Num debate promovido pela XP, dois gestores de recursos avaliaram o momento das commodities e das duas maiores companhias da Bolsa brasileira, Petrobras e Vale. A conclusão é que os preços devem permanecer elevados por mais tempo, sem que isso signifique um novo superciclo como o de 2002 a 2008, que se apoiava em uma demanda chinesa hoje insustentável. Entre o peso das incertezas políticas e a força dos fundamentos, o mercado segue dividido sobre quanto desconto essas ações realmente merecem.
Petrobras e Vale: gestores veem commodities em alta por mais tempo, mas sem superciclo
Estar com o dedo no gatilho, pois quando o ciclo virar, ninguém quer estar posicionado
Se não é superciclo, por que os gestores ainda estão otimistas?
Porque preços altos por mais tempo não exigem um superciclo. No petróleo, Medeiros aponta oferta que não acompanha a demanda pós-pandemia e riscos geopolíticos. No minério, Souza conta com a China.
E a diferença para 2002–2008?
Naquela época havia o desenvolvimento chinês e de outras economias puxando a demanda, e poucas alternativas ao petróleo. Hoje, segundo Medeiros, isso não se sustenta.
Vale lembrar que são opiniões de gestores numa live da XP, e o mediador, André Vidal, já tem visão positiva sobre as duas empresas. Não é um dado, é uma tese.
A Petrobras ficou mais arriscada?
Medeiros admite que o risco político aumentou, com a quarta troca de comando. Mas considera a ingerência "razoavelmente limitada", e Vidal diz que a empresa está mais protegida que no passado.
Ele mesmo diz que não há agenda clara por trás das trocas. Ou seja, o risco é reconhecido, mas a dimensão dele é estimativa dele. E a comparação de duas vezes contra quatro vezes EV/Ebitda é um número citado por Vidal, sem fonte adicional no texto.
E a privatização?
Probabilidade muito baixa no curto prazo, segundo Medeiros e a maioria do mercado. Depende da eleição.
Depois da eleição, o que acontece é desconhecido. Nada está decidido.
O que pode mudar o quadro?
Uma recessão global, que Souza vê como possível, revelaria a demanda real por commodities.
Il Polso
- Os preços das commodities seguem altos, mas os gestores descartam a repetição de um superciclo como o dos anos 2000.
- A Petrobras enfrenta sua quarta troca de comando em pouco tempo, e a privatização paira como sombra sobre o próximo ciclo eleitoral.
- A Vale ainda carrega as cicatrizes de Mariana e Brumadinho, com governança a ser corrigida e o risco de novos rompimentos que não chegou a zero.
- Ambas negociam com desconto frente a pares globais, o que atrai quem aposta na recuperação, mas exige atenção ao momento em que o ciclo puder virar.
Num debate promovido pela XP, dois gestores de recursos avaliaram o momento das commodities e das duas maiores companhias da Bolsa brasileira, Petrobras e Vale. A conclusão é que os preços devem permanecer elevados por mais tempo, sem que isso signifique um novo superciclo como o de 2002 a 2008, que se apoiava em uma demanda chinesa hoje insustentável. Entre o peso das incertezas políticas e a força dos fundamentos, o mercado segue dividido sobre quanto desconto essas ações realmente merecem.
Durante uma live da XP, dois gestores foram chamados a responder a uma pergunta que ronda o mercado: o que esperar de Petrobras e Vale depois da recente valorização das commodities. A resposta foi que os preços devem seguir elevados por mais tempo, mas sem configurar um superciclo.
Pedro Medeiros, da Atalaya Capital, lembrou que o superciclo de 2002 a 2008 foi movido pela demanda do desenvolvimento chinês, algo que hoje não se sustenta. No petróleo, a oferta não acompanha a demanda pós-pandemia, e riscos geopolíticos podem manter os preços altos, mas há mais alternativas ao combustível fóssil do que havia naquela época.
Sobre a Petrobras, Medeiros reconheceu que o risco político cresceu com a quarta troca de comando, embora não veja uma agenda clara por trás disso. Thomas Souza, da Atlas One, avaliou a Vante de forma diferente: a Vale praticamente não tem risco político, e a golden share do governo não interfere no dia a dia. André Vidal, head de Óleo, Gás e Materiais Básicos da XP, destacou que a Petrobras negocia a pouco mais de duas vezes o EV/Ebitda, enquanto as majors globais ficam perto de quatro.
Sobre a privatização, a maioria do mercado vê probabilidade muito baixa no curto prazo, sobretudo em ano eleitoral. Medeiros acredita que a unificação das classes de ações seria simples, já que a companhia age como privada.
