É como se a vida tivesse parado e houvesse basijis por toda parte
Khamenei morreu no primeiro dia da guerra em 28 de fevereiro; seu filho Mojtaba assume como sucessor, marcando momento histórico na República Islâmica. O governo mobiliza milhões em procissões em Teerã, Qom e Mashhad, fornecendo transporte e hospedagem para exibir unidade do regime teocrático.
- Ali Khamenei morreu em 28 de fevereiro em ataque dos EUA e Israel
- Seu filho Mojtaba assume como terceiro líder supremo, mas permanece ferido e invisível publicamente
- Governo mobiliza milhões em procissões em Teerã, Qom e Mashhad com transporte e hospedagem fornecidos
- Protestos contra inflação em dezembro e janeiro foram reprimidos com tiros, deixando milhares de feridos
O Irã inicia cerimônias fúnebres para o líder supremo Ali Khamenei, morto em fevereiro em ataque dos EUA e Israel. O regime organiza mobilização em massa para demonstrar força, enquanto enfrenta enfraquecimento do apoio popular.
O Irã iniciou neste fim de semana as cerimônias fúnebres de Ali Khamenei, seu líder supremo, quatro meses após sua morte em um ataque coordenado dos Estados Unidos e Israel no primeiro dia de uma guerra que reconfigurou o Oriente Médio. A primeira cerimônia ocorreu nas proximidades da Husseiniya do Imã Khomeini, em Teerã, após as orações do pôr do sol e da noite, reunindo familiares de mortos na Guerra Irã-Iraque, membros do gabinete do líder e integrantes da Guarda Revolucionária. O caixão de Khamenei foi apresentado diante de uma multidão cuidadosamente organizada — o primeiro passo de um ritual que o regime iraniano planejou meticulosamente para demonstrar força diante da comunidade internacional.
A morte de Khamenei em 28 de fevereiro marca um momento histórico nos 47 anos da República Islâmica. Seu filho, Mojtaba, assume agora como terceiro líder supremo do país, embora tenha sofrido ferimentos graves no mesmo ataque que matou seu pai e não tenha aparecido em público desde o início da guerra. Os clérigos que comandam o Irã organizaram dias inteiros de homenagens, com grandes procissões planejadas para as cidades de Qom e Mashhad, além de cerimônias no Iraque. O governo mobilizou recursos significativos — transporte, hospedagem e alimentação — para reunir milhões de apoiadores em todo o país. O aiatolá Mohammad Saidi, líder da oração de sexta-feira em Qom, descreveu a participação pública no funeral como um referendo prático sobre o apoio à República Islâmica, sugerindo que as autoridades veem o tamanho da multidão como medida direta da legitimidade do regime.
Mas há uma tensão profunda entre o que o governo tenta demonstrar e a realidade que muitos iranianos vivem. Analistas alertam que o apoio popular ao regime vem enfraquecendo há anos, erodido por décadas de sanções econômicas que sufocam a economia e pela repressão sistemática imposta em nome da Revolução Islâmica de 1979. A população iraniana é majoritariamente jovem — apenas os mais velhos têm memórias vivas daquele momento fundador — e muitos dos mais jovens conhecem apenas a austeridade e o controle. Durante protestos contra a inflação em dezembro e janeiro, manifestantes gritaram palavras de ordem pedindo a morte de Khamenei. As autoridades responderam com disparos, deixando milhares de feridos.
Nos primeiros dias após a morte de Khamenei, quando notícias começaram a circular em Teerã, moradores relataram sons de comemoração ecoando de casas e apartamentos em várias regiões da cidade. Agora, a capital vive sob um clima de tensão e silêncio — um contraste gritante com o funeral do aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da Revolução Islâmica, quando milhões acompanharam o cortejo em prantos, alguns subindo na ambulância que levava o corpo, em uma demonstração de fervor que se tornou lendária. Samira, uma mulher de 35 anos casada com um dono de restaurante em Teerã, disse que sua família não pretende participar das cerimônias. Ela e sua família planejam deixar a cidade por uma semana, descrevendo o clima como opressivo: "É como se a vida tivesse parado e houvesse basijis por toda parte", referindo-se à milícia voluntária afiliada à Guarda Revolucionária que patrulha as ruas.
O que o regime tenta orquestrar é, portanto, um ato de vontade política — uma tentativa de transformar um funeral em demonstração de força, de converter a morte de um líder em reafirmação da legitimidade do Estado teocrático. Mas a ausência de Mojtaba em público, seus ferimentos ainda não totalmente recuperados, e o silêncio que paira sobre Teerã sugerem que nem mesmo o próprio regime está completamente seguro do resultado. Se as autoridades realmente tratam o funeral como um referendo, como declarou o aiatolá Saidi, então elas não pretendem deixar o resultado ao acaso — daí a mobilização em massa, o transporte fornecido, a hospedagem garantida. O que permanece incerto é se as multidões que comparecerem virão por convicção, por coerção, ou simplesmente porque o Estado tornou a participação a opção mais segura.
Notable Quotes
A grande participação do público na procissão fúnebre do líder martirizado será, na prática, mais um referendo para a República Islâmica— Aiatolá Mohammad Saidi, líder da oração de sexta-feira em Qom
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Irã esperou quatro meses para realizar o funeral? Isso não é incomum?
Quatro meses é de fato um tempo longo. Parece que o regime usou esse período para planejar uma demonstração de força — organizando transporte, hospedagem, mobilizando estruturas de controle. Talvez também tenha levado tempo para que Mojtaba se recuperasse dos ferimentos e para que o regime consolidasse a sucessão.
O que significa quando o porta-voz diz que o funeral é um "referendo" para a República Islâmica?
Significa que o tamanho da multidão será interpretado como medida de apoio popular. Se poucos comparecerem, será uma derrota simbólica. Se muitos comparecerem, será uma vitória. O regime está apostando que consegue mobilizar o suficiente para parecer que o povo ainda o apoia.
Mas há sinais de que o povo realmente apoia?
Não muitos. Há relatos de pessoas comemorando a morte de Khamenei nos primeiros dias. Protestos recentes terminaram com tiros e milhares de feridos. A economia está sufocada por sanções. A população é jovem e cansada. O silêncio em Teerã agora é descrito como opressivo, não como luto genuíno.
E Mojtaba, o novo líder? Por que ele não aparece?
Ficou gravemente ferido no mesmo ataque que matou seu pai. Não aparece em público desde o início da guerra. Sua ausência é notável — em um momento em que o regime tenta demonstrar continuidade e força, o novo líder está invisível.
Como as pessoas comuns estão vivendo isso?
Com medo e cansaço. Uma mulher que entrevistaram disse que sua família vai deixar a cidade por uma semana. Ela descreveu o clima como se a vida tivesse parado, com milicianos por toda parte. Não é o luto que o regime quer exibir.