No cruzamento entre o progresso humano e os ritmos da natureza, o Aeroporto Internacional do Recife acumula 130 colisões entre aeronaves e aves em 2025 — um número que revela não apenas um risco técnico, mas uma tensão mais profunda entre a expansão urbana e os ecossistemas que ela transforma. A presença de um aterro sanitário nas proximidades cria uma cadeia invisível: o lixo humano atrai pássaros, e os pássaros habitam o mesmo espaço onde máquinas de toneladas buscam o céu. Enquanto gaviões treinados e fogos de artifício tentam manter a ordem na pista, especialistas lembram que a solução dur
Recife lidera 'birdstrikes' no NE; aterro sanitário atrai aves para aeroporto
Turbinas aspiram muito, principalmente na hora da decolagem
Por que o Recife tem tantos incidentes com aves se comparado a outros aeroportos?
A proximidade do Aterro Sanitário da Muribeca é o fator principal. Lixo atrai pombos, que por sua vez atraem aves de rapina. É uma cadeia alimentar que se estabeleceu ao redor do terminal.
Mas o aterro existe há quanto tempo? Será que o crescimento dos incidentes acompanha expansões do aterro ou mudanças nas operações do aeroporto?
O que exatamente acontece quando uma ave bate em um motor?
A sucção das turbinas é imensa, especialmente em aviões grandes durante a decolagem. A ave é aspirada e pode danificar componentes críticos. No caso do voo da Gol, causou fogo no motor.
Quantos desses 130 incidentes resultaram em danos reais versus apenas contatos? O relatório não diferencia a severidade.
Como os pilotos lidam com esse risco?
Existem procedimentos estabelecidos. Antes de cada decolagem, piloto e copiloto observam a pista e qualquer alerta reportado. Se algo acontecer, eles já sabem o que fazer.
Esses procedimentos foram atualizados após o aumento de incidentes? Ou continuam os mesmos desde quando foram criados?
Os gaviões realmente funcionam?
Sim, o gavião-telha é veloz e inteligente. Emite vocalizações que espantam outras aves. Mas não são suficientes sozinhos — precisam de fogos de artifício como reforço.
Qual é a taxa de efetividade documentada? O aeroporto tem métricas de redução de avistamentos após a introdução dos gaviões?
Qual seria a solução real?
Educação ambiental e redução do descarte irregular de lixo. Enquanto o aterro atrair alimento, as aves virão.
Mas quem é responsável pelo aterro? É municipal, estadual? Há planos de relocação ou fechamento? Porque dizer que a solução é educação ambiental é vago se a infraestrutura de lixo permanece.
A aviação é segura apesar disso tudo?
Segundo o comandante Jackson, sim. Acidentes acontecem em todos os transportes. A aviação tem recursos para minimizar riscos.
Esse é um argumento reconfortante, mas não responde se a taxa de incidentes do Recife é aceitável comparada a padrões internacionais ou se há recomendações de órgãos reguladores.
The Pulse
- Um motor em chamas e um pouso de emergência em fevereiro tornaram visível o que os dados já anunciavam: o aeroporto do Recife vive sob ameaça constante de colisões com aves.
- Com 130 incidentes registrados em 2025, o terminal recifense é o segundo mais afetado do Nordeste, numa trajetória que cresceu mais de três vezes em uma década.
- O aterro sanitário da Muribeca funciona como um imã para pombos, carcarás e outras aves, posicionando a vida selvagem urbana diretamente nas rotas de decolagem.
- Gaviões-telha e fogos de artifício são as ferramentas disponíveis no imediato, mas pilotos e biólogos concordam: enquanto o lixo atrair aves, o risco não desaparece.
- Veteranos do cockpit reconhecem o perigo, mas defendem a aviação moderna — protocolos rigorosos e décadas de experiência mantêm o setor entre os mais seguros, mesmo diante do imprevisível.
No cruzamento entre o progresso humano e os ritmos da natureza, o Aeroporto Internacional do Recife acumula 130 colisões entre aeronaves e aves em 2025 — um número que revela não apenas um risco técnico, mas uma tensão mais profunda entre a expansão urbana e os ecossistemas que ela transforma. A presença de um aterro sanitário nas proximidades cria uma cadeia invisível: o lixo humano atrai pássaros, e os pássaros habitam o mesmo espaço onde máquinas de toneladas buscam o céu. Enquanto gaviões treinados e fogos de artifício tentam manter a ordem na pista, especialistas lembram que a solução duradoura começa muito antes do aeroporto — começa nos hábitos de quem descarta o lixo.
Na manhã de 5 de fevereiro, uma ave entrou na turbina de um avião da Gol durante o voo sobre o Recife. O motor pegou fogo. O piloto reverteu o curso e executou um pouso de emergência — um episódio tenso que, no entanto, não surpreendeu quem acompanha os dados do aeroporto.
Segundo o Cenipa, o terminal recifense registrou 130 colisões entre aeronaves e pássaros ao longo de 2025, além de 54 avistamentos na zona operacional. O número coloca Recife como o segundo aeroporto do Nordeste mais afetado, atrás de Salvador, e o décimo do país. A escalada é consistente: eram 43 incidentes em 2015, chegaram a 174 em 2021, e permanecem elevados desde então.
