A cada aniversário, o ser humano se depara com uma estranheza antiga: o tempo do relógio e o tempo vivido raramente coincidem. A infância parecia interminável porque tudo era novidade; a maturidade acelera quando a repetição apaga o espanto. Nesta reflexão publicada na Folha de S.Paulo, o cronológico e o existencial se encontram para revelar que a qualidade da presença — e não a quantidade de horas — é o que determina a densidade de uma vida.
Quando minha mãe tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu
Encher o advérbio de substantivos
Por que você acha que a gente começa a sentir o tempo passando mais rápido quando fica mais velho?
Acho que tem a ver com novidade. Quando criança, quase tudo é novo, e isso alonga a experiência. Quando tudo vira repetição, a gente para de se espantar, e aí o tempo voa.
Mas isso é mais uma sensação psicológica do que algo real, certo? O relógio marca o mesmo tempo para todo mundo.
Exato. O relógio só conta. Não traduz o tempo vivido. Três horas no Instagram desaparecem. Três horas numa praia duram muito mais.
Então a qualidade da experiência muda como a gente sente o tempo passar?
Muda tudo. Uma boa companhia pode fazer de três horas uma vida inteira. Cinco minutos esperando o médico sair de uma cirurgia não são os mesmos cinco minutos com chocolate na boca.
Isso é verdade, mas é difícil medir. Como você sabe que a praia durou mais se o relógio diz que foi a mesma quantidade de tempo?
Você não sabe pelo relógio. Você sabe porque viveu. Porque estava presente.
E quando a gente fica consciente de que o tempo acaba, o que muda?
Tudo. Um amigo meu teve um infarto e ficou mais jovem depois disso. Começou a fazer coisas novas, a perceber mais. O tempo ganhou outra cadência.
Mas isso é porque ele quase morreu, certo? Não é uma lição que a gente deveria precisar aprender do jeito mais duro possível?
Verdade. Mas a gente aprende mesmo assim. Quem sabe a urgência que o tempo merece passa a tratar a vida com mais calma.
Então o segredo é encher o tempo de coisas que importam?
Não é segredo. É só substantivo em vez de advérbio.
Il Polso
- O tempo escorrega entre os dedos justamente quando mais tentamos contabilizá-lo: setembro encosta no Natal e os anos se tornam indistinguíveis uns dos outros.
- A rolagem infinita do Instagram evapora três horas sem deixar rastro, enquanto as mesmas três horas numa praia ou com boa companhia se transformam em algo que parece durar uma vida inteira.
- Um amigo que sofreu um infarto voltou a se espantar com o mundo e, paradoxalmente, parece mais jovem — a consciência da finitude devolveu ao tempo sua cadência e nitidez.
- Os estoicos já alertavam: guardar a vida para um 'depois de' ou 'quando' é transformar o teatro em ensaio eterno, desperdiçando o único tempo que de fato existe.
- A saída proposta é quase poética — encher o advérbio 'amanhã' de substantivos concretos: praia, chocolate, beijo, espanto, avó — tudo aquilo que faz o tempo pousar em vez de voar.
A cada aniversário, o ser humano se depara com uma estranheza antiga: o tempo do relógio e o tempo vivido raramente coincidem. A infância parecia interminável porque tudo era novidade; a maturidade acelera quando a repetição apaga o espanto. Nesta reflexão publicada na Folha de S.Paulo, o cronológico e o existencial se encontram para revelar que a qualidade da presença — e não a quantidade de horas — é o que determina a densidade de uma vida.
Às vésperas de um aniversário, o autor se pergunta como o tempo funciona — e por que ele funciona de maneira tão diferente para cada pessoa em cada momento da vida.
Na infância, o tempo era vasto. As férias duravam eternidades, e até o tédio tinha peso e textura. Com a idade, a repetição apaga o espanto, e o relógio — que só sabe contar — não consegue explicar por que a vida cabe em medidas tão desiguais. Quando a mãe do autor tinha a sua idade, ela parecia mais velha do que ele se sente agora. Para quem ama para sempre, a vida é longa demais; para quem perde um avô, é curta demais.
