Portugal enfrenta um diagnóstico incómodo: apesar de avanços pontuais em energias renováveis, o país permanece estruturalmente distante de uma economia centrada no bem-estar humano. O relatório inaugural da ZERO expõe fraturas profundas em equidade social, eficiência de recursos e coesão territorial — desafios que não são apenas técnicos, mas refletem escolhas sobre que tipo de sociedade Portugal quer ser. Num momento em que países como a Finlândia e a Nova Zelândia reorientam as suas economias para as necessidades reais das pessoas, Portugal ainda procura o caminho de entrada para essa transf
Portugal ainda longe de ser uma Economia do Bem-Estar, revela relatório da ZERO
Os 40% mais pobres vivem com apenas 21% do rendimento
O que significa exatamente uma Economia do Bem-Estar? Parece um conceito vago.
Não é. É o oposto de vago. Significa desenhar políticas públicas começando pelas necessidades reais das pessoas — saúde, educação, segurança — em vez de apostar tudo no crescimento económico e depois tentar reparar os danos. É uma mudança de prioridades.
E Portugal está longe disso?
Muito longe. O relatório mostra que em praticamente todas as áreas — desigualdade, eficiência de recursos, equidade regional — Portugal fica abaixo da média europeia. Não é uma questão de estar um pouco atrasado. É estrutural.
O que mais preocupa?
As desigualdades. Quarenta por cento da população mais pobre tem acesso a apenas um quinto do rendimento total. E nas zonas rurais, o risco de pobreza é muito mais alto do que nas cidades. Isto significa que o país está a deixar regiões inteiras para trás.
Mas Portugal tem feito bem em energias renováveis, certo?
Sim, 34% é um bom resultado. Mas continua a depender do exterior para 65% da energia. É como ter um carro com motor eficiente mas sem combustível próprio. A resiliência não é só sobre tecnologia, é sobre independência.
Então qual é o próximo passo?
Portugal quer aderir a uma parceria internacional de governos que já inclui países como a Finlândia e a Islândia. Mas o relatório é apenas o diagnóstico. O verdadeiro trabalho — mudar políticas, redistribuir recursos, repensar a economia — ainda está por fazer.
Il Polso
- Os 40% mais pobres dos portugueses partilham apenas 21% do rendimento nacional — uma concentração de privação que o relatório torna impossível de ignorar.
- O fosso entre campo e cidade amplifica as desigualdades: o risco de pobreza nas zonas rurais supera o das cidades em 8,6 pontos percentuais, muito acima da média europeia de 0,9 pontos.
- Portugal produz energia renovável, mas continua a depender do exterior em 65,2% das suas necessidades energéticas — uma vulnerabilidade que as crises recentes tornaram ainda mais visível.
- A ZERO propõe uma inversão de lógica económica: desenhar políticas a partir das necessidades das pessoas, e não reparar danos depois de um modelo de crescimento tradicional os ter causado.
- O país está a ser convidado a juntar-se a uma parceria internacional de governos comprometidos com a economia do bem-estar — um movimento que Escócia, Irlanda, Finlândia, Islândia e Nova Zelândia já integram.
Portugal enfrenta um diagnóstico incómodo: apesar de avanços pontuais em energias renováveis, o país permanece estruturalmente distante de uma economia centrada no bem-estar humano. O relatório inaugural da ZERO expõe fraturas profundas em equidade social, eficiência de recursos e coesão territorial — desafios que não são apenas técnicos, mas refletem escolhas sobre que tipo de sociedade Portugal quer ser. Num momento em que países como a Finlândia e a Nova Zelândia reorientam as suas economias para as necessidades reais das pessoas, Portugal ainda procura o caminho de entrada para essa transformação.
A organização ambiental ZERO apresentou esta semana o primeiro diagnóstico português sobre economia do bem-estar — e o retrato é de um país com muito trabalho por fazer. Medindo o desempenho nacional em oito áreas estratégicas, do sistema de saúde à gestão de recursos naturais, o relatório conclui que Portugal ainda está longe de funcionar com base nas necessidades reais das pessoas.
As desigualdades são das feridas mais visíveis. Os 40% mais pobres da população vivem com apenas 21% do rendimento total, e nas zonas rurais o risco de pobreza supera o das cidades em 8,6 pontos percentuais — uma diferença que Portugal carrega muito acima da média europeia, onde esse valor é de apenas 0,9 pontos. A geografia do país amplifica, assim, as assimetrias sociais.
