Um em cada quatro trabalhadores tem mais de 20 anos de casa. O que diz isto sobre Portugal?

Milhões continuam a construir carreiras longas num mercado cada vez mais sujeito à mudança
O paradoxo português: estabilidade profissional convive com transformação acelerada do mercado de trabalho.
Mark

Como é que um país consegue ter crescimento recorde no emprego e ao mesmo tempo um quarto dos trabalhadores com mais de vinte anos na mesma empresa?

Mimi

Não é contraditório se pensarmos que Portugal tem dois mercados de trabalho. Um que é estável, onde as pessoas entram e ficam. Outro que é mais dinâmico, mas onde os jovens têm dificuldade em entrar.

Mark

Mas isso não é preocupante? Se um quarto das pessoas está há vinte anos no mesmo sítio, significa que não há rotação.

Mimi

Há rotação, mas é desigual. Os dados mostram que 85,5% dos trabalhadores têm contratos sem termo, o que é bom. Mas 29% têm baixa qualificação. Isto sugere que muitas pessoas entram num emprego e ficam porque não têm alternativas melhores.

Mark

E os jovens? A taxa de desemprego deles é 18,3%.

Mimi

Três vezes acima da média nacional. É o lado mais frágil deste crescimento. Enquanto os adultos consolidam carreiras longas, os jovens têm dificuldade em começar. E 40% dos desempregados procuram trabalho há mais de um ano.

Mark

Então o crescimento não está a resolver o problema estrutural.

Mimi

Não. O crescimento é real — 99 mil novos empregos num trimestre é significativo. Mas não está a mudar a qualificação das pessoas nem a integrar os jovens. É crescimento que deixa as fraturas intactas.

Mark

O que muda isto?

Mimi

Formação contínua. As empresas estão a mudar depressa. Se 29% dos trabalhadores têm apenas ensino secundário e as competências exigidas mudam constantemente, há um desajuste. Sem investimento em formação, este crescimento pode não ser sustentável.

  • A população ativa portuguesa ultrapassou os 5,7 milhões pela primeira vez na história, com 99 mil novos trabalhadores a entrar no mercado só entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026.
  • O desemprego jovem permanece em 18,3% — três vezes acima da média nacional —, expondo uma fratura geracional que os números globais tendem a disfarçar.
  • Cerca de 29% dos trabalhadores têm, no máximo, o ensino secundário obrigatório, quase o dobro da média europeia, tornando a qualificação o principal ponto de vulnerabilidade estrutural do mercado.
  • O teletrabalho voltou a crescer, com 1,15 milhões de profissionais neste regime, mas a sua distribuição concentra-se nos grandes centros urbanos, aprofundando assimetrias territoriais.
  • A formação contínua emerge como o desafio central: as empresas transformam-se à velocidade da tecnologia, mas uma parte significativa da força de trabalho arrisca ficar para trás.

Portugal chegou ao segundo trimestre de 2026 com o maior número de pessoas ativas da sua história, ultrapassando os 5,7 milhões, numa conjuntura em que o emprego cresceu e o desemprego recuou. Mas por baixo dos recordes escondia-se uma tensão mais antiga: um em cada quatro trabalhadores permanecia no mesmo emprego há mais de vinte anos, enquanto os jovens enfrentavam uma taxa de desemprego três vezes superior à média nacional. O país que criava oportunidades era também o país que consolidava permanências — e onde quase um terço dos trabalhadores tinha baixa qualificação num mundo que muda à velocidade da tecnologia. Este retrato convida a perguntar se o crescimento, por si só, é suficiente para preparar uma sociedade para o que vem a seguir.

O mercado de trabalho português chegou ao segundo trimestre de 2026 com números inéditos. A população ativa ultrapassou os 5,7 milhões pela primeira vez, o emprego aproximou-se dos 5,4 milhões e a taxa de desemprego desceu para 5,3%. Mas por baixo dos recordes escondia-se um paradoxo: 1,39 milhões de trabalhadores — um quarto do total — permaneciam no mesmo emprego há mais de vinte anos.

Os dados, recolhidos pela Randstad Research a partir do Inquérito ao Emprego do INE, mostravam que a longevidade profissional tinha estabilizado após uma inversão pós-pandemia. Entre os trabalhadores por conta de outrem, 85,5% tinham contratos sem termo, confirmando que a estabilidade contratual continuava a ser a norma dominante.

O crescimento escondia, porém, fraturas profundas. Cerca de 29% dos trabalhadores tinham baixa qualificação — quase o dobro da média europeia —, enquanto os jovens entre os 16 e os 24 anos enfrentavam uma taxa de desemprego de 18,3%, três vezes acima da média nacional. Entre os desempregados, 40,2% procuravam trabalho há mais de um ano, revelando rigidez para quem estava fora do mercado.

O teletrabalho voltou a crescer, com mais 33,1 mil profissionais neste regime no segundo trimestre, totalizando 1,15 milhões — 21,3% dos empregados. O modelo híbrido era o mais comum, mas a distribuição geográfica permanecia desigual, concentrada na Grande Lisboa e na Península de Setúbal.

