Portugal produz 322 mil veículos em 2022, segundo melhor ano de sempre

A indústria automóvel portuguesa consolidou-se como produtor de peso internacional
Portugal produziu 322.404 veículos em 2022, o segundo melhor resultado de sempre, apesar de desafios globais.
Mark

Como é que Portugal conseguiu crescer 11,2% quando o resto do mundo enfrentava tantas dificuldades?

Mimi

A resiliência vem de uma combinação de fatores. A Autoeuropa já tinha consolidado a produção do T-Roc, que é um modelo com procura forte. As outras fábricas também conseguiram aumentar volumes. Mas honestamente, foi um ano de sorte relativa – a guerra na Ucrânia e os problemas nas cadeias de fornecimento poderiam ter sido muito piores.

Mark

Porque é que o otimismo para 2023 é "cauteloso" e não simplesmente otimista?

Mimi

Porque há demasiadas variáveis fora de controlo. Se a China desconfinar e as suas fábricas de componentes acelerarem, pode haver alívio. Mas se as economias europeias entrarem em recessão – e há sinais disso – as exportações portuguesas sofrem. Noventa por cento vão para a Europa.

Mark

Qual é o significado real de Portugal ser um "país produtor automóvel"?

Mimi

Significa que Portugal produz mais de 300 mil veículos por ano, o que o coloca numa categoria internacional específica. Não é apenas um número – é reconhecimento de que o país tem capacidade industrial, know-how, e é um destino confiável para investimento automóvel.

Mark

A mudança nos mercados de exportação – menos Europa, mais Oceânia – é um sinal de diversificação saudável?

Mimi

Parcialmente. A diversificação é boa porque reduz risco. Mas a Oceânia ainda representa uma fatia muito pequena. A realidade é que Portugal continua dependente da Europa. O que mudou é que dentro da Europa há redistribuição – a Polónia está a ganhar peso, a Alemanha está a perder.

Mark

A Mitsubishi Fuso parece ser a mais otimista. Porquê?

Mimi

Porque tem um produto novo – o eCanter elétrico – que responde a uma tendência clara do mercado. E porque já recuperou os níveis de produção pré-pandemia. Tem momentum. As outras fábricas estão mais à espera para ver como o ano se desenrola.

Mark

Se 2023 for difícil, qual é o plano B?

Mimi

Não há plano B explícito. A indústria está a apostar em que a situação se estabilize. Se não se estabilizar, haverá pressão sobre volumes, margens, talvez emprego. Por isso o otimismo é cauteloso – é esperança, mas com os olhos bem abertos.

  • 322.404 veículos produzidos em 2022, segundo melhor ano de sempre
  • 1,5 milhões de veículos nos últimos cinco anos
  • Autoeuropa representa 71,7% da produção nacional
  • 90% das exportações destinam-se à Europa
  • Crescimento de 11,2% face a 2021

A indústria automóvel portuguesa alcançou 322.404 unidades em 2022, apenas superada pelo recorde de 2019, apesar de desafios globais como guerra na Ucrânia e problemas nas cadeias de fornecimento. Autoeuropa lidera com 71,7% da produção nacional, enquanto Stellantis Mangualde e Mitsubishi Fuso também registaram crescimentos significativos, consolidando Portugal como país produtor automóvel.

Portugal produziu 322.404 veículos em 2022, o segundo melhor resultado de sempre, consolidando o país como produtor automóvel mundial com 1,5 milhões de unidades nos últimos cinco anos.

As cinco fábricas de automóveis espalhadas por Portugal terminaram 2022 com um feito notável: produziram 322.404 veículos. É o segundo melhor resultado na história da indústria automóvel portuguesa, superado apenas pelos 345.688 carros fabricados em 2019. O que torna este número ainda mais impressionante é o contexto em que foi alcançado. Enquanto a guerra na Ucrânia desestabilizava mercados, os preços da energia disparavam e as cadeias de fornecimento de componentes enfrentavam perturbações globais, as fábricas portuguesas conseguiram crescer 11,2% face ao ano anterior.

