Pílula anticoncepcional masculina entra em estudo e pode chegar a testes em humanos em até dois anos

Para os homens, o cardápio se resume à vasectomia e à camisinha.
A reportagem compara as opções contraceptivas de mulheres e homens, enquanto uma pílula masculina avança em testes.
Mark

Qual é a diferença central dessa pílula em relação às outras pesquisas de contracepção masculina?

Mimi

Ela não mexe na produção de espermatozoides nem bloqueia o caminho deles. Inibe a enzima sAC, que dá mobilidade às células. Sem movimento, elas não chegam ao óvulo.

Mark

E o efeito é permanente?

Mimi

Não. Dura de seis a oito horas, e a pílula seria tomada uns 30 minutos antes da relação. Depois disso, a fertilidade volta ao normal.

Luke

Vale separar o que está confirmado do que é expectativa. Tudo isso foi testado só em animais. A previsão de testes em humanos em menos de dois anos vem dos próprios pesquisadores.

Mark

E sobre segurança?

Mimi

Eles dizem não ter visto efeitos adversos em animais. Mas a sAC também existe em outros tecidos, inclusive nos olhos.

Luke

Ou seja, a ausência de efeitos em animais não responde se há risco em humanos. Isso segue em aberto, e a reportagem não diz que haja problema nos olhos, só que é preciso avaliar.

Mark

Há outra dúvida sobre a duração do efeito?

Mimi

Sim. Os espermatozoides podem viver até cinco dias no trato feminino, e a pílula age por seis a oito horas. Falta verificar se eles continuam incapazes de fecundar pelo tempo necessário.

Luke

E não sabemos como isso será resolvido. Também não há dado de eficácia contraceptiva publicado no texto.

Mark

Por que nada parecido chegou ao mercado antes?

Mimi

Os próprios pesquisadores falam em razões históricas e culturais e em relutância da indústria. Especialistas brasileiros citam a resistência masculina e a ideia de que a contracepção é tarefa das mulheres.

Luke

Aqui são explicações de especialistas, não algo medido. Fazem sentido juntas, mas são interpretações.

  • A pílula, tomada cerca de 30 minutos antes do sexo, promete agir por seis a oito horas e travar o movimento dos espermatozoides.
  • Hoje, para homens, as opções se resumem à vasectomia e à camisinha, o que deixa a responsabilidade quase toda com as mulheres.
  • Pesquisadores financiados pelo NICHD têm quatro anos para aprofundar a segurança antes de qualquer teste em humanos.
  • A enzima sAC também existe nos olhos, e os espermatozoides podem sobreviver até cinco dias, enquanto o efeito previsto dura horas.
  • O caminho segue incerto: os testes em humanos, previstos para menos de dois anos, dirão se o bloqueio curto basta.

Num laboratório da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, uma equipe busca algo que a medicina ainda não conseguiu oferecer aos homens: uma pílula que suspenda por algumas horas a mobilidade dos espermatozoides, deixando a fertilidade retornar depois. A promessa, ainda restrita a testes em animais, reabre uma conversa antiga sobre quem carrega o peso da contracepção. Entre a esperança de ampliar as escolhas e as dúvidas que a ciência ainda precisa responder, o caminho até as pessoas segue em aberto.

Em um laboratório da Weill Cornell Medicine, dois farmacologistas trabalham numa pílula que busca algo inédito entre os contraceptivos masculinos orais: interromper os espermatozoides por algumas horas e permitir que a fertilidade volte ao normal. O projeto, liderado por Jochen Buck e Lonny Levin, recebeu uma bolsa milionária do NICHD, dos EUA, por quatro anos, destinada a aprofundar as avaliações de segurança antes dos testes clínicos.

A ideia é simples de descrever: tomar o comprimido cerca de meia hora antes da relação e contar com seis a oito horas de efeito. A pílula atua sobre a enzima sAC, essencial para que os espermatozoides nadem pelo trato feminino até o óvulo. Inibida temporariamente, ela impede a fecundação sem alterar a produção de células.

Outras alternativas em estudo seguem caminhos diferentes, como o gel NES/T, que busca suprimir a produção de espermatozoides, mas nenhuma está aprovada. Enquanto isso, especialistas lembram que a vasectomia, cirurgia tratada como irreversível, é quase o único método masculino eficaz hoje.