Na energia, o quadro é paradoxal: as renováveis já representam 34% do consumo final, mas a dependência energética do exterior mantém-se em 65,2%, uma vulnerabilidade que as crises recentes tornaram ainda mais evidente. A ZERO defende que a resposta passa por combinar mais renováveis com eficiência e economia circular.
O relatório não é um exercício isolado. A organização quer que Portugal adira a uma parceria internacional de governos comprometidos com este modelo — do qual já fazem parte Escócia, Irlanda, Finlândia, Islândia e Nova Zelândia. A visão para 2040 é clara: um país onde todas as pessoas vivam vidas saudáveis e realizadas, independentemente de quem são ou onde vivem. O relatório é o espelho. O que Portugal faz com ele agora é outra história.
Uma organização ambiental portuguesa apresentou esta semana um diagnóstico incómodo: o país ainda está muito longe de funcionar como uma economia orientada para o bem-estar das pessoas. O relatório da ZERO, lançado segunda-feira, é o primeiro exercício deste tipo em Portugal e mede o desempenho nacional em oito áreas estratégicas — desde a saúde e educação até à energia e gestão de recursos naturais.
O quadro que emerge é de um país com muito trabalho por fazer. A organização explica que Portugal precisa de repensar fundamentalmente como funciona economicamente. Em vez de investir recursos para tentar reparar os danos causados por um modelo de crescimento tradicional, seria necessário desenhar políticas que respondessem primeiro às necessidades reais das pessoas — saúde, educação, qualidade de vida, segurança. É uma inversão de lógica: começar pelo fim desejado, não pelo crescimento pelo crescimento.
Os números revelam fraturas profundas. Na questão das desigualdades, o retrato é particularmente duro: os 40% mais pobres da população portuguesa vivem com apenas 21% do rendimento total. Nas zonas rurais, o risco de pobreza e exclusão social é 8,6 pontos percentuais mais elevado do que nas cidades — uma diferença que Portugal carrega muito acima da média europeia, onde essa diferença é de apenas 0,9 pontos. Estes dados, retirados de 2020, mostram que a geografia do país amplifica as desigualdades.
Na energia, o quadro é paradoxal. Portugal tem feito um bom trabalho na penetração de energias renováveis, que já representam 34% do consumo final. Mas o país mantém uma dependência energética do exterior de 65,2% — uma vulnerabilidade que ficou ainda mais evidente durante as crises recentes. A ZERO sublinha que isto reforça a urgência de o país investir em resiliência, combinando mais renováveis com eficiência no uso de recursos e economia circular.
Este relatório não é um exercício académico isolado. Faz parte de um esforço mais amplo da ZERO para que Portugal aderisse a uma parceria internacional de governos comprometidos com este modelo de economia do bem-estar. Escócia, Irlanda, País de Gales, Finlândia, Islândia e Nova Zelândia já integram este movimento. A organização tem uma visão clara para 2040: um Portugal onde todas as pessoas vivam vidas saudáveis e realizadas, independentemente de quem sejam ou onde vivam, onde as decisões sejam participadas e transparentes, e onde haja harmonia com a natureza.
Mas para lá chegar, o país precisa de enfrentar o que o relatório chama de "enormes desafios". Não se trata apenas de números macroeconómicos. Trata-se de garantir que ninguém fica para trás — que uma pessoa numa aldeia do interior tem as mesmas oportunidades de viver bem do que alguém numa cidade, que a saúde não é privilégio de quem tem mais dinheiro, que os recursos naturais são usados de forma que deixem margem para as gerações futuras. O relatório é um ponto de partida, um espelho. O que Portugal faz com ele agora é outra história.
Citazioni salienti
O desempenho de Portugal deixa muito a desejar em todos os eixos estratégicos, onde há ainda muito a fazer, seja na componente do combate às múltiplas desigualdades, seja no estímulo a um modelo económico diferente— Associação Sistema Terrestre Sustentável (ZERO)
Em 2040, queremos que Portugal seja um país no qual todos possam viver vidas saudáveis e realizadas, independentemente de quem sejam ou de onde vivam— Associação Sistema Terrestre Sustentável (ZERO)