Helder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal, não esconde a satisfação com o desempenho. "A indústria automóvel nacional – incluindo a fileira dos componentes – demonstrou uma grande resiliência durante os últimos anos, apesar da pandemia e dos problemas entretanto surgidos", afirma. O que os números revelam é ainda mais significativo quando olhados numa perspectiva de cinco anos: desde 2018, saíram das fábricas portuguesas mais de 1,5 milhões de veículos, uma média anual superior às 300 mil unidades – o patamar que define internacionalmente um país como produtor automóvel de peso. Portugal consolidou-se nesta categoria, reconhecimento que Pedro sublinha ser validado em todos os fóruns internacionais.

A Autoeuropa, a fábrica do grupo Volkswagen em Palmela, é o motor desta produção. Representa 71,7% de toda a produção automóvel nacional e fechou 2022 com 231.100 unidades, o segundo maior volume de sua história. O ano em que a fábrica passou a produzir exclusivamente o T-Roc – um modelo que revolucionou a produção portuguesa quando começou em julho de 2017 – consolidou-se como decisivo para o crescimento do setor. A Stellantis de Mangualde, do grupo liderado por Carlos Tavares, produziu 77.422 veículos, crescimento de 14,1%, e quase igualou o recorde histórico de 2019, ficando a menos de 200 unidades. A fábrica, que celebrou 60 anos de operação, começou a produzir um novo modelo no ano passado: o Fiat Doblò. A Mitsubishi Fuso Truck Europe, no Tramagal, aumentou a produção em 15,9%, para 10.890 unidades, registando o seu terceiro melhor ano. Já a Toyota Caetano apresentou o maior salto percentual: 2.969 veículos produzidos, um crescimento de 52,5%.

Mas o otimismo para 2023 é cauteloso. Pedro espera um desempenho pelo menos em linha com 2022, mas adverte sobre várias incertezas. A primeira diz respeito ao desconfinamento na China: se a economia chinesa acelerar, as fábricas de componentes no país asiático podem aumentar a produção, o que poderia aliviar as perturbações nas cadeias de fornecimento globais. Mas também existe o risco oposto – e talvez mais provável – de que as economias europeias enfrentem abrandamento ou recessão. Isto ganha particular importância porque 90% das exportações da indústria automóvel portuguesa têm como destino países europeus. Alemanha, França, Itália e Espanha, em conjunto, absorvem 57% das exportações de veículos portugueses.

Os padrões de exportação têm-se alterado significativamente. Em 2019, último ano antes da pandemia, a Europa representava 97,5% das vendas ao exterior. Hoje, existe maior diversificação. A Oceânia, que comprou apenas nove veículos em 2019, importou quase oito mil unidades em 2022. Dentro da Europa, a Alemanha mantém-se como principal destino, mas o seu peso recuou de 23,3% para 21,2%. França perdeu importância (de 15,5% para 13,8%), tal como Itália e Espanha, com o país vizinho a cair abaixo dos 10%. Em contrapartida, a Polónia viu a sua importância aumentar de 2,2% para 3,1%, tornando-se já o sexto principal mercado europeu para os veículos portugueses.

As próprias fábricas alinham-se com este otimismo moderado. A Mitsubishi Fuso é a mais confiante, antecipando continuidade na recuperação dos volumes de produção, impulsionada pela nova geração do eCanter, um camião ligeiro totalmente elétrico. No ano passado, a Fuso produziu apenas 171 veículos elétricos, mas a aposta na eletrificação promete crescimento. A fábrica do Tramagal emprega atualmente 550 trabalhadores, mais 150 do que no início de 2020, antes da pandemia. Fuso, Salvador Caetano e CaetanoBus já recuperaram os volumes de produção para os níveis anteriores à covid-19. O que vem a seguir dependerá de fatores fora do controlo das fábricas portuguesas: a estabilidade das economias europeias, o comportamento das cadeias de fornecimento asiáticas e a capacidade de Portugal manter a sua posição consolidada como produtor automóvel de relevância internacional.

A indústria automóvel nacional demonstrou uma grande resiliência durante os últimos anos, apesar da pandemia e dos problemas entretanto surgidos
— Helder Pedro, secretário-geral da Associação Automóvel de Portugal
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