A esquina é o ponto de maior visibilidade que se tem
Em Porto Alegre, as esquinas deixaram de ser apenas cruzamentos urbanos para se tornarem territórios disputados por grandes redes farmacêuticas que enxergam nesses pontos a convergência perfeita entre visibilidade, fluxo humano e poder de compra. Com mais de 113 farmácias instaladas em posições estratégicas da capital gaúcha, o fenômeno revela como a lógica comercial contemporânea reescreve a paisagem das cidades — e como o acesso à saúde passa, cada vez mais, pela capacidade de pagar o aluguel mais caro da quadra.
- Mais de 113 farmácias ocupam esquinas de Porto Alegre, com Droga Raia, Panvel e São João dominando esses pontos premium que pequenos concorrentes simplesmente não conseguem bancar.
- A esquina vale ouro: dupla fachada, mais estacionamento e visibilidade em múltiplas direções fazem com que farmácias nesses locais superem em desempenho as instaladas no meio de quadra.
- As farmácias deixaram de vender só remédios — vacinação, dermocosméticos, tênis e air fryer transformaram esses espaços em hubs de saúde e consumo que exigem pontos de altíssimo acesso.
- O mercado local registrou saldo negativo em 2025, com mais fechamentos do que aberturas, mas as grandes redes seguem expandindo em ritmo acelerado.
- A aprovação federal para venda de medicamentos em supermercados promete acirrar ainda mais a disputa, pressionando as redes farmacêuticas a buscar posições ainda mais estratégicas na cidade.
Nelson Dornelles, aposentado, aponta para um imóvel vazio na esquina de duas ruas do Centro Histórico de Porto Alegre e brinca que em breve ali haverá mais uma farmácia. A piada toca numa realidade concreta: um levantamento identificou pelo menos 113 farmácias instaladas em esquinas da capital gaúcha, dominadas pelas três maiores redes — Droga Raia, Panvel e São João. Só a Droga Raia tem 45 unidades nesses pontos, o equivalente a 90% de suas lojas na cidade.
A explicação é estratégica e imobiliária ao mesmo tempo. Esquinas oferecem dupla fachada, maior fluxo de pedestres e veículos, visibilidade em múltiplas direções e mais espaço para estacionamento — fator decisivo numa cidade onde o cliente sem vaga migra para o concorrente ou recorre ao delivery. O arquiteto Francisco Zancan confirma que dados de mercado mostram desempenho muito superior para farmácias em esquinas em relação às localizadas no meio de quadra.
Pequenas farmácias ficam de fora dessa disputa porque não conseguem arcar com os aluguéis cobrados nesses pontos premium. As grandes redes têm faturamento para bancar esses espaços — e razões para isso: elas deixaram de ser apenas pontos de venda de medicamentos. A Panvel oferece mais de mil variações de produtos de marca própria e serviços digitais; a Droga Raia aposta em beleza e dermocosméticos; a São João vende desde tênis até eletrodomésticos. Todas usam a vacinação como atrativo e funcionam como verdadeiros hubs de saúde e consumo.
O mercado farmacêutico de Porto Alegre soma 663 unidades, mas registrou saldo negativo no último ano — 45 fechamentos contra 32 aberturas. Ainda assim, as grandes redes seguem expandindo. O cenário deve se intensificar com a aprovação federal que autoriza supermercados a vender medicamentos, aumentando a pressão competitiva e, possivelmente, acelerando a corrida das farmácias pelos pontos mais visíveis da cidade.
Nelson Dornelles, aposentado, aponta para um imóvel vazio na esquina entre as ruas Riachuelo e Caldas Júnior, no Centro Histórico de Porto Alegre, e brinca que em pouco tempo aquele espaço abandonado se tornará mais uma farmácia. Sua observação casual toca em uma realidade cada vez mais visível na paisagem urbana da capital gaúcha: as grandes redes farmacêuticas conquistaram as esquinas da cidade como estratégia deliberada de negócio.
Um levantamento realizado pela reportagem identificou pelo menos 113 farmácias instaladas em esquinas de Porto Alegre — pontos de alto valor imobiliário que ampliam significativamente a visibilidade de qualquer estabelecimento. As três maiores redes atuando na cidade — Droga Raia, Panvel e São João — dominam essa ocupação. A Droga Raia revelou ter 45 unidades em esquinas, o que representa 90% de suas lojas na capital. A Panvel, consultando seu site, possui 53 farmácias nesses pontos estratégicos. A São João, embora não tenha divulgado números oficiais, tem pelo menos 15 unidades mapeadas em esquinas, com a possibilidade de esse número ser maior, já que seu portal está desatualizado.