Souza espera minério mais caro por mais tempo, sustentado pela demanda chinesa que deve voltar com estímulos fiscais. Ainda assim, a Vale segue se recuperando de Mariana e Brumadinho: o risco de novos rompimentos não é zero, mas é bem menor, e as lacunas de governança já estão sendo tratadas.
O alerta final vale para o setor inteiro. Se a retirada de estímulos e a alta de juros levarem a uma recessão global, a demanda real por commodities ficará exposta. Para Souza, é preciso estar atento, porque quando o ciclo virar ninguém vai querer estar posicionado no setor.
Durante uma live promovida pela XP, dois gestores de recursos foram chamados a responder a uma pergunta que ronda o mercado brasileiro: o que esperar das duas maiores empresas da Bolsa, Petrobras (PETR3;PETR4) e Vale (VALE3), depois da recente onda de valorização das commodities e das oscilações das últimas semanas. A resposta, em linhas gerais, foi que os preços das matérias-primas devem seguir elevados por mais tempo, mas que isso não equivale a um superciclo.
O evento, chamado Super Clássicos da Bolsa, reuniu Pedro Medeiros, da Atalaya Capital, e Thomas Souza, da Atlas One, com mediação de André Vidal, head de Óleo, Gás e Materiais Básicos da XP. Vidal tem visão positiva tanto para a estatal de petróleo quanto para a mineradora. Segundo a cobertura, as duas companhias ainda negociam com desconto em relação a seus pares internacionais.
Medeiros explicou por que não vê paralelo com o período entre 2002 e 2008. Aquele superciclo, disse, tinha como motor a demanda do desenvolvimento chinês e de outras economias, o Brasil incluído, e hoje essa circunstância não existe de forma sustentável. No petróleo, afirmou, os preços são puxados por uma oferta que não acompanha a demanda pós-pandemia. Podem ficar altos por mais tempo por riscos geopolíticos, mas dificilmente configurarão um superciclo, já que, naquela época, o mundo tinha poucas alternativas ao petróleo.
Sobre a Petrobras, que atravessa sua quarta mudança de comando e está no centro do debate sobre privatização, Medeiros admitiu que o risco político aumentou. Não é comum, disse, ver trocas na frequência e na forma em que ocorrem. Ressalvou que não enxerga uma agenda clara por trás delas e considera "razoavelmente limitados" os riscos de ingerência política. Vidal acrescentou que a Petrobras de hoje está mais protegida de interferências como as do passado, é mais eficiente, tem custos de extração baixos e perspectiva de crescimento relevante. Citou o valuation: a empresa negocia a pouco mais de duas vezes o EV/Ebitda, enquanto as majors globais negociam perto de quatro vezes e pagam dividendos bem maiores.
Quanto à privatização, Medeiros, como a maioria do mercado, vê probabilidade "muito baixa" no curto prazo. O tema é sensível em ano eleitoral e, depois do pleito, tudo dependeria de quem fosse eleito. Ele considera que seria razoavelmente fácil unificar as classes de ações e transformar a Petrobras em uma corporation, pois a companhia já age como privada, tem grandes sócios e passou por oito anos de reestruturação e modernização. Como empresa privada, estaria mais bem equipada para lidar com a transição energética e com novos cenários de preço do petróleo ligados a eventos políticos.
Para Souza, a Vale praticamente não tem risco político, embora o governo detenha uma golden share. Ele afirmou que o governo não consegue interferir no dia a dia da empresa; o risco estaria em tributos e em licenças de exploração. O gestor espera minério de ferro mais caro por mais tempo, apoiado na demanda chinesa: apesar da volatilidade provocada por lockdowns na China, a reabertura virá, com estímulos fiscais. No longo prazo, a oferta chinesa não dará conta, e o país dependerá de minério australiano e brasileiro. Daí a expectativa de caixa forte e dividendos saudáveis.
A Vale, porém, segue se recuperando das tragédias de Mariana e Brumadinho. Souza disse que a empresa tomou medidas fortes contra novos rompimentos; o risco "ainda não é zero", mas é bem menor que no ano anterior. Reconheceu também lacunas de governança que precisam ser corrigidas e já estão sendo tratadas.
O alerta final de Souza vale para o setor inteiro: a retirada de estímulos e a alta de juros podem levar a uma recessão global, o que mostraria a demanda real por commodities. As empresas, disse, seguirão entregando bons resultados, mas é preciso "estar com o dedo no gatilho", porque quando o ciclo virar ninguém vai querer estar posicionado no setor.
Citazioni salienti
A gente pode ver preços altos por mais tempo, fruto de riscos geopolíticos, mas dificilmente um superciclo.— Pedro Medeiros, Atalaya Capital
O governo não consegue ter nenhuma ingerência na Vale no dia a dia.— Thomas Souza, Atlas One