O comandante Antônio Jackson, com 58 anos de experiência e mais de 38 mil horas de voo, descreve a decolagem como o momento de maior vulnerabilidade. As turbinas de aeronaves maiores aspiram volumes imensos de ar durante a aceleração, tornando qualquer ave próxima uma ameaça potencialmente catastrófica. Os procedimentos existem, os recursos também — mas o risco nunca é zero.
A raiz do problema aponta para o Aterro Sanitário da Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes. O biólogo André Maia explica a cadeia: resíduos atraem pombos, pombos atraem aves de rapina, e todas elas circulam na mesma região onde os aviões decolam e pousam. Enquanto houver descarte irregular de lixo, haverá aves. Enquanto houver aves, haverá risco.
O aeroporto responde com gaviões-telha — falcões velozes cujas vocalizações espantam outras espécies — e com disparos de fogos de artifício para manter a pista livre. São medidas eficazes no curto prazo, mas insuficientes como solução definitiva. Maia defende que a resposta estrutural passa pela educação ambiental e pela eliminação dos pontos de descarte que funcionam como fonte de alimento para a fauna urbana.
Jackson, mesmo diante dos números, mantém a confiança na aviação. Formou uma filha como comandante — e não o teria feito, diz, se não acreditasse na segurança do setor. O desafio que permanece é conciliar essa segurança conquistada com a realidade de um aeroporto vizinho a uma fonte permanente de atração da vida selvagem.
Na segunda-feira, dia 5 de outubro, um avião da Gol enfrentou um momento de tensão quando uma ave penetrou a turbina durante o voo. O motor pegou fogo. O piloto precisou retornar ao aeroporto do Recife e executar um pouso de emergência. O incidente não foi isolado — foi apenas um dos 130 choques entre aeronaves e pássaros registrados no terminal recifense ao longo de 2025, segundo dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Esse número coloca o Recife como o segundo aeroporto do Nordeste com mais colisões dessa natureza, atrás apenas de Salvador, e o décimo do país. Além dos 130 impactos diretos, houve 54 avistamentos de aves na zona de operação do terminal. A trajetória é preocupante: uma década atrás, em 2015, o aeroporto registrava 43 incidentes. O crescimento foi irregular mas consistente — 76 em 2016, 97 em 2018, 102 em 2019, 120 em 2020, atingindo o pico de 174 em 2021. Os números oscilaram nos anos seguintes, mas permaneceram elevados: 140 em 2022, 147 em 2023, 155 em 2024, antes de recuar ligeiramente para 130 em 2025.
O comandante Antônio Jackson, com 58 anos de experiência e mais de 38 mil horas de voo, conhece intimamente os desafios do terminal. Segundo ele, o momento mais crítico é a decolagem, quando piloto e copiloto varrem o horizonte em busca de aves. Ele descreve procedimentos pré-decolagem rigorosamente estabelecidos e recursos disponíveis para contornar emergências. O perigo real, explica, reside na força de sucção das turbinas, particularmente em aeronaves maiores. Esses motores aspiram volumes enormes de ar, especialmente durante a aceleração para decolagem, tornando aves presas fáceis e potencialmente catastróficas.
Os especialistas apontam uma causa raiz: o Aterro Sanitário da Muribeca, localizado em Jaboatão dos Guararapes, nas proximidades do aeroporto. O local, que já funcionou como lixão, ainda apresenta pontos de descarte irregular de resíduos. Segundo o biólogo André Maia, pássaros são atraídos pela abundância de alimento nesses acúmulos de lixo. A cadeia é simples: lixo atrai pombos, pombos atraem carcarás e outras aves de rapina, todas circulando na região onde os aviões decolam e pousam. Maia argumenta que a solução definitiva passa por educação ambiental — reduzir o descarte irregular e eliminar os pontos de lixo que funcionam como buffets para a vida selvagem urbana.
Enquanto o problema estrutural persiste, o aeroporto recorre a medidas imediatas. A administração utiliza gaviões-telha, uma espécie veloz e inteligente, para afugentar outras aves. Esses falcões emitem vocalizações que espantam presas potenciais. Além deles, funcionários disparam fogos de artifício para manter a pista livre. Mesmo com essas estratégias, o risco nunca desaparece completamente. Jackson reconhece que as ocorrências são reportadas e que se faz o possível, mas admite que eliminar completamente o problema é impossível enquanto o aterro permanecer como fonte de atração.
Apesar dos incidentes, Jackson insiste na segurança da aviação moderna. Ele aponta que acidentes ocorrem em todos os meios de transporte — carros, trens, navios — e que a aviação dispõe de protocolos e recursos para minimizar riscos e trazer aeronaves de volta ao solo com segurança. Sua confiança é pessoal: formou uma filha como comandante. Não o faria, diz, se não acreditasse na segurança do setor. O desafio agora é equilibrar essa segurança comprovada com a realidade de um aeroporto situado próximo a uma fonte permanente de atração de vida selvagem.
Notable Quotes
A aviação é muito segura. Eu, inclusive, tenho uma filha que formei comandante. Se não fosse segura, eu não o faria.— Comandante Antônio Jackson
A raiz do problema é que as pessoas acabam jogando lixo no canto errado, atraindo pombos e, por consequência, carcarás. É tudo dentro da cadeia alimentar.— Biólogo André Maia