Preá e Tatajuba se consolidam como destinos globais de kitesurfe

O kite virou o novo golfe, o novo tênis, o novo esqui
Sócio de pousada descreve como o esporte se transformou em símbolo de status entre a elite brasileira.
Mark

Por que essas praias específicas se tornaram tão atrativas para kitesurfe quando há tantas outras no Brasil?

Mimi

Os ventos. Entre julho e janeiro, Preá e Tatajuba têm ventos constantes de 24 a 30 nós. Não é só bom, é entre os melhores do mundo. Você não consegue isso em qualquer praia.

Mark

Mas há algo mais além do vento que explica o crescimento tão rápido?

Mimi

A infraestrutura chegou no momento certo. Pousadas como o Rancho do Peixe ofereciam conforto para quem não queria acampar. E depois veio a questão do status. O kite virou símbolo de elite, especialmente quando executivos de São Paulo começaram a frequentar.

Mark

Você acha que isso é bom ou ruim para os lugares?

Mimi

É complicado. Trouxe dinheiro, emprego, melhorou a infraestrutura. Mas também criou uma divisão clara entre turistas ricos e comunidades locais. Curimãs e Barra Grande tentam fazer diferente, com turismo mais sustentável e imersão cultural.

Mark

Como os pescadores locais veem essa transformação?

Mimi

Convivem. Em Curimãs, você vê barcos de pesca ao lado de praticantes de kite. Alguns pescadores até ganham com passeios de barco. Mas a terra está mudando, os preços sobem, e nem sempre é claro se a comunidade se beneficia de verdade.

Mark

E as praias mais novas, como Curimãs, conseguem manter esse equilíbrio?

Mimi

Por enquanto sim, porque ainda são pequenas. Mas a Casa Daia, a escola de kite, os restaurantes — tudo está crescendo rápido. Daqui a cinco anos, pode ser bem diferente.

  • Preá fica a 15 minutos do aeroporto de Jericoacoara, com ventos de 24 a 30 nós entre julho e janeiro
  • Equipamento completo de kitesurfe custa entre R$ 15 mil e R$ 20 mil
  • Cursos de 12 horas variam de R$ 3.600 a R$ 4.300, com equipamento incluído
  • Tatajuba fica a 1h30 do aeroporto e tem cerca de 900 habitantes
  • Praia das Curimãs oferece 12 quilômetros de praias intocadas com acesso de 1h50 do aeroporto

Preá e Tatajuba recebem turistas estrangeiros em massa, especialmente franceses, alemães e americanos, consolidando-se entre os melhores pontos de kitesurfe do mundo. O esporte virou símbolo de status entre a elite brasileira, com equipamentos custando R$ 15 mil a R$ 20 mil e aulas de 12 horas saindo por R$ 3.600 a R$ 4.300.

Praias do Ceará transformam-se em destinos internacionais de kitesurfe, atraindo turistas estrangeiros e executivos brasileiros com infraestrutura hoteleira crescente e condições ideais de vento.

No aeroporto de Jericoacoara, no Ceará, virou cena rotineira ver turistas estrangeiros carregando malas enormes de equipamentos esportivos. Eles vêm para um dos melhores lugares do mundo praticar kitesurfe, e a região transformou-se numa verdadeira capital global do esporte nos últimos anos. Com ventos constantes e fortes entre julho e janeiro, as praias do litoral cearense atraem praticantes de todos os níveis, desde iniciantes até atletas experientes.

O Preá é o ponto de partida natural. Localizada a 15 minutos do aeroporto, dentro do Parque Nacional de Jericoacoara, a pequena vila começou a receber visitantes anos depois de sua vizinha mais famosa, Jericoacoara. Mas enquanto Jeri atrai quem busca agito noturno e passeios variados, o Preá consolidou-se como destino de quem tem o kitesurfe como objetivo principal. Os ventos de 24 a 30 nós e a geografia da praia a colocam entre as melhores opções mundiais para o esporte. É comum encontrar grandes grupos de franceses, alemães e americanos nos hotéis e pousadas. A França, berço do kitesurfe e principal produtora de equipamentos, fornece muitos dos visitantes. Mas a construção de um condomínio de casas pela XP Investimentos também popularizou o esporte entre executivos da Faria Lima, transformando o kite no que Marco Dalpozzo, sócio do Rancho do Peixe, chama de novo golfe, novo tênis, novo esqui. Um equipamento completo custa entre 15 mil e 20 mil reais, confirmando a exclusividade do passatempo.

