No coração de São Paulo, a praça Franklin Roosevelt — espaço onde a cidade aprendeu a improvisar cultura entre viadutos e calçadas — será entregue à gestão privada por vinte anos. A Prefeitura aprovou o modelo de concessão em agosto de 2026, estimando um contrato de R$ 55,8 milhões que promete conservar o que o poder público deixou deteriorar. Entre a promessa de continuidade cultural e o temor de que o mercado reescreva a alma do lugar, a cidade negocia, mais uma vez, o preço de seus espaços comuns.
Prefeitura aprova concessão da praça Roosevelt e deve publicar edital em breve
Grupos temem repetir desvios de finalidade vistos no Anhangabaú
Por que a prefeitura decidiu conceder a praça em vez de mantê-la sob gestão pública?
A justificativa oficial é que a concessão qualifica as estruturas existentes, amplia serviços e incentiva atividades culturais. Mas há também a questão prática: a manutenção deteriorou, e a prefeitura vê na iniciativa privada uma forma de resolver isso sem gastar diretamente.
Mas isso assume que uma empresa privada vai priorizar o interesse público. O contrato tem cláusula de continuidade das atividades culturais — mas cláusulas podem ser interpretadas de formas diferentes.
Qual é a principal preocupação dos grupos que usam a praça?
Eles temem que a concessão desvie a finalidade do espaço. Apontam o exemplo do vale do Anhangabaú, onde eventos privados de grande porte tomaram conta. Também reclamam de não terem sido consultados antes.
É importante notar que a prefeitura diz que incorporou uma cláusula para garantir continuidade, mas não sabemos ainda como isso será fiscalizado ou o que acontece se a concessionária não cumprir.
Quanto dinheiro a prefeitura vai receber com isso?
O contrato estimado é de R$ 55,8 milhões ao longo de 20 anos. A concessionária pagará um mínimo inicial de R$ 2,9 milhões, mais R$ 1.234 mensais, além de 10% da receita bruta semestral. A prefeitura também pode ganhar 20% de receitas de "naming rights" — se uma marca comprar o direito de adicionar seu nome ao da praça.
Esses números são estimativas. A receita anual prevista de R$ 4,5 milhões depende de quanto a concessionária conseguir cobrar de estacionamento e outras fontes. Se não atingir essas metas, os números caem.
E quanto ao ruído? Isso é uma preocupação real?
Sim. A praça já é animada à noite pela proximidade de bares e teatros. Com 36 atividades culturais obrigatórias por mês e eventos quinzenais de até 12 horas, o volume de som pode aumentar significativamente.
O edital permite eventos com aprovação da prefeitura para públicos acima de 250 pessoas, mas não especifica limites de decibéis ou horários rígidos. Isso deixa espaço para interpretação.
Quando o edital será publicado?
A prefeitura não definiu ainda. Disse que será "em breve", mas a Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias e a Secretaria de Governo ainda precisam definir o prazo e a data exatos.
Enquanto isso, há um túnel estruturalmente comprometido abaixo da praça. A SPObras adiou o edital de recuperação em junho. Não está claro como a concessão da praça se relaciona com o reparo do túnel, que custaria R$ 36,3 milhões.
El Pulso
- A aprovação do edital em reunião fechada do Conselho Municipal pegou frequentadores, artistas e moradores de surpresa — muitos souberam pela imprensa, sem qualquer consulta prévia.
- O coletivo Ocupa Roosevelt mobiliza resistência, evocando o precedente do Anhangabaú, onde eventos privados de grande porte teriam desvirtuado o caráter público do espaço.
- A prefeitura tenta equilibrar a equação inserindo cláusula de continuidade cultural e exigindo ao menos 36 atividades mensais — mas a promessa contratual não dissolve a desconfiança.
- A possibilidade de venda de 'naming rights' — uma marca acrescida ao nome histórico da praça — concentra parte da polêmica sobre os limites entre concessão e privatização simbólica.
