Nas cidades do interior brasileiro, onde o Estado muitas vezes chega mais pela transferência de renda do que pela presença institucional, aposentadorias, Bolsa Família e BPC sustentam até 40% da renda local — o dobro do peso que têm nas capitais. Um estudo do Made/USP revela que congelar ou corroer esses benefícios pela inflação não seria apenas uma decisão fiscal: seria retirar o chão econômico de milhões de famílias e das próprias cidades que dependem de seu consumo para existir. A manutenção do poder real desses pagamentos emerge, assim, não como generosidade, mas como condição estrutural d
Planos de governo ignoram projetos estratégicos de MS, aponta análise
Sem reajustes, o interior do país sofre retração de até 18% na renda
Por que os planos de governo ignoram projetos que o próprio Estado considera estratégicos?
Porque os candidatos trabalham com propostas nacionais. A Malha Oeste, a Rota Bioceânica e a hidrovia Paraguai-Paraná são importantes para Mato Grosso do Sul, mas em um plano presidencial eles aparecem como parte de estratégias mais amplas de infraestrutura. O problema é que sem menção nominal, não há compromisso específico.
Mas espera — lideranças locais entregaram um documento a Flávio em abril com essas prioridades. Ele recebeu, considerou, e mesmo assim não colocou nos planos. Isso é uma escolha deliberada ou apenas falta de espaço?
E quanto aos benefícios sociais? O estudo da USP parece desconectado do debate sobre infraestrutura.
Não está desconectado. Se a economia do interior depende de aposentadorias e transferências de renda, e os planos de governo não garantem a valorização real desses benefícios, o interior sofre em duas frentes: faltam investimentos em projetos estratégicos e faltam recursos nas mãos de quem consome no comércio local.
Mas os dois candidatos falam em crédito rural, seguro agrícola, modernização. Isso não compensa?
Compensa para quem produz em larga escala. Para a família que vive do Bolsa Família ou de uma aposentadoria pequena, não. E são essas famílias que movem a economia de cidades pequenas.
Então o risco é real: sem reajustes, 2,7 milhões de pessoas caem na pobreza?
Segundo as simulações do estudo, sim. Mas é importante notar que isso é uma projeção baseada em cenários. O que sabemos com certeza é que entre 2022 e 2025 houve reajustes reais, e o estudo compara isso com períodos anteriores sem ganhos.
E a economista Luiza Nassif é clara: para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família para a pobreza. Não é especulação, é matemática de renda familiar.
Então os candidatos precisam ser mais específicos sobre Mato Grosso do Sul?
Precisam ser específicos sobre tudo. Projetos estratégicos, benefícios sociais, tributação. O Estado merecia mais do que propostas genéricas.
Der Puls
- Sem reajustes reais, a renda agregada do interior brasileiro encolheria entre 6,8% e 10,8%, um choque comparável a uma recessão regional severa.
- Estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí seriam os mais atingidos, com quedas de renda entre 17% e 18% — números que ameaçam desmantelar economias locais inteiras.
- Simulações indicam que a ausência de ganhos reais entre 2022 e 2025 teria empurrado 2,7 milhões de pessoas para a pobreza e 2,4 milhões para a extrema pobreza nos municípios do interior.
- Para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios representam metade do rendimento — qualquer reajuste abaixo da inflação as lança diretamente abaixo da linha de pobreza.
- A economista Luiza Nassif alerta que esses recursos circulam imediatamente no comércio local, sustentando empregos e a arrecadação municipal, o que torna o corte um efeito cascata, não um ajuste isolado.
Nas cidades do interior brasileiro, onde o Estado muitas vezes chega mais pela transferência de renda do que pela presença institucional, aposentadorias, Bolsa Família e BPC sustentam até 40% da renda local — o dobro do peso que têm nas capitais. Um estudo do Made/USP revela que congelar ou corroer esses benefícios pela inflação não seria apenas uma decisão fiscal: seria retirar o chão econômico de milhões de famílias e das próprias cidades que dependem de seu consumo para existir. A manutenção do poder real desses pagamentos emerge, assim, não como generosidade, mas como condição estrutural de sobrevivência do interior.
Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) expõe uma realidade que raramente aparece nos debates sobre política fiscal: no interior do Brasil, benefícios sociais e previdenciários não são complemento de renda — são sua espinha dorsal. Aposentadorias, Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) respondem por até 40% da renda em cidades do interior, contra 22% nas capitais. Essa diferença não é trivial: ela revela que o Estado chega a essas regiões, antes de qualquer outra forma, pelo pagamento mensal que entra na conta de seus moradores mais vulneráveis.
A pesquisa simula o que aconteceria se esses benefícios fossem congelados ou reajustados abaixo da inflação. O resultado é uma retração da renda agregada do interior entre 6,8% e 10,8% — um impacto da magnitude de uma recessão regional. Em Mato Grosso do Sul, a perda chegaria a 6,5%. Já em estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, a queda seria ainda mais brutal: entre 17% e 18%, suficiente para desestabilizar economias locais inteiras.
As simulações para o período entre 2022 e 2025 são ainda mais alarmantes: a ausência de ganhos reais nos benefícios teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza e 2,4 milhões para a extrema pobreza nos municípios do interior. Para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios chegam a representar metade da renda — e qualquer reajuste que não acompanhe a inflação funciona como um corte direto no orçamento de quem já vive no limite.
