o maior do mundo, segundo Santi — e criou um ecossistema onde empresas contratavam legiões de advogados apenas para navegar a selva de regulações conflitantes. As diferenças de interpretação alimentavam processos judiciais intermináveis.
A reforma muda tudo isso de forma radical. O PIS e Cofins desaparecem, substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O ICMS e o ISS viram o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Pela primeira vez, existe uma regra única em vez de 5,6 mil variações. Um comitê gestor centralizado — o Comitê Gestor do IBS — administra o novo tributo e uniformiza como ele é interpretado. Juntos, CBS e IBS formam um modelo de Imposto sobre Valor Agregado dual. O IPI terá alíquotas zeradas para a maioria dos produtos.
Mas a mudança mais consequente é outra: a tributação sai da origem e vai para o destino. Antes, uma empresa podia escolher construir uma fábrica em um Estado com alíquotas mais baixas e economizar milhões em impostos. Havia uma competição feroz entre governadores e prefeitos, que ofereciam terrenos gratuitos e reduções fiscais para atrair montadoras e grandes indústrias. Santi aponta que isso criava custos de transação enormes — era mais barato produzir em São Paulo e vender para todo o Brasil do que produzir na Amazônia, mas as empresas escolhiam a Amazônia pela alíquota. Agora, o imposto é recolhido onde o produto é consumido, não onde é fabricado. A lógica da localização industrial muda completamente.
Há também uma automatização do processo. O novo sistema de "Split Payment" separa automaticamente os valores de impostos no momento do pagamento e os envia direto ao Fisco. Antes, as empresas precisavam fazer essa separação manualmente. Tudo junto — a regra única, a uniformização de interpretação, a automatização — reduz drasticamente a necessidade de especialistas em tributação dentro das empresas.
Santi brinca que os tributaristas terão de "aprender a fazer outra coisa em vez de ficar decorando legislação e buscando brechas". Porque não haverá mais brechas. É uma lei só. Os departamentos tributários das empresas, hoje robustos e caros, perderão relevância. Os advogados tributaristas, que ganharam fortunas com o contencioso e o planejamento fiscal, precisarão se ressignificar. Alguns deles, segundo Santi, brincam que vão erguer uma estátua em sua honra — porque durante a transição, quando dois sistemas convivem, haverá ainda mais complexidade e mais trabalho para eles.
Mas há uma armadilha constitucional que protege contra aumentos abruptos de carga tributária. Antes da reforma vigorar completamente, há um teste de um ano com alíquota de 1%. Durante toda a transição, o governo só pode arrecadar a média do que arrecadou em 2024 e 2025 com os impostos antigos. Se essa alíquota de 1% render 100 bilhões de reais e a média histórica é 1,5 trilhão, saberemos que a alíquota final precisa ser de 15%. A carga tributária deve ficar estável por dez anos. Santi é claro: ninguém consegue prever exatamente o que acontecerá quando toda essa mudança entrar em vigor. Economistas não conseguem nem acertar o PIB do ano anterior. Mas a intenção é clara — simplificar, tornar previsível, e eliminar a guerra fiscal entre entes federativos que custava caro ao consumidor final.
Citations marquantes
Brinco até com o Nietzsche: 'Deus está morto', acabou o contencioso. Agora o fisco antecipa a interpretação da lei.— Eurico Santi
Vão ter de aprender a fazer outra coisa em vez de ficar decorando legislação e buscando brechas, porque não vão encontrar brecha, é uma lei só.— Eurico Santi