- Com o edital prestes a ser publicado e a licitação da recuperação do túnel abaixo da praça já adiada, o futuro do Complexo Roosevelt avança em ritmos descompassados.
No coração de São Paulo, a praça Franklin Roosevelt — espaço onde a cidade aprendeu a improvisar cultura entre viadutos e calçadas — será entregue à gestão privada por vinte anos. A Prefeitura aprovou o modelo de concessão em agosto de 2026, estimando um contrato de R$ 55,8 milhões que promete conservar o que o poder público deixou deteriorar. Entre a promessa de continuidade cultural e o temor de que o mercado reescreva a alma do lugar, a cidade negocia, mais uma vez, o preço de seus espaços comuns.
A Prefeitura de São Paulo aprovou o modelo final do edital de concessão da praça Franklin Roosevelt, um dos espaços mais vivos do centro paulistano. A decisão saiu de uma reunião do Conselho Municipal de Desestatização e Parcerias em 12 de agosto, e a licitação deve ser publicada em breve. O contrato terá duração de 20 anos e valor estimado de R$ 55,8 milhões, cobrindo investimentos e manutenção ao longo do período.
Inaugurada em 1970, a Roosevelt consolidou ao longo das décadas uma identidade cultural própria — teatro, slam, batalhas de poesia — moldada por grupos que ocuparam o espaço de forma orgânica. Com a deterioração das estruturas, a gestão Nunes vê na concessão privada uma saída para qualificar o espaço e ampliar serviços. A concessionária será responsável pela operação, manutenção e gestão sociocultural, devendo realizar ao menos 36 atividades culturais, educativas e recreativas por mês.
Mas a promessa não chegou sem resistência. Frequentadores, artistas e o coletivo Ocupa Roosevelt reclamaram de exclusão do processo decisório e manifestaram temor de que a concessão repita o que chamam de desvios de finalidade ocorridos no vale do Anhangabaú — onde eventos privados de grande porte teriam sobreposto o uso comercial ao público. A possibilidade de venda de 'naming rights', que permitiria acrescentar o nome de uma marca ao da praça histórica, tornou-se um dos pontos mais simbólicos do debate.
O projeto abrange um Complexo Roosevelt mais amplo: inclui um belvedere na rua Augusta, intervenções na rua Gravataí com travessias elevadas e jardins, além de iluminação e câmeras abaixo do viaduto Julio de Mesquita Filho. A receita estimada para a concessionária é de R$ 4,5 milhões anuais, com a maior parte vinda do estacionamento subterrâneo. O fechamento da praça com grades será proibido, e eventos de grande porte exigirão aprovação municipal.
Paralelamente, a licitação para recuperação estrutural do túnel da ligação Leste-Oeste — localizado abaixo da praça, com custo estimado de R$ 36,3 milhões — foi adiada em junho, criando um descompasso entre as duas frentes de intervenção. A concessão da praça segue adiante como parte de um pacote maior de requalificação do centro de São Paulo.
A Prefeitura de São Paulo deu o aval final para entregar a praça Franklin Roosevelt a uma empresa privada. O modelo do edital foi aprovado em reunião fechada do Conselho Municipal de Desestatização e Parcerias no dia 12 de agosto, e agora a licitação será publicada em breve — a Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias e a Secretaria de Governo ainda definem o prazo e a data exatos.
A praça, inaugurada em 1970 como parte das obras da ligação Leste-Oeste, é um dos espaços mais vivos do centro paulistano. À noite, atrai frequentadores pela proximidade de bares, teatros e da rua Augusta. Há anos, grupos diversos realizam atividades culturais ali — teatro, slam, batalhas de poesia — que moldaram a identidade do lugar. Mas a manutenção deteriorou, e a prefeitura vê na concessão uma saída para qualificar as estruturas, ampliar serviços e incentivar ainda mais atividades culturais. O contrato terá duração de 20 anos, com valor estimado de R$ 55,8 milhões, cobrindo investimentos, despesas e custos obrigatórios ao longo do período.
