A Neoenergia investirá R$ 350 milhões para substituir diesel por energia solar, removendo 10 mil árvores em área de 16 hectares. Moradores e especialistas alertam para erosão do solo frágil, perda de habitat e redução de áreas para moradia local na ilha.
Projeto solar em Noronha remove 10 mil árvores e gera críticas de moradores
A ideia é boa, mas a execução está dolorosa
Por que isso importa agora? A energia solar é uma coisa boa, certo?
É, mas o contexto muda tudo. Fernando de Noronha é uma ilha pequena, protegida por lei ambiental. Não é um terreno vazio. Cada hectare tem peso.
Espera. A empresa diz que 55% das árvores removidas eram exóticas. Isso significa que metade do que foi cortado era prejudicial ao ecossistema?
Tecnicamente sim, segundo a CPRH. Mas Cordeiro, o agrônomo local, não faz essa distinção. Para ele, a questão é que o solo fica exposto e vulnerável à erosão.
E as 20 mil mudas que vão plantar? Isso não compensa?
Não sabemos ainda. Estão planejando plantar em três áreas específicas, mas não há dados sobre taxa de sobrevivência ou cronograma. É uma promessa, não um resultado.
E há a questão social que ninguém está resolvendo. Moradores precisam de terra para morar. Essa área poderia ter gerado 640 lotes de moradia em um hectare. Agora é painel solar.
A empresa tem autorização dos órgãos ambientais. Isso não significa que está tudo certo?
Significa que passou pelo processo. Mas o processo não eliminou as preocupações legítimas dos moradores. Aprovação regulatória e aceitação local são coisas diferentes.
Exatamente. O projeto chegou estruturado, sem participação real da comunidade no desenho. Agora estão vivendo com as consequências.
Então qual é o próximo passo?
Vigilância. A CPRH diz que recebe relatórios de acompanhamento. Precisamos ver se as medidas de drenagem funcionam, se as mudas pegam, se o solo realmente é protegido como prometido.
Il Polso
- 10 mil árvores removidas para instalar 30 mil painéis solares em 23 hectares
- R$ 350 milhões de investimento da Neoenergia para substituir 10 milhões de litros de diesel por ano
- 16 hectares com remoção de vegetação; 55% eram espécies exóticas, 45% nativas
- 20 mil mudas nativas planejadas para replantio em três áreas definidas pela CPRH e ICMBio
A Neoenergia investirá R$ 350 milhões para substituir diesel por energia solar, removendo 10 mil árvores em área de 16 hectares. Moradores e especialistas alertam para erosão do solo frágil, perda de habitat e redução de áreas para moradia local na ilha.
Projeto Noronha Verde da Neoenergia remove 10 mil árvores para instalar 30 mil painéis solares em 23 hectares, gerando críticas de moradores sobre impactos ambientais e uso do solo.
Fernando de Noronha está em transformação, e nem todos estão convencidos de que o preço vale a pena. A Neoenergia começou a remover árvores da ilha para fazer espaço a um projeto de energia solar ambicioso — o Noronha Verde — que pretende instalar 30 mil painéis solares em uma área de 23 hectares. Até agora, cerca de 10 mil árvores foram derrubadas. A empresa investirá R$ 350 milhões para substituir o diesel, que consome 10 milhões de litros por ano na geração de energia local, por fontes renováveis. É um objetivo nobre em princípio. Mas a execução deixou cicatrizes visíveis na paisagem, e os moradores estão questionando se o ganho ambiental justifica o que foi perdido.
Domício Cordeiro, engenheiro agrônomo e doutor em Ciências do Solo que nasceu na ilha e foi seu administrador na década de 1990, vê perigo onde a empresa vê progresso. O solo de Noronha é frágil e altamente suscetível à erosão, explica. Sem as árvores que funcionavam como amortecedor natural contra a chuva, o solo será arrastado — levado para os cursos de água ou para o mar. Os caranguejos foram esmagados durante a remoção. Os pássaros perderam seus ninhos. "A ideia é boa, mas a execução está dolorosa", disse Cordeiro. Ele também apontou uma questão social: em um hectare, seria possível criar 40 lotes de moradia de 250 metros quadrados cada. A população local, que cresce, está perdendo terreno onde poderia construir suas casas.
Nino Alexandre Lehnemann, presidente da Assembleia Popular Noronhense, compartilha a preocupação. O projeto chegou à ilha já estruturado, sem que os moradores pudessem dimensionar adequadamente o impacto. As cicatrizes da remoção de vegetação são evidentes em toda a ilha. "Não combina com Fernando de Noronha, que conta com Parque Nacional e Área de Proteção Ambiental. Até parece cidade grande. Não é bonito", disse. Dos 23 hectares ocupados pelo projeto, 16 têm remoção de vegetação — o equivalente a cerca de 160 mil metros quadrados. Para Lehnemann, essas áreas poderiam servir a outras finalidades sociais: agricultura, criação de animais, moradia.
A Neoenergia oferece uma resposta estruturada. Daniel Daibert, superintendente de Meio Ambiente da empresa, ressalta que o projeto tem autorização da Administração de Fernando de Noronha, da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A empresa começou a produzir 20 mil mudas de espécies nativas para plantar o dobro de árvores que foram removidas, em áreas definidas pelos órgãos ambientais para recuperação. Daibert também observa que 55% das espécies removidas eram exóticas, prejudiciais ao meio ambiente. A empresa planeja instalar drenagem e proteção do solo nas áreas onde as árvores foram cortadas, com cobertura vegetal sob os painéis para evitar erosão e carreamento de sedimentos.
A CPRH confirmou que o empreendimento passou por licenciamento ambiental rigoroso, com estudo específico dos impactos. A análise envolveu a Administração de Noronha e o ICMBio. Os órgãos identificaram e avaliaram os impactos da implantação e operação, definindo medidas para prevenir, controlar e reduzir danos ambientais. O plantio de 20 mil mudas nativas ocorrerá em três áreas: Sítio Leão, Praia da Conceição e Praia do Sancho. Um sistema de drenagem com canaletas, valetas e bacias de retenção controlará a água da chuva para reduzir erosão. A CPRH recebe relatórios de acompanhamento para fiscalizar os aspectos ambientais durante a implantação e operação.
Mas as garantias da empresa e dos órgãos reguladores não silenciaram as vozes locais. A primeira etapa do projeto foi inaugurada em maio, com 4.800 painéis instalados na região do aeroporto. O trabalho continua. O que está em jogo é mais do que energia: é a forma como uma ilha pequena, protegida por lei ambiental, equilibra a necessidade de modernização com a preservação do que a torna única. Os moradores esperam que as promessas de compensação e proteção do solo se materializem. O ICMBio e a Administração de Fernando de Noronha não responderam aos pedidos de comentário até o fechamento desta reportagem.
Citazioni salienti
A remoção das árvores me preocupa porque o solo de Fernando de Noronha é altamente frágil, suscetível à erosão. Isso vai assorear os cursos de água ou vai levar esse material para o mar.— Domício Cordeiro, engenheiro agrônomo e doutor em Ciências do Solo
Não combina com Fernando de Noronha, que conta com Parque Nacional e Área de Proteção Ambiental. Até parece cidade grande. Não é bonito.— Nino Alexandre Lehnemann, presidente da Assembleia Popular Noronhense