Poluição por ozônio afeta 40% da população mundial em 2026

A exposição simultânea a ondas de calor e poluição do ar aumenta desproporcionalmente os riscos à população, especialmente em grupos vulneráveis como pessoas com doenças respiratórias, cardiovasculares e idosos; na Europa, cerca de 180 mil mortes prematuras por ano relacionadas à poluição do ar, um terço devido ao ozônio troposférico.
A qualidade do ar não é influenciada apenas por atividades locais
Ian Marnane explica por que a poluição transfronteiriça torna o controle do ozônio um desafio global.
Mark

Por que o ozônio troposférico é tão pouco discutido se afeta quase 40% da população mundial?

Mimi

Porque fica ofuscado pelos gases de efeito estufa e pelos particulados visíveis. O ozônio é um poluente secundário — não é emitido diretamente, forma-se através de reações químicas complexas. É mais difícil de comunicar, mais difícil de ver.

Luke

Mas o relatório diz que um terço das 180 mil mortes prematuras na Europa por poluição do ar vem do ozônio. Isso é 60 mil pessoas por ano. Por que isso não é manchete?

Mimi

Porque é um número europeu. A Ásia tem 53% da população exposta a níveis críticos, mas não temos dados de mortalidade específicos para lá.

Luke

Exatamente. Sabemos que a Ásia sofre mais, mas não sabemos o custo em vidas. Isso é um buraco importante.

Mark

E quanto ao Brasil? O relatório diz que Rio de Janeiro é uma das cidades mais afetadas do planeta, mas também menciona queda nas emissões de queimadas.

Mimi

É contraditório, sim. Rio sofre com ozônio troposférico urbano — tráfego, indústria, calor. As queimadas caíram, o que é bom, mas não resolve o problema das cidades grandes.

Luke

E a questão transfronteiriça? O relatório menciona fumaça do Canadá em Nova York, poeira do Saara no Caribe. Mas como um país controla isso?

Mimi

Não controla sozinho. Precisa de acordos internacionais. É por isso que mencionam o Protocolo de Montreal como modelo.

Mark

Então a solução é política, não técnica?

Mimi

É ambas. Tecnicamente, reduzir emissões de precursores funciona. Mas politicamente, é complexo porque a poluição não respeita fronteiras e as reações químicas são não lineares.

Luke

Espera — "não linear" significa que reduzir emissões em 20% não reduz ozônio em 20%?

Mimi

Exatamente. Pode reduzir mais ou menos, dependendo de inúmeros fatores. É por isso que Rouil diz que as respostas nem sempre são proporcionais.

  • Quase 40% da população mundial exposta a ozônio troposférico crítico em 2026
  • Ásia: 53% da população em níveis críticos (acima de 110 µg/m³)
  • OMS recomenda máximo de 60 µg/m³
  • Europa: 180 mil mortes prematuras por ano por poluição do ar, um terço por ozônio troposférico
  • Copernicus realiza 800 milhões de observações diárias de 40 satélites e estações

A Ásia concentra a crise: 53% da população asiática está exposta a níveis críticos de ozônio troposférico, superior a 110 µg/m³, enquanto a OMS recomenda máximo de 60 µg/m³. O ozônio troposférico resulta de reações fotoquímicas complexas entre poluentes do tráfego, indústria e vegetação, agravadas pelo calor extremo e mudança climática causada por combustíveis fósseis.

Quase 40% da população mundial enfrenta em 2026 exposição perigosa a ozônio troposférico combinado com calor extremo, com a Ásia sendo a região mais afetada, segundo dados do Copernicus da União Europeia.

Quase dois em cada cinco habitantes do planeta estão respirando ar perigoso neste ano — uma combinação de calor extremo e poluição que gera ozônio na atmosfera baixa, onde vivemos. Não é o ozônio que protege a Terra dos raios ultravioleta lá no topo da estratosfera. É o que flutua na troposfera, aquela camada de ar que tocamos todos os dias, e que funciona como um veneno quando concentrado.

Os dados chegaram nesta quarta-feira em um relatório do Copernicus, o serviço de monitoramento climático da União Europeia. A situação é especialmente grave na Ásia, onde 53% da população enfrenta concentrações críticas de ozônio — acima de 110 microgramas por metro cúbico. A Organização Mundial de Saúde estabelece 60 como o limite tolerável. O contraste é marcante: a Oceania apresenta o melhor cenário do planeta. Rio de Janeiro, porém, figura entre as cidades mais afetadas globalmente neste ano, apesar de o Brasil registrar queda nas emissões de queimadas.

O ozônio troposférico não surge do nada. Resulta de reações fotoquímicas complexas entre poluentes — dióxido de nitrogênio do tráfego, compostos orgânicos voláteis da indústria, solventes, produtos domésticos, até compostos naturais da vegetação. A luz solar e o calor intenso disparam essas reações. Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitoramento Atmosférico do Copernicus, descreve a química como "não linear extremamente complexa". Altas concentrações aparecem em quase todos os lugares do Oriente Médio, Paquistão, Índia, Bangladesh, Sudeste Asiático e China. O planalto tibetano permanece protegido pelas montanhas que o cercam.

Na Europa, os países mediterrâneos sofrem mais com o ozônio devido à maior incidência solar e temperaturas elevadas. Mas as ondas de calor sucessivas do último verão europeu espalharam o problema de forma mais homogênea pelo continente, chegando até à Escandinávia. O fenômeno não respeita fronteiras. Em julho, a fumaça dos incêndios florestais canadenses alcançou Nova York pouco antes da final da Copa do Mundo. Em outras partes da América do Norte, partículas finas ultrapassaram centenas de microgramas por metro cúbico — a OMS recomenda máximo de 15. A poeira do deserto do Saara atravessou o Atlântico e chegou ao Caribe, como já faz frequentemente com a Europa.

Os riscos à saúde se multiplicam quando o calor extremo se combina com a poluição do ar. Ian Marnane, da Agência Ambiental Europeia, aponta que essa exposição simultânea aumenta desproporcionalmente os riscos, especialmente em grupos vulneráveis — pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares, idosos. Na Europa, cerca de 180 mil mortes prematuras por ano relacionam-se à poluição do ar. Um terço delas está ligado ao ozônio troposférico elevado.

Reduzir as emissões dos poluentes precursores é essencial, mas Rouil observa que as respostas em concentração nem sempre são proporcionais aos esforços. A gestão do ozônio permanece um dos principais desafios para os gestores de qualidade do ar. O caráter transfronteiriço da poluição complica ainda mais o controle. Marnane enfatiza que a qualidade do ar em cidades e países não é influenciada apenas por atividades locais — pode ser afetada por poluição de vizinhos ou regiões muito distantes.

O Copernicus realiza esse monitoramento global através de 800 milhões de observações diárias provenientes de 40 satélites, estações de campo, aeronaves e outros recursos. Os especialistas esperam que a divulgação desses dados contribua para a elaboração de normas transnacionais — como o Protocolo de Montreal, que regulou os CFCs que destruíam a camada de ozônio estratosférico. Marnane é direto: "Não é um problema de um país específico, não é um problema europeu. É uma questão global."

Observam-se altas concentrações de ozônio em quase todos os lugares e em áreas muito extensas de Oriente Médio, Paquistão, Índia, Bangladesh, Sudeste Asiático e China
— Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitoramento Atmosférico do Copernicus
A exposição simultânea a ondas de calor e à poluição do ar aumenta desproporcionalmente os riscos à população, especialmente em grupos vulneráveis
— Ian Marnane, Agência Ambiental Europeia
Contáctanos FAQ