Brasil ganha patrimônio mundial com Teatros da Amazônia reconhecidos pela Unesco

Sítios palestinos, libaneses e ucranianos enfrentam destruição e ameaças diretas decorrentes de conflitos armados regionais.
Documentos vivos do apogeu econômico transformado em cidade
Os Teatros da Amazônia nasceram durante o ciclo da borracha e carregam a história de como aquela riqueza foi transformada em cultura.
Mark

Por que os teatros amazônicos importam tanto? Parecem edifícios bonitos, mas há algo mais profundo?

Mimi

Eles não são apenas bonitos — são documentos vivos. Foram construídos durante o ciclo da borracha, quando a Amazônia era o centro econômico do mundo. Cada detalhe arquitetônico conta a história de como aquela riqueza foi transformada em cidade, em cultura, em poder.

Mark

E agora que ganharam o título da Unesco, o que muda na prática?

Mimi

Muda tudo e nada ao mesmo tempo. Muda porque ganham proteção internacional, recursos, atenção. Nada muda porque já eram tombados desde os anos 1960. O título é mais um reconhecimento de que o mundo inteiro precisa cuidar daquilo.

Mark

Notei que vários sítios aprovados estão em zonas de conflito — Palestina, Líbano, Ucrânia. Por que a Unesco inscreve patrimônios que estão sendo destruídos?

Mimi

Justamente porque estão sendo destruídos. Inscrever em caráter emergencial é um grito de alerta. É dizer: olhem, isso importa para a humanidade toda, não apenas para quem vive lá. Às vezes funciona. Às vezes não.

Mark

Israel contestou a aprovação dos castelos libaneses. Como a Unesco lida com essas disputas políticas?

Mimi

Com dificuldade. A Unesco tenta ser apolítica, mas patrimônio é sempre político. Alguém sempre discorda. O que a organização faz é documentar, inscrever, e torcer para que o reconhecimento internacional crie alguma proteção.

Mark

A Itália tem 62 patrimônios mundiais. O Brasil tem 26. Isso reflete algo real sobre a importância dos lugares, ou é mais sobre quem consegue fazer lobby melhor?

Mimi

Provavelmente os dois. A Itália tem séculos de história documentada, cidades inteiras preservadas. Mas também tem recursos, expertise em candidaturas, conexões. O Brasil está crescendo nessa lista, e cada título novo abre caminho para os próximos.

  • Brasil é único país latino-americano a ganhar novo patrimônio cultural em 2026: Teatros da Amazônia
  • 25 novos bens culturais e naturais aprovados em Busan, elevando total global para 1.273 sítios
  • Itália lidera ranking com 62 patrimônios mundiais; arquitetura modernista reconhecida em quatro países
  • Três sítios aprovados em caráter emergencial enfrentam ameaças de conflitos armados e mudanças climáticas

Brasil é único país latino-americano a ganhar novo patrimônio cultural: os Teatros Amazonas e da Paz, construídos durante o ciclo da borracha. Itália lidera ranking com 62 patrimônios mundiais; arquitetura modernista foi destaque com reconhecimentos em quatro países diferentes.

A Unesco adicionou 25 novos bens culturais e naturais à lista de patrimônios mundiais em seu 48º comitê em Busan. O Brasil conquistou seu 26º título com os Teatros da Amazônia, em Manaus e Belém.

Em Busan, na Coreia do Sul, uma comissão de 21 países-membros da Unesco reuniu-se para ampliar a lista de patrimônios mundiais da humanidade. Entre 19 e 29 de julho, o 48º comitê internacional aprovou 25 novos bens culturais e naturais, elevando o total global para 1.273 sítios espalhados por 173 nações. Das propostas submetidas, apenas cinco foram rejeitadas por consenso.

O Brasil conquistou seu 26º título de patrimônio mundial, tornando-se o único país da América Latina a ganhar um novo reconhecimento cultural nesta edição. Os Teatros da Amazônia — o Teatro Amazonas em Manaus e o Teatro da Paz em Belém — foram inscritos juntos, formando uma designação única que inclui também as praças que os circundam: o largo de São Sebastião e a praça da República. Ambos os edifícios foram tombados desde a década de 1960 e nasceram durante o ciclo da borracha, período que marcou o apogeu econômico da região. Segundo Deyvesson Gusmão, presidente do Iphan, os dois teatros carregam a ligação profunda do contexto histórico, econômico e político daquela época, tendo sido fundamentais na formação urbana das duas metrópoles amazônicas.