Há formas de preencher o tempo sem realmente habitá-lo. Três horas no Instagram se evaporam porque o tempo não tem onde pousar na rolagem infinita. As mesmas três horas numa praia, ou com uma boa companhia, duram muito mais. O relógio insiste que é a mesma quantidade — mas cinco minutos esperando notícias de uma cirurgia não são os mesmos cinco minutos antes de um primeiro beijo.
Um amigo que sofreu um infarto voltou a perceber as coisas com atenção renovada e, paradoxalmente, parece mais jovem. A urgência da finitude, em vez de apressar, trouxe calma e presença. É como a história do menino com a bacia de jabuticabas: só quando percebeu que faltavam poucas é que passou a saborear cada uma.
Os estoicos lembravam que a parte da vida que realmente vivemos é pequena; o restante é apenas tempo, não vida. Adiar para um 'depois de' ou 'quando' é transformar a existência num ensaio sem estreia. Honrar o tempo, conclui o autor, talvez seja isto: encher o advérbio 'amanhã' de substantivos — praia, chocolate, beijo, espanto, avó.
Amanhã é meu aniversário. Ou em novembro — o tempo não tem tamanho, então não sei quanto vai durar este mês. Quando um ciclo parece terminar, fico tentando entender como o tempo funciona, e como ele funciona para mim.
Na infância, o tempo era abundante. As férias duravam eternidades. A terceira série parecia uma faculdade inteira. Cada coisa nova era uma descoberta; cada invenção, um acontecimento; até o tédio era um evento em si. Agora setembro encosta no Natal. As lojas e as luzes apressam algo que já anda depressa demais.
Dizem que o tempo passa mais rápido com a idade. Quando somos jovens, quase tudo é novidade, e isso alonga a experiência. Mas não é só isso. O tempo envelhece quando tudo parece uma repetição, quando paramos de nos espantar com as coisas. O relógio sabe contar — é só isso que ele faz. Não traduz o tempo. Não explica por que a vida cabe em medidas tão diferentes. Quando minha mãe tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu sou agora. Para quem prometeu amar para sempre, a vida é longa demais — a eternidade tem um prazo exíguo. Para quem perde um avó, a vida é curta demais, porque avós deveriam ser eternos.
Há muitas formas de preencher o tempo sem realmente habitá-lo. Três horas no Instagram se evaporam. Na rolagem infinita, o tempo não tem onde pousar e voa justamente por isso. As mesmas três horas numa praia duram muito mais. Uma boa companhia pode fazer de três horas uma vida inteira. O relógio vai insistir que é a mesma quantidade, mas não consegue explicar por que cinco minutos esperando o médico sair de uma cirurgia não são os mesmos cinco minutos com um pedaço de chocolate na boca, que também não são os mesmos cinco minutos antes de um primeiro beijo. Há uma crueldade na contabilidade do tempo. Ele passa a vida inteira somando aquilo que está tirando de nós.
Mas, uma hora, os minutos serão ouvidos. Um amigo que sofreu um infarto este ano me parece mais jovem do que há cinco. Começou a fazer coisas novas e, principalmente, a perceber mais as coisas. O tempo não voltou, mas ganhou outra cadência. Quem sabe a urgência que o tempo merece, paradoxalmente, passa a tratar a vida com mais calma. É curioso que a vida ganha mais nitidez quando se encosta na consciência da finitude. O tempo muda de tamanho depois que ele termina. É como a história do menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente. Quando percebeu que faltavam poucas, passou a roer o caroço.
Os estoicos diziam que a parte da vida que realmente vivemos é pequena; todo o restante é tempo, não vida. Guardar para começar a viver "depois de", "se", "quando" é transformar o teatro em um eterno ensaio. É tentador adiar, porque, olhando para frente, a vida ainda parece enorme: tantos amanhãs, tantos dias que ainda não aconteceram, tantas pessoas, tantos lugares. O futuro é largo porque ainda é vazio. Graham Greene teria dito que amanhã é só um advérbio de tempo. Praia, chocolate, beijo, avó, espanto — isso é substantivo. Honrar o tempo talvez seja isto: encher o advérbio de substantivos.
Citazioni salienti
Quando minha mãe tinha a minha idade, ela era mais velha do que eu sou agora— Reflexão da colunista sobre como a percepção do tempo varia entre pessoas
Quem sabe a urgência que o tempo merece, paradoxalmente, passa a tratar a vida com mais calma— Observação sobre como a consciência da finitude muda nossa relação com o tempo