Em Portugal, catorze crianças enfrentam um diagnóstico de hepatite aguda de causa ainda desconhecida — dois dos casos mais recentes descobertos na Madeira. Num mundo que ainda processa as consequências da pandemia, a ciência debate se um adenovírus alterado, combinado com um sistema imunitário infantil menos treinado pelo isolamento, pode estar na origem deste fenómeno. Todas as crianças portuguesas evoluem favoravelmente, e o ritmo de novos casos no Reino Unido começa a abrandar — sinais modestos, mas encorajadores, de que a história pode estar a virar página.
Portugal regista 14 casos suspeitos de hepatite aguda infantil de origem desconhecida
Há uma dinâmica ecológica diferente entre o fígado destas crianças e o adenovírus
Porque é que Portugal tem apenas catorze casos quando a Europa tem trezentos? Isto significa que estamos mais protegidos?
Não necessariamente. Portugal tem uma população menor e uma densidade populacional diferente. Mas o que Marinho sublinha é que o ritmo aqui tem sido controlado — um caso a cada dois dias — e todas as crianças evoluem bem.
Mas precisamos de ser claros: estes são casos suspeitos, não confirmados. A causa ainda não foi identificada. Adenovírus é uma hipótese, não uma certeza.
E as mortes? Seis crianças morreram globalmente. Porque é que nenhuma morreu em Portugal?
A maioria das mortes ocorreu em países com sistemas de saúde muito diferentes. A Irlanda teve uma morte, mas Portugal tem acesso a cuidados intensivos e transplantes de fígado se necessário.
Verdade, mas também é cedo. Portugal tem catorze casos há um mês. Outros países têm centenas. Não sabemos se o padrão vai manter-se.
Então a teoria do adenovírus modificado — é isto que causa a doença?
É a hipótese mais forte neste momento. O vírus pode ter-se alterado, ou as crianças podem estar numa situação imunológica diferente depois do confinamento.
Mas Marinho disse claramente: "Não sabemos ainda bem a causa." Há também a hipótese de interacção com o SARS-CoV-2. Nenhuma destas é confirmada.
Alguns dos casos portugueses podem deixar de ser suspeitos?
Sim. À medida que se aprende mais sobre a doença, alguns casos podem ser reclassificados. Isto é positivo — significa que o número real pode ser menor do que parece.
Ou significa que a definição de caso suspeito era demasiado ampla. De qualquer forma, é um sinal de que o conhecimento está a evoluir.
Il Polso
- Dois novos casos na Madeira elevam para catorze o total de crianças portuguesas com hepatite aguda de origem desconhecida, mantendo um ritmo de aproximadamente um caso a cada dois dias.
- A escala global é mais sombria: seis mortes em países como Indonésia, México e Estados Unidos, e vinte e seis crianças que precisaram de transplante de fígado para sobreviver.
- A hipótese mais forte aponta para um adenovírus modificado que encontrou crianças com imunidade menos exercitada após anos de confinamento pandémico — uma vulnerabilidade ecológica inesperada.
- Em Portugal, a situação é descrita como 'pacífica' pelas autoridades de saúde, com todas as crianças afectadas em estado estável e sem necessidade de cuidados intensivos.
- No Reino Unido, onde o surto começou, o número de novos casos está a desacelerar — um sinal que os especialistas lêem com cautela, mas com esperança.
Em Portugal, catorze crianças enfrentam um diagnóstico de hepatite aguda de causa ainda desconhecida — dois dos casos mais recentes descobertos na Madeira. Num mundo que ainda processa as consequências da pandemia, a ciência debate se um adenovírus alterado, combinado com um sistema imunitário infantil menos treinado pelo isolamento, pode estar na origem deste fenómeno. Todas as crianças portuguesas evoluem favoravelmente, e o ritmo de novos casos no Reino Unido começa a abrandar — sinais modestos, mas encorajadores, de que a história pode estar a virar página.
Portugal confirmou catorze casos suspeitos de hepatite aguda infantil de causa desconhecida, dois deles recentemente identificados na Madeira. As crianças madeirenses estão estáveis e acompanhadas em ambulatório. Desde o início do surto, novos casos têm surgido com regularidade no país, mas o director do Programa Nacional para as Hepatites Virais, Rui Tato Marinho, descreveu a situação como "pacífica": algumas crianças foram internadas e desenvolveram icterícia, mas todas evoluem favoravelmente.