Segundo Leomar Rehbein, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos no Rio Grande do Sul, essa concentração em esquinas é uma estratégia exclusiva das grandes redes. As pequenas farmácias simplesmente não conseguem arcar com os valores de aluguel que os proprietários de imóveis em esquinas cobram. A estratégia funciona porque garante maior fluxo de pedestres e veículos, além de oferecer visibilidade em múltiplas direções. Francisco Zancan, arquiteto e urbanista especializado em análise de mercado para expansão de negócios, explica que a esquina é o ponto de maior visibilidade disponível. Uma loja nessa posição consegue aumentar sua capacidade de captação de clientes porque está no caminho de pessoas que circulam por várias ruas simultaneamente. Dados que Zancan teve acesso mostram que farmácias em esquinas têm desempenho muito superior às localizadas no meio de quadra.
Outro fator que explica essa concentração em Porto Alegre é a dinâmica específica do mercado local. Diferentemente de outras cidades brasileiras, onde diversos tipos de comércio ocupam esquinas, em Porto Alegre são principalmente as farmácias que conseguem pagar os valores pedidos pelos proprietários. Negócios menores ficam em espaços menos valorizados porque o aluguel é mais acessível. As redes farmacêuticas, porém, têm faturamento suficiente para bancar esses pontos premium. Vilson Noer, presidente da Federação das Associações Gaúchas do Varejo, acrescenta que as esquinas atraem especialmente as farmácias pela possibilidade de oferecer mais vagas de estacionamento — um fator crítico em um contexto onde clientes que não encontram lugar para estacionar migram para concorrentes ou optam por aplicativos de entrega.
As farmácias deixaram de ser apenas pontos de venda de medicamentos. Funcionam agora como hubs de saúde, oferecendo serviços variados e um mix diversificado de produtos. A Panvel vende itens de marca própria com mais de mil variações de produtos nas prateleiras e investe em digitalização de serviços. A Droga Raia aposta no segmento de beleza, dermocosméticos e bem-estar. Ambas mesclam farmácia com clínica, usando a vacinação como atrativo. A São João vai além: vende desde tênis até air fryer. Essa transformação exige locais de fácil acesso e alta visibilidade — exatamente o que uma esquina oferece.
O mercado farmacêutico de Porto Alegre conta atualmente com 663 farmácias, representando 12,3% do total existente no estado, segundo o Conselho Regional de Farmácia. No ano passado, foram registradas 32 novas aberturas, mas 45 fechamentos, resultando em saldo negativo de 13 unidades. Desde a pandemia, 2023 foi o ano com maior número de pedidos para novas farmácias, com 65 registros. A Panvel opera 116 lojas em Porto Alegre, das 651 que tem em funcionamento. A Droga Raia tem 50 unidades na capital, tendo aberto 30 delas nos últimos cinco anos. Ambas continuam expandindo, com a Panvel ampliando recentemente sua loja na Avenida 24 de Outubro e a Droga Raia mantendo ritmo acelerado de crescimento.
Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que autoriza supermercados a vender medicamentos em suas áreas de venda — uma demanda antiga do setor que reclama de competição com as farmácias, que já comercializam produtos típicos de mercado. Essa aprovação pode intensificar ainda mais a disputa por clientes e, possivelmente, acelerar a busca das redes farmacêuticas por pontos ainda mais estratégicos. As esquinas de Porto Alegre, por enquanto, seguem sendo o território conquistado pelas grandes redes na batalha pela visibilidade e pela proximidade com o consumidor.
Notable Quotes
Em Porto Alegre, essa estratégia ocorre com as grandes redes, com grandes faturamento. As pequenas não têm condição de pegar esses pontos.— Leomar Rehbein, presidente do Sinprofar-RS
A esquina é o ponto de maior visibilidade que se tem. A chance de estar no caminho das pessoas está, no mínimo, dobrada.— Francisco Zancan, arquiteto e urbanista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente as farmácias escolhem esquinas e não outros pontos da cidade?
Porque uma esquina oferece duas fachadas, não uma. Você está visível para quem vem de duas ruas diferentes. E não é só visibilidade — é também estacionamento. Se não há lugar para estacionar, o cliente vai embora.
Mas isso não é verdade para qualquer tipo de loja?
Deveria ser, mas não é. Pequenos negócios não conseguem pagar o aluguel que um proprietário de esquina cobra. Só as grandes redes têm faturamento para isso. É uma questão de poder de compra.
Então as farmácias estão transformando a paisagem urbana de Porto Alegre?
Estão, sim. Mas não é só ocupação de espaço. Elas viraram hubs de saúde. Vendem vacinas, oferecem serviços, vendem beleza, bem-estar. A esquina maximiza tudo isso.
E as farmácias pequenas, as independentes? Elas desapareceram?
Não desapareceram, mas ficaram invisíveis. Estão em lugares menores, com aluguel mais barato, longe das rotas principais. O mercado se dividiu entre quem consegue pagar pela visibilidade e quem não consegue.
Isso é bom ou ruim para a cidade?
Depende de quem você pergunta. Para as redes, é ótimo — vendem mais. Para o consumidor que mora longe de uma esquina, talvez seja ruim. Para a diversidade comercial, é preocupante. Mas é o mercado funcionando.