Por que os romances de escritório são inevitáveis, mesmo no trabalho remoto

Quanto mais as pessoas tiverem que reavaliar o passado, mais problemático pode ser
Especialistas alertam sobre os riscos de esconder um relacionamento no trabalho por muito tempo.
Mark

Por que você acha que os romances aumentaram durante a pandemia, quando as pessoas estavam mais isoladas?

Mimi

Porque o isolamento criou uma ilusão de privacidade. Quando você está trabalhando de casa, longe do olhar atento do chefe ou dos colegas, o risco parece menor. Alguns colegas até estavam trabalhando secretamente nas casas uns dos outros. A distância física criou uma sensação de estar fora do radar.

Mark

Mas a pesquisa mostra que a proximidade física não é realmente necessária para a atração acontecer?

Mimi

Exatamente. O que importa é a exposição consistente e a interação. Um e-mail, uma chamada de Zoom, uma mensagem no Slack — tudo isso mantém você em contato com alguém. O efeito de mera exposição funciona independentemente do meio.

Mark

Então o trabalho remoto não matou o romance no escritório, apenas o transformou?

Mimi

Transformou completamente. Agora é romance no Slack, romance no Zoom. Os fatores psicológicos que criam atração — familiaridade, intimidade emocional, situações estressantes compartilhadas — continuam funcionando. O escritório físico era apenas um container.

Mark

E quanto ao risco? Não é mais arriscado agora, quando você está menos visível?

Mimi

Paradoxalmente, parece ser menos arriscado no curto prazo. Mas é mais arriscado no longo prazo, porque quando a equipe descobre — e sempre descobre — eles começam a reavaliar tudo. Cada interação passada, cada viagem de trabalho, cada compartilhamento de informação. A desconfiança cresce.

Mark

Então a melhor estratégia é ser honesto desde o início?

Mimi

Sim. Quanto mais cedo você abrir o jogo, menos dano causará. Porque quanto mais alguém espera para revelar, mais os outros sentem que estavam sendo enganados. E ninguém gosta de descobrir que foi enganado.

  • Mesmo com escritórios vazios e reuniões por vídeo, os romances entre colegas não apenas sobreviveram à pandemia — eles aumentaram, desafiando a ideia de que a proximidade física é o que os alimenta.
  • Psicólogos apontam que o simples ato de ver alguém repetidamente — por e-mail, Slack ou Zoom — já é suficiente para despertar atração, tornando o ambiente de trabalho remoto tão fértil quanto o presencial.
  • Crises compartilhadas, chefes difíceis e longas jornadas criam um senso de cumplicidade que aproxima colegas de maneiras que nenhuma política de RH consegue prever ou conter.
  • Quando um romance se torna conhecido tarde demais, a equipe começa a reavaliar o passado com desconfiança — viagens a trabalho, recursos compartilhados, decisões tomadas —, transformando o que era íntimo em fonte de tensão coletiva.
  • Especialistas defendem que empresas maduras não devem fingir que esses relacionamentos não existem, mas criar canais claros de notificação para proteger tanto os envolvidos quanto o restante da equipe.

Desde que o trabalho moderno reuniu estranhos sob o mesmo teto, o coração humano encontrou maneiras de atravessar a fronteira entre o profissional e o íntimo. Pesquisas recentes revelam que, mesmo durante a pandemia — quando escritórios fecharam e telas substituíram rostos —, um terço dos americanos manteve ou iniciou relacionamentos com colegas, um número maior do que antes do isolamento. A psicologia oferece uma explicação serena: proximidade, familiaridade, sofrimento compartilhado e semelhança de propósito são ingredientes antigos da atração humana, indiferentes ao endereço onde o trabalho acontece. O desafio, então, não é suprimir o inevitável, mas aprender a habitá-lo com consciência.

O trabalho consome a maior parte das horas que temos de vigília — e, segundo dados americanos, passamos com colegas quase quatro vezes mais tempo do que com amigos ou família. Não surpreende que o escritório seja um terreno fértil para o amor. O que surpreende é que esse terreno se manteve fértil mesmo durante a pandemia.

Uma pesquisa de 2022 da Sociedade para Gestão de Recursos Humanos dos EUA revelou que um terço dos 550 americanos entrevistados iniciou ou manteve um relacionamento com colega durante o período de isolamento — 6% a mais do que em 2019, quando todos ainda iam ao escritório presencialmente. O dado inverte a intuição: o distanciamento físico não esfriou os romances, ele os reorganizou.

A psicologia oferece uma explicação estruturada. O chamado efeito de mera exposição mostra que ver alguém repetidamente — mesmo por tela — já é suficiente para construir atração. A isso se somam a similaridade de trajetória e valores entre colegas, e o poderoso efeito de atravessar situações difíceis juntos: crises, chefes exigentes, prazos impossíveis criam um senso de 'nós' que aproxima pessoas de maneira quase involuntária. Não à toa, um em cada dez casais heterossexuais nos EUA se conheceu no trabalho — incluindo os próprios Obamas.

Mesmo amplamente aceitos — 75% dos entrevistados disseram não ter problema com namoro entre colegas —, esses relacionamentos carregam riscos reais: denúncias de assédio, conflitos de interesse e desconforto na equipe. O momento da revelação importa: quanto mais tempo um casal espera para tornar o relacionamento público, mais os colegas tendem a reavaliar interações passadas com suspeita, transformando o que era privado em fonte de ressentimento coletivo.