Na Europa, o quadro é mais amplo, com mais de trezentos casos confirmados ou suspeitos e uma morte registada na Irlanda. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde contabilizava, a 17 de Maio, quatrocentos e vinte e nove casos, seis mortes e vinte e seis crianças que necessitaram de transplante de fígado. Três em cada quatro doentes têm menos de cinco anos.
A causa permanece incerta, mas a hipótese mais sólida envolve um adenovírus modificado que se tornou mais agressivo. A esta alteração viral soma-se uma dinâmica ecológica particular: crianças entre um e quatro anos tiveram menos exposição a vírus durante o confinamento pandémico e chegam agora à escola com um sistema imunitário menos treinado. Investiga-se também uma possível interacção com o SARS-CoV-2. "Não sabemos ainda bem a causa", admitiu Marinho.
Um dado relevante é que alguns dos catorze casos portugueses podem deixar de ser classificados como suspeitos à medida que o conhecimento sobre a doença avança. No Reino Unido, onde o surto foi primeiro identificado, o ritmo de novos diagnósticos começa a abrandar — um sinal que Marinho considerou potencialmente encorajador.
Portugal identificou catorze crianças com hepatite aguda de causa desconhecida, confirmou a Direcção-Geral da Saúde na quinta-feira. Dois desses casos foram descobertos na Madeira e representam a continuação de um padrão que começou há quase um mês no país. As duas crianças madeirenses estão estáveis e sob acompanhamento ambulatório, sem necessidade de internamento urgente.
Desde o início do surto em Portugal, novos casos têm surgido com regularidade — em média, um a cada dois dias. Rui Tato Marinho, director do Programa Nacional para as Hepatites Virais, descreveu a situação portuguesa como "pacífica". Algumas das crianças afectadas foram internadas e algumas desenvolveram icterícia, mas todas evoluem favoravelmente, segundo o hepatologista. Este ritmo de aparecimento de novos casos contrasta com o que se observa noutras partes da Europa, onde o fenómeno ganhou maior escala.
A nível europeu, existem pouco mais de trezentos casos confirmados ou suspeitos. Uma criança morreu na Irlanda. Outras mortes foram registadas em países com sistemas de saúde significativamente diferentes dos europeus — Indonésia, México, Palestina e Estados Unidos. No Reino Unido, onde os primeiros casos surgiram, o ritmo de novos diagnósticos começou a desacelerar, sugerindo que a doença pode estar a abrandar. Marinho salientou este sinal como potencialmente encorajador.
A causa permanece por esclarecer, mas a hipótese que ganha força é a de um vírus modificado. O adenovírus, um agente infeccioso conhecido há décadas, pode ter-se alterado e tornado mais agressivo. Existe também uma dinâmica ecológica particular em jogo: as crianças entre um e quatro anos tiveram menos contacto com vírus durante o confinamento da pandemia de covid-19. Agora, quando regressam à escola e a ambientes sociais normais, enfrentam uma carga viral diferente. "Há uma dinâmica ecológica diferente entre o fígado destas crianças e o adenovírus", explicou Marinho.
Outra linha de investigação examina uma possível interacção com o SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19. Pode ter ocorrido alguma alteração no fígado das crianças resultante desta sobreposição viral. O sistema imunitário destas crianças também é diferente do de adolescentes ou adultos — estão numa fase de vacinação natural, começam a frequentar a escola e a estar expostas a infecções comuns como gastroenterites e constipações. "Não sabemos ainda bem a causa", admitiu Marinho, reconhecendo a complexidade da situação.
Um aspecto importante é que alguns dos catorze casos suspeitos em Portugal podem deixar de ser classificados como tal à medida que o conhecimento sobre a doença avança. Isto significa que o número de casos pode estabilizar ou até diminuir, em vez de continuar a crescer. A Organização Mundial da Saúde, no seu último balanço de 17 de Maio, contabilizava quatrocentos e vinte e nove casos globalmente, com seis mortes e vinte e seis crianças que necessitaram de transplante de fígado. Três em cada quatro crianças afectadas têm menos de cinco anos, e quinze por cento dos menores internados estiveram em cuidados intensivos.
Citazioni salienti
A situação da doença em Portugal está pacífica. Temos tido, em média, um caso dia sim, dia não, todos com evolução favorável.— Rui Tato Marinho, director do Programa Nacional para as Hepatites Virais
Há uma dinâmica entre dois vírus. Não sabemos ainda bem a causa.— Rui Tato Marinho