Em maio deste ano, uma professora de 25 anos foi assediada e mordida por um instrutor de academia no Recife — um ato captado por câmeras de segurança e que expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade das mulheres nos espaços mais cotidianos da vida. O instrutor foi demitido após a denúncia, mas recontratado meses depois, revelando como a conveniência institucional pode silenciar o peso de uma agressão. O caso atravessa o jurídico e o humano: é sobre uma mulher que disse não, repetidamente, e foi ignorada — e que agora enfrenta, além da ferida física, o isolamento de quem ousa denunciar.
Professora denuncia assédio e mordida de instrutor em academia no Recife
É como se o que eu fiz fosse errado
O que a fez finalmente denunciar, se ela já havia tentado se afastar dele antes?
A mordida foi o ponto de ruptura. Abraços indesejados e toques ela podia tentar evitar, podia se afastar. Mas uma mordida é um ato de agressão física que fica registrado no corpo. Não era mais possível fingir que era brincadeira.
Ela menciona que ele dizia ser "resenha" — uma brincadeira entre colegas. Por que ela não acreditava nisso?
Porque ela via como ele se comportava com outras mulheres. Havia intimidade real com elas, riso genuíno. Com ela era diferente — era insistência, era agarrar, era não respeitar quando ela dizia não. Ela sabia a diferença.
A parte mais perturbadora para você é o que aconteceu depois da denúncia?
Sim. Ela fez exatamente o que deveria fazer — denunciou, registrou boletim. E três meses depois vê o homem trabalhando lá novamente. A academia diz que foi excepcional, temporário. Para ela, foi uma mensagem: você não importa tanto quanto a conveniência.
Ela fala muito sobre isolamento e julgamento. De quem ela sente isso?
Das pessoas ao seu redor. Não está claro se é porque não acreditam nela, se é desconforto com o assunto, ou se é aquela dinâmica estranha onde a vítima acaba sendo vista como problemática por ter falado. Ela se sente sozinha na sua própria experiência.
O que ela quer que aconteça agora?
Que o caso seja investigado e julgado corretamente. Mas também algo mais simples: que as pessoas entendam que ela não fez nada para provocar isso, que ela não tinha intimidade com ele, que ela simplesmente disse não e foi ignorada.
Der Puls
- Uma mulher foi mordida nas costas dentro de uma academia enquanto tentava se afastar de um instrutor que insistia em tocá-la sem consentimento.
- Câmeras de segurança registraram o momento exato da agressão, tornando visível um padrão de comportamento que ela já vinha tentando evitar há algum tempo.
- Três meses após a demissão do agressor, a vítima o encontrou trabalhando novamente no mesmo local — recontratado pela academia por razões operacionais.
- A advogada da vítima enquadra o caso como assédio sexual e lesão corporal, enquanto a academia afirma colaborar com as autoridades e classifica a recontratação como excepcional.
- A mulher relata sentir-se julgada e isolada por ter denunciado, carregando o medo de represálias e a sensação perturbadora de que a culpa recaiu sobre ela.
Em maio deste ano, uma professora de 25 anos foi assediada e mordida por um instrutor de academia no Recife — um ato captado por câmeras de segurança e que expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade das mulheres nos espaços mais cotidianos da vida. O instrutor foi demitido após a denúncia, mas recontratado meses depois, revelando como a conveniência institucional pode silenciar o peso de uma agressão. O caso atravessa o jurídico e o humano: é sobre uma mulher que disse não, repetidamente, e foi ignorada — e que agora enfrenta, além da ferida física, o isolamento de quem ousa denunciar.
Uma professora de 25 anos foi ao bairro do Passarinho, na Zona Norte do Recife, para se exercitar em 19 de maio. O que encontrou foi um instrutor da academia ElevaFit, Felipe Gomes da Silva, que havia desenvolvido um padrão sufocante de aproximações indesejadas — abraços frequentes, tentativas de segurá-la pela cintura quando ela tentava se afastar, insistência mesmo diante de recusas claras. Ela nunca havia tido qualquer intimidade com ele. Ele agía como se tivessem.
As câmeras de segurança registraram o momento da agressão: ela estava encostada numa rampa quando ele se aproximou, a agarrou pela cintura, e mesmo diante de um sinal negativo com a cabeça, a mordeu nas costas e a derrubou nos próprios braços. Ao ser solta, ela caminhou até um papel e limpou o local da mordida em silêncio.