O Rancho do Peixe, aberto em 2005, é uma das primeiras pousadas da região. Mantém ocupação média de 60% de estrangeiros e 40% de brasileiros, oferecendo 26 bangalôs em decks suspensos, piscina, restaurante aberto para não hóspedes e eventos com música ao vivo. Na alta temporada, diárias para duas pessoas saem por 2.570 reais. Dalpozzo é claro sobre o atrativo principal: aqui a atração é o vento. A praia não é de beleza deslumbrante, não é lugar para ficar sob guarda-sol. Quem vem para cá vem para praticar kite, mas há também turismo de experiência, com visitas a lagoas, dunas e passeios de fauna e flora dentro da propriedade de 60 mil metros quadrados. Na WindSpirit Kite Center, escola na praia, cursos completos de 12 horas saem por 4.300 reais com equipamento incluído. Crianças a partir de 30 quilos podem participar, sempre na maré baixa.

A 1h30 do aeroporto fica Tatajuba, a nova sensação entre praticantes que buscam algo mais rústico e intimista. Com cerca de 900 habitantes e crescente oferta de pousadas e restaurantes, a vila oferece clima de comunidade onde é fácil se sentir parte de uma turma de novos amigos. Muitos chegam fazendo downwind desde o Preá, modalidade em que praticantes vão pelo mar a favor do vento enquanto motorista leva as bagagens. A pousada Tatadise oferece jantares na parrilla de Lucho, argentino que vive ali desde 2012. Segundo Teresa Mindelo, proprietária, a maioria dos turistas tem até 30 anos e busca boa hospedagem sem ostentação. Quartos duplos custam 980 reais, triplos 1.190, com café da manhã. O restaurante atrai gente que vem apenas para vinho, sinuca e DJs, apesar do clima descolado e sossegado. O beach club Sunset é programa comum após o velejo, onde praticantes guardam equipamentos e esticam a tarde com música e drinques.

Mais isolada, a Praia das Curimãs oferece 12 quilômetros de praias praticamente intocadas, com paredões de cascudos, dunas e lagoas. O acesso pela CE-085 dura 1h50 do aeroporto. Ali, forte cultura de pesca convive com poucos praticantes de kite que têm o mar quase só para si. É possível ver currais, técnica ancestral em que estacas de madeira no fundo do mar formam cercado que guia e aprisiona peixes com a maré, considerada uma das formas mais sustentáveis de pesca. Em Bitupitá, vizinha, turistas negociam com pescadores passeios de barco por cerca de 200 reais e compram peixes e lagostas recém-pescados na praia. A escola Kite Riders trabalha com professores nativos, oferecendo cursos de 12 horas por 3.600 reais. Felipe Rocco, 16 anos, fez o curso pela primeira vez ao viajar com a família e considerou válido aprender um esporte inovador que não conseguiria em Curitiba.

Curimãs ainda dá primeiros passos no turismo, mas oferece casas de aluguel e pousadas. A Casa Daia, aberta em 2025 e recentemente incorporada à marca OIÁ, aposta na exclusividade com apenas sete suítes. O chef Fábio Vieira elabora cardápio inspirado na cultura local: arroz caldoso com mariscos, polvo com quiabo na brasa, sorvete de tapioca, moqueca de arraia. Hóspedes podem fazer imersão cultural, saindo ao amanhecer para pescar com pescadores locais ou coletar sururu. A cerca de uma hora, já no Piauí, fica Barra Grande, vila conhecida por praticantes de kite que mantém ar hippie com forrós à noite e vendedores de artesanato. A Casa Camuá, desenvolvida pela arquiteta Laura Ducca, prioriza soluções de baixo impacto ambiental com materiais naturais locais, captação de água da chuva e energia 100% solar. Hospedagem para dez pessoas com equipe fixa custa a partir de 5 mil reais ao dia. Um dos passeios mais buscados é observar a revoada dos Guarás no Delta do Parnaíba, centenas de aves com plumagem vermelho-viva sobrevoando o céu no fim da tarde, custando a partir de 1.500 reais para oito pessoas. O La Cozinha, misto de pousada e restaurante, serve moqueca para duas pessoas por 252 reais e picanha de sol com purê de abóbora por 118 reais.

O kite virou o novo golfe, o novo tênis, o novo esqui. Virou o esporte da vez da elite, para o bem e para o mal.
— Marco Dalpozzo, sócio do Rancho do Peixe
Aqui a atração é o vento. Nós estamos no melhor lugar do mundo para a prática do kite.
— Marco Dalpozzo
Eu adorei fazer kite por ser um esporte inovador, que eu não conseguiria em Curitiba, onde eu moro.
— Felipe Rocco, 16 anos
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