Especialistas recomendam que empresas inteligentes parem de fingir que romances no escritório não existem e criem protocolos claros — especialmente quando há hierarquia envolvida. Notificar o RH e pedir realocação são passos considerados essenciais. Porque o romance pode até terminar, mas o rosto do ex na chamada de Zoom da segunda-feira de manhã permanece.

O trabalho ocupa quase todo o tempo que temos. Passamos mais horas com nossos colegas do que com amigos ou família — quase quatro vezes mais, segundo dados americanos. Não é surpreendente, então, que as pessoas se apaixonem no escritório. O que é surpreendente é que continuaram fazendo isso durante a pandemia, quando as interações presenciais desapareceram quase completamente.

Uma pesquisa de fevereiro de 2022 da Sociedade para Gestão de Recursos Humanos dos EUA entrevistou 550 americanos e descobriu algo inesperado: um terço deles iniciou ou manteve um relacionamento com um colega de trabalho durante a pandemia. Isso representou um aumento de 6% em relação a 2019, quando as pessoas ainda iam ao escritório todos os dias. Mesmo durante quarentenas e lockdowns, quando o isolamento era a regra, os colegas encontraram maneiras de continuar namorando — um fato que ressalta o quanto esses romances são inevitáveis, independentemente das circunstâncias.

Essa não é uma novidade dos tempos modernos. Desde a era industrial, há registros de pessoas se sentindo atraídas umas pelas outras no local de trabalho. Nos anos 1800, nos primórdios do trabalho executivo, havia interações românticas nos escritórios que os críticos da época consideravam comportamentos indevidos. Mais recentemente, dados de 2017 mostram que um em cada dez casais heterossexuais nos EUA se conheceu no trabalho — uma proporção que inclui figuras públicas como os Obamas, que se conheceram em um escritório de advocacia de Chicago quando estavam na casa dos 20 anos. Apesar de muitas empresas desaprovarem relacionamentos entre colegas e verem isso como um pesadelo de recursos humanos, 75% dos entrevistados na pesquisa da SHRM disseram que não tinham problema com namoro entre colegas. Metade afirmou que já gostou de um colega em algum momento.

Os psicólogos têm explicações claras para por que isso acontece. O ambiente de trabalho é um lugar privilegiado para o desenvolvimento de dois fatores essenciais para a atração: intimidade e familiaridade. Simplesmente ver alguém repetidamente pode levar à atração — um fenômeno que os pesquisadores chamam de efeito de mera exposição. Quanto mais tempo você passa com alguém, quanto mais interações tem com ela, mais rápido se constrói a atração interpessoal. Mas esse viés não se limita à proximidade física. Também funciona através de e-mail, Zoom e Slack. A exposição e interação consistentes geram preferência, independentemente de onde você está fisicamente — o que explica por que o romance no escritório sobreviveu à era do trabalho remoto.

Outro fator poderoso é a similaridade. Os colegas escolheram a mesma carreira e empresa, muitas vezes têm formação parecida e pensam o mundo de maneiras semelhantes. Essa similaridade promove afeição e compreensão. A química pode ser ainda mais amplificada quando as pessoas enfrentam problemas juntas. Situações estressantes — um chefe tóxico, crises que surgem, longas jornadas, trabalho intenso — geram laços sociais. Passar por algo difícil junto com alguém cria uma sensação de "nós", um sentimento de cumplicidade que naturalmente aproxima as pessoas.

Mas apesar de serem praticamente inevitáveis e amplamente aceitos, os romances no escritório ainda são complicados. Um relacionamento entre colegas pode aumentar o risco de denúncias de assédio sexual, criar conflitos de interesse e deixar o resto da equipe desconfortável. Quando alguém da equipe tem um relacionamento que vai além do profissional, isso muda as normas de uma maneira estranha. As pessoas não sabem mais o que é apropriado.

Alguns especialistas argumentam que as empresas inteligentes devem gerenciar esses romances em vez de fingir que não existem. A notificação obrigatória — pelo menos para o departamento de recursos humanos e o supervisor direto — é considerada fundamental por muitos. Se você está envolvido com um chefe ou subordinado, os especialistas recomendam comunicar imediatamente o relacionamento ao RH e pedir uma realocação. Se está namorando um colega de nível similar, cabe a você decidir quem contar. Mas saiba que o resto da equipe vai descobrir. E quanto mais cedo você abrir o jogo, melhor — porque quanto mais alguém espera para revelar um relacionamento, mais os outros começam a sentir que estavam escondendo algo deles e reagem negativamente. Eles reavaliam interações passadas, suspeita de por que vocês dois fizeram uma viagem a trabalho, se estão compartilhando recursos que o resto não tem. Quanto mais as pessoas tiverem que reavaliar o passado, mais problemático pode ser.

Todos esses riscos existem, quer as pessoas estejam compartilhando uma mesa ou trocando mensagens no Slack de diferentes cidades. Mas apesar dessas regras e situações de vulnerabilidade, os romances de escritório ainda acontecem — e com todos os fatores psicológicos envolvidos, é difícil culpar os colegas por se apaixonarem. O importante é que os profissionais estejam cientes das implicações, não importa o quão relaxada sua equipe possa ser. Afinal, nem todo romance no escritório dura para sempre, e não é divertido ver o rosto do seu ex nas chamadas de Zoom todos os dias.

Não é de surpreender que tanta gente se interesse por pessoas no trabalho, já que o trabalho vem tomando cada vez mais nosso tempo
— Vanessa Bohns, professora associada de comportamento organizacional da Universidade Cornell
Gerenciar isso, em vez de fingir que não existe — ou não deveria existir — é a melhor abordagem
— Johnny C Taylor Jr, CEO da SHRM
Contáctanos FAQ