O diretor de projetos da São Paulo Parcerias, Kim Ferreira de Souza, afirmou que a prefeitura incorporou uma cláusula no contrato para garantir a continuidade das atividades culturais consolidadas. Mas essa promessa não tranquilizou todos. Frequentadores, moradores, comerciantes e artistas do entorno reclamaram de ter descoberto o projeto pela imprensa, sem participação prévia nas decisões. O coletivo Ocupa Roosevelt se mobilizou contra a concessão, manifestando preocupação com os possíveis 20 anos de contrato e com a possibilidade de repetir o que chamam de "desvios de finalidade" — como eventos privados de grande porte — que ocorreram na concessão do novo vale do Anhangabaú. Há também temor de que a concessão aumente a emissão de ruído.
O projeto vai além da praça. Envolve o chamado Complexo Roosevelt, que inclui a manutenção de um belvedere na rua Augusta, intervenções na rua Gravataí — que liga a praça ao Parque Augusta — e ampliação da iluminação e do monitoramento por câmeras abaixo do viaduto Julio de Mesquita Filho. A proposta para a rua Gravataí deve incorporar ao menos parte de um projeto de boulevard recentemente elaborado pela São Paulo Urbanismo, com travessias de pedestres elevadas, jardins, piso drenante, enterramento de fios e instalação de bancos.
Segundo a minuta do edital divulgada em junho, o fechamento da praça com grades ou outras barreiras para eventos será proibido. A concessionária será responsável pela operação, manutenção e gestão sociocultural, e deverá realizar ao menos 36 atividades culturais, educativas, recreativas e esportivas por mês. O edital permite eventos quinzenais de até 12 horas consecutivas, com aprovação da prefeitura para públicos acima de 250 pessoas. A reforma e reabertura dos quiosques, a exploração econômica do estacionamento subterrâneo e novas intervenções previamente avaliadas pela prefeitura também integram as obrigações.
A receita estimada para a concessionária é de R$ 4,5 milhões anuais, dos quais cerca de R$ 3,5 milhões virão da cobrança de estacionamento. Publicidade, locação ou exploração dos quiosques são outras fontes. O contrato exigirá um pagamento inicial mínimo de R$ 2,9 milhões, além de um "aluguel" mensal de R$ 1.234 e compartilhamento a partir de 10% da receita bruta semestral. Um dos pontos mais polêmicos é a possibilidade de venda de "naming rights" — o nome de uma marca poderia ser acrescido ao atual da praça, com 20% da receita repassada ao município.
A concessão não incluirá os postos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, nem a área da Paróquia Nossa Senhora da Consolação. Na praça em si, as obrigações incluem ampliação do cachorródromo, recuperação do pergolado e intervenções de drenagem para redução de alagamentos. No viaduto, serão instaladas cinco câmeras e sete pontos de iluminação nas calçadas, com melhorias adicionais de iluminação e câmeras abaixo da estrutura.
Paralelamente, a SPObras adiou o edital para a recuperação estrutural do túnel da ligação Leste-Oeste, localizado abaixo da praça. A licitação foi adiada em 30 de junho, oito dias após sua publicação. A obra teria duração de doze meses e custo de R$ 36,3 milhões, envolvendo reparos de fissuras, remoção de vegetação e recuperação do concreto. Enquanto isso, a prefeitura segue adiante com a concessão da praça, integrando-a a um pacote maior de requalificação do centro paulistano.
Citas Notables
A prefeitura resolveu incorporar cláusula no contrato para garantir a continuidade das atividades culturais realizadas por grupos diversos há anos na praça— Kim Ferreira de Souza, diretor de projetos da São Paulo Parcerias
O projeto integra pacote de ações de requalificação para a região central, seguindo rigorosamente o rito institucional padrão dos demais projetos de concessão do município— Secretaria Executiva de Desestatização e Parcerias