A arquitetura modernista ganhou destaque especial nesta edição, com reconhecimentos em quatro países diferentes. A Itália, que lidera o ranking global com 62 patrimônios mundiais, viu dez teatros dos séculos 18 e 19 serem inscritos como patrimônio. Essas construções, localizadas em Emilia-Romagna, Marche e Umbria, preservam o neoclassicismo com influências do barroco tardio e foram erguidas sob um sistema de condomínio — modelo de propriedade coletiva e financiamento público-privado que democratizou o acesso às artes cênicas. Também reconhecidos foram um complexo modernista em Tashkent, no Uzbequistão, que reúne dez edifícios incluindo museus e hotéis; o centro planejado de Gdynia, na Polônia, com seus quarteirões do período entre guerras; as 13 estruturas cívicas do arquiteto finlandês Alvar Aalto espalhadas pela Finlândia desde 1928; e o conjunto habitacional de Zehlendorf em Berlim, construído em estilo Bauhaus entre 1926 e 1932.

Os patrimônios naturais aprovados incluem o Pântano de Okefenokee, entre a Geórgia e a Flórida, a maior turfeira de água doce de planície na zona subtropical do mundo, que abriga espécies vegetais ameaçadas de extinção. Também foram inscritos fósseis de peixes ósseos preservados na Dinamarca; o Parque Nacional Wadi Wurayah nos Emirados Árabes Unidos, com 1.099 espécies de fauna e flora; a Reserva marinha de Aqaba na Jordânia, o sistema de recifes de coral tropicais mais ao norte do mundo; e a paisagem migratória de Boma-Badingilo no Sudão do Sul, marcando o primeiro reconhecimento daquele país. Duas nações africanas receberam seus primeiros títulos: Comores, com suas medinas dos sultanatos históricos, e São Tomé e Príncipe, com suas roças, um sistema agrícola colonial. Na categoria mista, apenas a área mais ampla do Monte Olimpo na Grécia foi reconhecida, onde a proximidade com o mar e a altitude abrupta criam um microclima especial que abriga a diversidade de terreno, clima e vegetação onde se acreditava residir os 12 deuses olímpicos.

Três sítios foram aprovados em caráter emergencial, reconhecidos como estando em perigo iminente. A paisagem migratória de Boma-Badingilo enfrenta ameaças de caça e tráfico ilegal de animais além do desenvolvimento de infraestrutura. Sebastia, na Palestina, que preserva registros arqueológicos de ocupações desde o século 9 a.C., sofre com o conflito armado no Oriente Médio e planos de criar um parque nacional — autoridades palestinas já haviam tentado incluir o local em 2012. Cinco castelos no Monte Amel, no sul do Líbano, que formavam uma rede integrada de defesa desde a época das Cruzadas, enfrentam riscos de conservação agravados pelo conflito regional. O Ministério da Cultura libanês afirmou que bombardeios israelenses já destruíram um dos castelos, e a fortaleza medieval de Beaufort foi capturada pelas forças israelenses durante a guerra contra o Hezbollah. Israel contestou, argumentando que o Hezbollah havia transformado Beaufort em posição militar com túneis, e seu Ministério das Relações Exteriores fez campanha para que essas duas aprovações fossem rejeitadas.

Três sítios previamente reconhecidos foram adicionados à lista de patrimônios em perigo: as cidades antigas de Táurica Quersoneso e sua Chora na Ucrânia, Tiro no Líbano, e o centro histórico de Paramaribo no Suriname. A Unesco citou guerras nas regiões e, no caso de Paramaribo, construções realizadas sem avaliação de impacto. Os seis locais na lista de patrimônios em perigo receberão acesso a ajuda técnica e financeira da comunidade internacional. A Coreia do Sul, país-anfitrião, conseguiu aprovação para expandir seus getbols — planícies de maré que integram rotas migratórias de pássaros ameaçados — de quatro para oito unidades de conservação. Durante a comissão, foi formulada a Declaração de Busan, um novo documento que discute medidas para proteger patrimônios contra ameaças emergentes como mudanças climáticas e conflitos regionais, destacando colaboração como pilar estratégico e incentivando o uso transparente e responsável de inteligência artificial na preservação dos bens.

Os dois teatros trazem uma ligação do contexto histórico, econômico e político da época e foram importantes na formação urbana das duas metrópoles
— Deyvesson Gusmão, presidente do Iphan
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