A economista Luiza Nassif, pesquisadora do Made, sublinha que o dinheiro desses benefícios não fica parado: ele circula imediatamente no comércio local, garante postos de trabalho e mantém a arrecadação municipal ativa. Cortar ou congelar esses pagamentos, portanto, não afeta apenas as famílias beneficiárias — afeta o tecido econômico inteiro das cidades que dependem desse fluxo para funcionar. A manutenção da valorização real dos benefícios deixa de ser uma questão de política social e passa a ser uma condição estrutural para que o interior do país não entre em colapso silencioso.
Os planos de governo dos dois principais candidatos à presidência deixam de lado projetos estratégicos que poderiam transformar a economia de Mato Grosso do Sul. Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro apresentam propostas nacionais para infraestrutura, energia e agronegócio, mas nenhum dos dois documentos menciona nominalmente empreendimentos como a Malha Oeste, a Rota Bioceânica ou a hidrovia Paraguai-Paraná — investimentos que o Estado considera fundamentais para sua inserção nos corredores de exportação.
A ausência chama atenção porque lideranças locais tentaram influenciar a formulação dessas propostas. Em abril, o governador Eduardo Riedel e o senador eleito Reinaldo Azambuja entregaram a Flávio Bolsonaro um documento chamado Pacto pelo Desenvolvimento: a Potência do Agro, com sugestões do setor produtivo para subsidiar o plano de governo. Apesar disso, os projetos sul-mato-grossenses não ganharam destaque nos programas finais de nenhum dos candidatos.
Na questão de transportes, Flávio propõe investir R$ 900 bilhões em quatro anos em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, com ênfase em corredores logísticos e maior participação privada. Seu programa cita a Ferrogrão, que levaria a produção do Centro-Oeste aos portos do Arco Norte, mas ignora a Malha Oeste e a Rota Bioceânica. Na área de hidrovias, menciona o Tapajós, mas não a hidrovia Paraguai-Paraná, que serve a região de Corumbá. Lula, por sua vez, vincula a infraestrutura à continuidade do Programa de Aceleração do Crescimento e à ampliação de concessões ferroviárias e rodoviárias. Seu plano também não individualiza os projetos estratégicos do Estado. Ambos os documentos contemplam diferentes modalidades de transporte, mas deixam em aberto quais empreendimentos locais receberão prioridade e não apresentam cronogramas específicos.
A Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, em Três Lagoas, é mencionada de forma genérica em ambos os programas. Lula cita a fábrica ao discutir autossuficiência nacional em fertilizantes, afirmando que as obras foram reiniciadas e que seu governo as acelerará. Flávio defende o fortalecimento da produção nacional aproveitando recursos minerais como potássio e fosfato, além de estimular a fabricação a partir do gás natural. Nenhum dos dois oferece cronograma específico para conclusão da unidade. A política energética também aparece de forma genérica: Flávio propõe expandir a infraestrutura de transporte de gás e explorar fontes não convencionais, enquanto Lula enfatiza a integração energética sul-americana. Ambos ignoram o Gasoduto Bolívia-Brasil e Corumbá nominalmente.
No agronegócio, os candidatos reconhecem a importância da produção nacional, mas com instrumentos diferentes. Flávio promete ampliar o seguro rural, reorganizar dívidas do setor e aumentar a capacidade de armazenagem. Lula enfatiza a ampliação do crédito rural, o fortalecimento do seguro e a modernização da produção, além de medidas para reduzir riscos climáticos e estimular práticas sustentáveis. As duas propostas podem beneficiar produtores sul-mato-grossenses, mas não apresentam metas específicas para a realidade estadual. Lula dá maior ênfase à agricultura familiar e à transição para produção de menor impacto ambiental, enquanto Flávio destaca instrumentos de proteção financeira e regularização fundiária.
A reforma tributária é outro tema relevante para a competitividade regional. Mato Grosso do Sul atraiu investimentos industriais, especialmente na cadeia de celulose, em um ambiente marcado por incentivos fiscais. Lula defende a continuidade da reforma aprovada durante seu governo, enquanto Flávio propõe rever aspectos do sistema tributário. Os documentos não detalham, porém, os impactos específicos das propostas sobre os investimentos industriais sul-mato-grossenses durante a transição para o novo modelo.
Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo revela um risco adicional para o interior do país, incluindo Mato Grosso do Sul. A pesquisa mostra que aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada representam até 40% da renda em cidades do interior, comparado a 22% nas capitais. Sem reajustes reais nos benefícios, a renda agregada do interior sofreria retração entre 6,8% e 10,8%. Em Mato Grosso do Sul, o prejuízo chegaria a 6,5%, enquanto em estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí a queda seria entre 17% e 18%. A ausência de ganhos reais entre 2022 e 2025 teria empurrado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza nos municípios do interior, sendo 2,4 milhões para extrema pobreza. A economista Luiza Nassif, pesquisadora do Made, destaca que o dinheiro desses benefícios circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa. Para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem chegar a 50% do rendimento, e qualquer reajuste abaixo da inflação as empurra diretamente para a pobreza.
Bemerkenswerte Zitate
Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa— Luiza Nassif, economista e pesquisadora do Made/USP
Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo— Luiza Nassif