Ainda há questões abertas: a enzima existe em outros tecidos, inclusive nos olhos, e a duração do efeito precisa ser comparada à sobrevivência dos espermatozoides, de até cinco dias. Para especialistas ouvidos pela Folha, a demora tem raízes culturais, já que a responsabilidade contraceptiva recai sobre as mulheres e a indústria teme um mercado pequeno. Os próximos anos dirão se a pílula cumpre o que promete.

Em um laboratório da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, dois farmacologistas trabalham numa pílula que pretende fazer algo que nenhum anticoncepcional masculino oral conseguiu até hoje: parar os espermatozoides por algumas horas e deixá-los voltar ao normal depois. O medicamento ainda está em fase de testes em animais, mas, segundo os envolvidos, deve ser avaliado em humanos em menos de dois anos.

O estudo é liderado por Jochen Buck e Lonny Levin. Eles receberam uma bolsa na casa dos milhões de dólares do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos EUA, o NICHD. O financiamento dura quatro anos e servirá para aprofundar as avaliações de segurança exigidas antes dos testes clínicos. É a terceira bolsa que a dupla recebe para o projeto desde 2020.

A ideia é que o homem tome a pílula cerca de 30 minutos antes da relação sexual e que o efeito dure de seis a oito horas. O comprimido age sobre a adenilil ciclase solúvel, a sAC, enzima essencial para a locomoção dos espermatozoides. Depois da ejaculação, essas células precisam percorrer o trato reprodutivo feminino até encontrar o óvulo. Ao inibir a enzima temporariamente, a pílula impede que mantenham o movimento necessário, e a fecundação não ocorre. Passado o efeito, a fertilidade deve voltar ao normal.

A estratégia difere de outros contraceptivos masculinos em desenvolvimento, que tentam reduzir a produção de espermatozoides ou bloquear sua passagem. Um exemplo é o gel experimental NES/T, que combina segesterona, um progestagênio, e testosterona. Aplicado diariamente na pele, busca suprimir os hormônios que estimulam a produção de espermatozoides, preservando a testosterona necessária ao organismo. O urologista Irineu Neto, especialista em reprodução humana, ressalta que o gel não é aprovado para uso e ainda não tem segurança consolidada como método contraceptivo.

Hoje, segundo Neto, a vasectomia é um dos poucos métodos masculinos eficazes. É uma cirurgia que deve ser tratada como irreversível e interrompe a passagem dos espermatozoides dos testículos em direção à uretra, sem alterar ereção, libido ou ejaculação. Para as mulheres há pílula, DIU, diafragma, adesivo hormonal, camisinha feminina e laqueadura. Para os homens, o cardápio se resume à vasectomia e à camisinha.

Os pesquisadores dizem não ter observado efeitos adversos nos estudos com animais feitos até agora, mas há questões em aberto. A sAC existe também em outros tecidos além dos testículos, inclusive nos olhos, e será preciso avaliar se bloquear a enzima pode causar efeitos indesejados em outras partes do corpo. Outra dúvida é a duração: os espermatozoides podem sobreviver até cinco dias no trato reprodutivo feminino, enquanto o efeito previsto da pílula é de seis a oito horas. É preciso verificar se eles permanecem incapazes de fecundar durante todo o tempo necessário.

O interesse por um equivalente masculino da pílula feminina, aprovada na década de 1960, existe há décadas. Em 2024, Buck e Levin atribuíram a demora em parte a razões históricas e em parte culturais, citando a relutância da indústria farmacêutica em abordar a contracepção masculina. Especialistas ouvidos pela Folha em reportagem anterior apontam na mesma direção. A ginecologista Elis Nogueira afirma que, numa sociedade machista, cai sobre as mulheres um peso desigual: a responsabilidade de prevenir a gravidez e os desconfortos dos contraceptivos disponíveis. Marcelo Horta Furtado, da Sociedade Brasileira de Urologia, diz que a indústria teme um mercado pequeno pela resistência masculina, já que o homem não vê a contracepção como responsabilidade sua.

O próximo passo é concluir as avaliações de segurança nos quatro anos de financiamento e, então, chegar aos testes em humanos. Será neles que se saberá se o efeito de poucas horas basta e se a enzima, presente também nos olhos, pode ser bloqueada sem custo para o organismo.

A indústria acha que não vai ter um mercado grande devido à resistência masculina de usar a medicação, uma vez que o homem não acha que é a responsabilidade dele.
— Marcelo Horta Furtado, Sociedade Brasileira de Urologia
O gel NES/T não é aprovado para uso e ainda não tem segurança consolidada como método contraceptivo.
— Irineu Neto, urologista (paráfrase)
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