Isabel Roseiro, da Randstad, reconheceu a resiliência do mercado, mas alertou para o desafio que se avizinha: a formação contínua. Num país onde um quarto dos trabalhadores tem baixa qualificação e os jovens enfrentam desemprego estrutural elevado, a velocidade de transformação tecnológica das empresas exige uma resposta que os números de emprego, por si só, ainda não garantem.

O mercado de trabalho português chegou ao segundo trimestre de 2026 com números que não tinha visto antes. A população ativa ultrapassou os 5,7 milhões de pessoas pela primeira vez na história. O emprego aproximou-se dos 5,4 milhões. Tudo isto acontecia enquanto um em cada quatro profissionais — 1,39 milhões de pessoas — permanecia no mesmo emprego há mais de vinte anos. Era um retrato contraditório de um país que, ao mesmo tempo, criava oportunidades e consolidava permanências.

Os dados vinham da Randstad Research, que trabalhou com informações do Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística. Aquele quarto de trabalhadores com mais de duas décadas na mesma empresa representava 25,7% do total empregado. A tendência de longevidade tinha ganho força até à pandemia, depois inverteu-se a partir de 2020, mas no segundo trimestre de 2026 estabilizou novamente. Isto sugeria que, apesar de todas as transformações que marcavam o mercado laboral, muitos portugueses continuavam a construir carreiras longas no mesmo sítio.

O crescimento do emprego tinha sido robusto. Entre o primeiro e o segundo trimestre, entraram 99 mil novos trabalhadores, elevando o total para perto de 5,4 milhões. A população ativa tinha crescido 53,5 mil pessoas, atingindo aquele recorde de 5,7 milhões. A taxa de emprego fixou-se nos 58,3%. Entre os 4,57 milhões de trabalhadores por conta de outrem, 85,5% tinham contratos sem termo — a estabilidade contratual permanecia como a modalidade dominante. Os restantes 14,5% trabalhavam a termo.

Mas havia fraturas. Cerca de 29% dos trabalhadores tinham um nível de qualificação baixo, no máximo o ensino secundário obrigatório. Era praticamente o dobro da média europeia. No outro extremo, 36,1% dos empregados tinham formação superior, e este grupo apresentava uma taxa de emprego de 81,3%. A desigualdade de qualificações era um traço estrutural que persistia apesar do crescimento geral.

O desemprego tinha recuado. No segundo trimestre havia 300,8 mil desempregados, menos 45,5 mil do que no trimestre anterior. A taxa de desemprego situava-se nos 5,3%. Mas os números escondiam diferenças profundas. Os jovens entre os 16 e os 24 anos tinham uma taxa de desemprego de 18,3% — cerca de três vezes acima da média nacional. Entre os desempregados, 40,2% procuravam trabalho há mais de um ano, o que revelava uma certa rigidez no mercado para quem estava fora dele.

O teletrabalho tinha voltado a crescer depois de uma queda no início do ano. No segundo trimestre, mais 33,1 mil profissionais passaram a trabalhar neste regime, elevando o total para 1,15 milhões — 21,3% da população empregada. O modelo híbrido era o mais comum, escolhido por 40,8% dos teletrabalhadores. Mas a distribuição geográfica permanecia desigual. Apenas a Península de Setúbal e a Grande Lisboa apresentavam valores acima da média nacional, confirmando que o trabalho remoto se concentrava nos grandes centros urbanos.

A dinâmica empresarial também tinha mantido uma trajetória positiva. Em junho de 2026, foram constituídas 3.639 empresas enquanto 793 foram dissolvidas. O emprego público tinha aumentado, com as administrações públicas a empregarem mais de 768 mil pessoas no segundo trimestre — mais 7.650 do que no mesmo período do ano anterior. Saúde e educação representavam, em conjunto, 37,2% deste emprego público.

Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad, via nestes resultados «um mercado de trabalho muito resiliente», marcado pelo crescimento histórico da população ativa e pela permanência prolongada de muitos profissionais nas empresas. Mas alertava para o próximo desafio: a formação contínua. As empresas estavam a mudar à velocidade da tecnologia, e as competências exigidas aos trabalhadores mudavam com elas. Um país onde um quarto dos trabalhadores tinha baixa qualificação e onde os jovens enfrentavam uma taxa de desemprego três vezes superior à média não podia ignorar isto.

O retrato do segundo trimestre de 2026 era, portanto, o de um país com mais emprego, menos desemprego e uma população ativa em máximos históricos. Mas era também o de um mercado ainda marcado por baixos níveis de qualificação e por fortes diferenças entre gerações. No centro desta transformação estava um dado que ganhava particular relevância: milhões de profissionais continuavam a construir carreiras longas no mesmo emprego, mesmo num mercado laboral cada vez mais sujeito à mudança.

Um mercado de trabalho muito resiliente, marcado pelo crescimento histórico da população ativa e pela permanência prolongada de muitos profissionais nas empresas
— Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad
O próximo desafio passa pela formação contínua, sobretudo perante a velocidade com que estão a mudar as empresas e as competências exigidas aos trabalhadores
— Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad
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