Petróleo recua ao pré-guerra e alivia pressão nos juros globais

Se a gente dobrasse a Selic, não ia abrir o Estreito de Ormuz
O diretor de Política Econômica do BC explica por que aumentar juros não resolve crises geopolíticas.

Brent caiu de US$ 118 para US$ 73; exportações do Golfo Pérsico retomaram 75% do nível pré-guerra após memorando EUA-Irã. Yield dos Treasuries de 10 anos recuou para 4,38%; probabilidade de alta do Fed em setembro diminuiu significativamente.

  • Brent caiu de US$ 118 para US$ 73 após memorando EUA-Irã
  • Exportações do Golfo Pérsico retomaram 75% do nível pré-guerra
  • Yield dos Treasuries de 10 anos recuou de 4,66% para 4,38%
  • DI para janeiro de 2029 caiu de 15% para 14,30%
  • Dólar subiu 4% em um mês, de R$ 5 para R$ 5,20

Petróleo retorna aos níveis pré-guerra após trégua entre EUA e Irã, reduzindo pressões inflacionárias globais e levando bancos centrais a reconsiderar aumentos de juros.

O petróleo desistiu de sua corrida. Depois de disparar para US$ 118 no final de abril — impulsionado pelos ataques americanos e israelenses ao Irã — o barril Brent recuou para cerca de US$ 73, devolvendo todos os ganhos que a crise havia gerado. A queda começou uma semana após a assinatura de um memorando entre Washington e Teerã, e os números do comércio marítimo confirmam o alívio: mais de vinte navios-tanque já transportaram aproximadamente 35 milhões de barris de petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz desde a trégua, trazendo as exportações do Golfo Pérsico de volta a pelo menos 75% dos níveis anteriores ao conflito.

Esse recuo no preço do barril abriu espaço para que os bancos centrais respirassem. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos caiu de 4,66% para 4,38%, e a probabilidade de o Federal Reserve aumentar a taxa básica em setembro diminuiu. Nos dados divulgados nesta semana, o núcleo do índice de preços Personal Consumption Expenditures registrou uma alta anual de 3,4% — a maior desde outubro de 2023 — mas analistas veem nesse número o pico do ciclo inflacionário, não o começo de uma nova escalada.

No Brasil, o cenário também melhorou. O IPCA-15 saiu abaixo do que o mercado esperava, com uma composição mais favorável. A perspectiva de juros americanos mais baixos e a inflação menos pressionada ajudaram a derrubar os juros futuros brasileiros. O contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2029, que havia saltado para 15% na semana anterior após sinais confusos do Banco Central, fechou em 14,30% — ainda acima dos 12,5% registrados antes da guerra, mas em trajetória descendente.

O Banco Central, porém, mantém cautela. Paulo Picchetti, diretor de Política Econômica da instituição, explicou que o Copom optou por não sinalizar os próximos passos diante das incertezas geradas pela crise no Oriente Médio e pelos efeitos do El Niño. "Se a gente dobrasse ou triplicasse a Selic, não ia abrir o Estreito de Ormuz, não ia fazer o El Niño deixar de nos visitar, mas causaria volatilidade," afirmou. Gabriel Galípolo, presidente do BC, defendeu a decisão de não oferecer guidance, argumentando que nenhum outro banco central está fazendo isso neste momento e que a literatura econômica desaconselha essa prática em períodos de incerteza. Galípolo também refutou sugestões de que houve influência política na decisão de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual na semana anterior, apesar das projeções de inflação mais altas do próprio banco.

O mercado internacional também está reavaliando suas apostas. Kevin Warsh, o novo presidente do Federal Reserve, não endossou os aumentos de juros que a curva americana estava precificando. Mohamed El-Erian, ex-chefe do PIMCO, argumentou que o cenário mais provável é que o Fed não aumente juros este ano, considerando tanto as perspectivas de inflação quanto a evolução do lado da oferta. El-Erian observou ainda que o Fed está em transição — saindo de uma dependência excessiva de dados para uma abordagem mais orientada para o futuro.

Mas a queda do petróleo traz uma contradição para o Brasil. Se por um lado alivia a pressão nos preços, por outro enfraquece o real ao reduzir as receitas de exportação. No último mês, o dólar subiu 4%, passando de R$ 5 para R$ 5,20. "O real é uma commodity currency," observou Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital. Essa dinâmica complica o cenário para o Copom, que precisa equilibrar a inflação importada com as pressões domésticas.

Os analistas divergem sobre o próximo passo. A curva de juros voltou a precificar a possibilidade de um novo corte da Selic, mas muitos veem pouco espaço para isso. Tiago Berriel, estrategista-chefe da asset do BTG, mantém a Selic estável em 14,25% até o fim do ano, argumentando que as condições macroeconômicas não devem permitir a retomada do ciclo de cortes em 2026. O Bradesco, por sua vez, vê espaço para quedas da Selic neste ano e em 2027, desde que a trajetória siga o que foi projetado no Focus — cenário que levaria a inflação para 3,2% no primeiro trimestre de 2028.

A próxima decisão do Copom está marcada para 4 de agosto. Uma semana antes, em 29 de julho, o Federal Reserve se reúne. Os números do mercado de trabalho americano, que saem na próxima semana, serão observados com atenção. O que acontecer nesses dias pode determinar se o alívio que o petróleo trouxe aos juros globais se consolida ou se evapora.

Com a defasagem de política monetária, não tem cabimento falar que qualquer decisão de hoje terá efeitos na economia com impacto na eleição
— Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central
O real é uma commodity currency
— Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a queda do petróleo importa tanto para os juros? Não são mercados completamente separados?

Model

Não são. O petróleo afeta a inflação global. Quando sobe, pressiona os preços em toda a economia — combustível, transporte, plásticos, tudo. Os bancos centrais veem isso e ficam mais agressivos com os juros. Quando cai, a pressão diminui e eles podem respirar.

Inventor

Mas o Brasil não é produtor de petróleo? Por que a queda prejudica o real?

Model

É produtor, sim. Mas exportador de petróleo. Quando o preço cai, as receitas em dólar caem também. Menos dólar entrando no país significa o real fica mais fraco. E um real fraco importa inflação — tudo que vem de fora fica mais caro.

Inventor

Então o Brasil está preso entre dois problemas?

Model

Exatamente. A queda do petróleo é boa para a inflação de um lado — menos pressão nos preços globais. Mas é ruim do outro — o câmbio sobe, e isso traz inflação importada. O Banco Central está tentando navegar isso sem apertar demais os juros.

Inventor

Por que o Galípolo insistiu tanto em dizer que não houve influência política?

Model

Porque a semana anterior foi caótica. O Copom cortou juros enquanto suas próprias projeções de inflação pioravam. Parecia contraditório. As pessoas perguntaram se havia pressão do governo. Galípolo estava se defendendo — dizendo que a decisão foi técnica, não política.

Inventor

E o Fed? Está realmente parando de aumentar juros?

Model

Parece que sim. O novo presidente, Kevin Warsh, não está endossando os aumentos que o mercado esperava. E Mohamed El-Erian, que é muito respeitado, disse que o Fed provavelmente não vai aumentar neste ano. Isso é uma mudança grande.

Inventor

O que muda para o Brasil se o Fed não aumenta?

Model

Tudo fica menos pressionado. Se os juros americanos não sobem, o Brasil não precisa subir tanto para competir. A moeda fica menos pressionada. Os juros futuros brasileiros caem. É um alívio, mas temporário — depende do que acontecer com o trabalho nos EUA e com a inflação daqui para frente.

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