Três dias depois, registrou boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher de Olinda. A academia demitiu o instrutor. Mas em 19 de agosto — três meses depois — ela o viu trabalhando lá novamente. A explicação da academia foi que a recontratação havia sido excepcional e temporária, para cobrir duas diárias durante afastamentos médicos de outros profissionais. Para ela, a mensagem foi outra: o que havia acontecido pesava menos do que a conveniência.
Sua advogada, Carla Barros, aponta dois crimes: assédio sexual e lesão corporal. Mas o que mais machuca a vítima vai além das categorias jurídicas. É o isolamento. É a sensação de estar sendo julgada por ter falado. É o medo de represálias contra sua família. É a pergunta que não deveria existir — a de se ela fez algo errado ao denunciar alguém que a havia mordido. Ela queria apenas que as pessoas entendessem: ela disse não. Repetidamente. E foi ignorada.
Uma professora de 25 anos entrou numa academia no bairro do Passarinho, na Zona Norte do Recife, em 19 de maio, para se exercitar. Saiu com uma mordida nas costas e uma ferida que não cicatrizaria tão rápido quanto a física.
O instrutor da academia ElevaFit, Felipe Gomes da Silva, havia desenvolvido um padrão de comportamento que ela descreveria depois como sufocante. Sempre que ele a abraçava — e ele abraçava frequentemente — ela não queria estar ali. Ele a puxava para perto de seu corpo, tentava segurá-la pela cintura quando ela tentava se afastar. Ela dizia não; ele insistia. Ela nunca havia tido qualquer intimidade com ele, mas ele agisse como se tivessem. Ela o via com outras mulheres na academia, rindo alto, brincando, e se perguntava por que com ela era diferente.
No dia do incidente, câmeras de segurança capturaram o que aconteceu. A mulher estava encostada numa rampa quando ele se aproximou. Ela abaixou a cabeça. Ele a agarrou pela cintura. Ela fez sinal negativo com a cabeça e tentou se soltar. Ele a mordeu nas costas e a derrubou nos próprios braços. Quando a soltou, ela saiu andando, pegou um papel e limpou o local da mordida.
Três dias depois, ela registrou um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher de Olinda. A academia demitiu o instrutor. Mas três meses depois — em 19 de agosto — ela o viu trabalhando lá novamente. A academia depois explicaria que havia sido uma contratação excepcional e temporária para cobrir duas diárias enquanto outros profissionais se afastavam por questões médicas. Para ela, porém, a mensagem era clara: o que havia acontecido não importava tanto quanto a conveniência operacional.
O que a machucava tanto quanto a mordida era o isolamento que se seguiu. As pessoas ao seu redor não pareciam entender. Ela sentia que havia feito algo errado ao denunciar. Havia medo — medo de represálias, medo de que algo ruim acontecesse com sua família. Havia tristeza. Havia um sentimento de que ela estava sendo julgada por ter falado, como se a culpa fosse dela por ter denunciado alguém que a havia mordido. "É como se o que eu fiz fosse errado", disse ela.
Sua advogada, Carla Barros, argumentava que o caso envolvia dois crimes: assédio sexual e lesão corporal. Mas para além das categorias legais, havia uma questão maior sobre segurança feminina — uma mulher que estava simplesmente cumprindo sua rotina, buscando se exercitar, e havia sido agredida. A academia reafirmou seu compromisso com a segurança e o bem-estar de seus alunos e disse estar à disposição para colaborar com as autoridades. A vítima, porém, continuava esperando que o caso corresse "na medida correta do que deve acontecer", como sua advogada colocou. Ela queria que as pessoas entendessem que ela não havia feito nada para provocar isso, que não havia intimidade entre eles, que ela simplesmente havia dito não — repetidamente — e havia sido ignorada.
Bemerkenswerte Zitate
Às vezes que ele me abraçava, na verdade, eu não queria. Porque ele queria me acochar, queria me trazer muito para perto de seu corpo. E às vezes eu tentava sair, só que ele insistia, tentando pegar na minha cintura.— A vítima, em entrevista à TV Globo
É uma situação que fala da sociedade de maneira geral. A gente pode falar da esfera criminal, da esfera cível, mas, acima de tudo, a gente fala da segurança da mulher.— Carla Barros, advogada da vítima