Em meio às terras ferruginosas do Quadrilátero Ferrífero mineiro, duas espécies de plantas consideradas extintas há décadas ressurgiram diante dos olhos de pesquisadores que se recusaram a aceitar o silêncio dos registros científicos. A Paepalanthus magalhaesii e a Coracoralina amoena foram reencontradas em áreas protegidas mantidas pela Vale, reescrevendo capítulos da biodiversidade brasileira e lembrando que a natureza guarda segredos onde menos se espera. A redescoberta não é apenas um alívio ecológico — é um convite a repensar o quanto ainda desconhecemos do que existe sob nossos pés.
Pesquisadores redescobrem plantas extintas há 30 anos em áreas protegidas pela Vale em MG
Ainda não encontramos tudo e não vimos tudo sobre nossa biodiversidade
Por que essas plantas desapareceram da vista dos pesquisadores por tanto tempo?
Elas não desapareceram completamente — continuaram crescendo em áreas remotas e protegidas. O que aconteceu foi que ninguém as procurava sistematicamente. Quando você não sai a campo com propósito, com uma lista de espécies-alvo, é fácil perder de vista plantas que vivem em ambientes muito específicos e raros.
E por que o Quadrilátero Ferrífero é tão especial para essas plantas?
Aquele solo ferruginoso vermelho, aquelas rochas, aquele clima — é um ambiente muito particular. Essas plantas evoluíram para sobreviver exatamente ali, naquelas condições de estresse hídrico e térmico que outras plantas não aguentam. Elas são endêmicas porque o lugar é único.
Qual é o risco real se essas plantas desaparecerem de verdade?
Você perde não só a planta em si, mas toda uma parte da cadeia ecológica que depende dela. E perde também o potencial genético e farmacológico que ela carrega — informações que poderiam ser úteis em biotecnologia. Mas o risco maior é ecológico: quando você perde espécies endêmicas, está degradando a integridade de um ecossistema inteiro.
Como exatamente vão reintroduzir essas plantas?
Primeiro vão estudar como reproduzi-las em laboratório, entender sua genética, suas necessidades. Depois vão tentar recriar os ambientes onde elas vivem — isso é o desafio maior. Não é só plantar sementes; é restaurar as condições ecológicas que permitem que essas plantas floresçam.
E a Vale tem interesse real nisso, ou é só relações públicas?
A Vale mantém essas áreas protegidas e financia o projeto. Há interesse comercial potencial em biotecnologia e farmacologia, sim. Mas também há uma questão de responsabilidade ambiental — essas regiões foram impactadas pela mineração, e a conservação é uma forma de compensar isso.
O que vem a seguir?
Mais descobertas, provavelmente. Laís acredita que ainda há espécies que ninguém conhece naquela região. E enquanto isso, os pesquisadores vão trabalhar para que essas plantas que acabaram de ser redescobiertas não desapareçam de novo.
O Pulso
- Duas espécies de plantas dadas como extintas há mais de 30 anos foram encontradas vivas no Quadrilátero Ferrífero, surpreendendo a comunidade científica.
- A raridade extrema dessas plantas — algumas sem registro há mais de um século — tornava cada expedição de campo uma busca quase sem garantias.
- A descoberta revela uma lacuna preocupante: ecossistemas únicos de solo ferruginoso seguem ameaçados por pressões humanas e mudanças climáticas crescentes.
- Pesquisadores da UFMG, da Vale e da Rede Propagar uniram forças para coletar, sequenciar geneticamente e preparar a reprodução dessas espécies em laboratório.
- O próximo passo é reintroduzir as plantas na natureza, recriando os ambientes específicos que elas precisam para sobreviver e ampliar sua distribuição ecológica.
Em meio às terras ferruginosas do Quadrilátero Ferrífero mineiro, duas espécies de plantas consideradas extintas há décadas ressurgiram diante dos olhos de pesquisadores que se recusaram a aceitar o silêncio dos registros científicos. A Paepalanthus magalhaesii e a Coracoralina amoena foram reencontradas em áreas protegidas mantidas pela Vale, reescrevendo capítulos da biodiversidade brasileira e lembrando que a natureza guarda segredos onde menos se espera. A redescoberta não é apenas um alívio ecológico — é um convite a repensar o quanto ainda desconhecemos do que existe sob nossos pés.
Há mais de três décadas, a Paepalanthus magalhaesii e a Coracoralina amoena desapareceram dos registros vivos da natureza brasileira. Conhecidas como "sempre-vivas" ou "chuveirinho", essas plantas minúsculas e resistentes eram listadas como potencialmente extintas — até que pesquisadores as encontraram novamente, crescendo em áreas protegidas mantidas pela Vale nas terras vermelhas do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais.
A redescoberta é fruto do Projeto de Conservação de Espécies Raras e Endêmicas do Quadrilátero Ferrífero, que reúne universidades, institutos de pesquisa e a Vale na chamada Rede Propagar. A pesquisadora Laís Zeferino, doutora em biologia vegetal pela UFMG, descreveu o método com simplicidade: ir a campo, nos lugares onde essas plantas já ocorreram, e procurá-las com paciência. O trabalho sistemático provou que a extinção, ao menos aqui, ainda não havia se consumado.
As duas espécies são endêmicas — existem exclusivamente nessa região do Brasil — e sobrevivem em condições que poucos organismos suportariam: solo fino sobre rochas, sol intenso e longos períodos de seca. Essa resiliência as torna valiosas não apenas para a ecologia local, mas também para campos como a biotecnologia e a farmacologia, segundo a engenheira agrônoma Patrícia Favoreto Renci. O Quadrilátero Ferrífero concentra mais de 30% de espécies que só ocorrem ali, uma riqueza cuja dimensão real ainda está por ser completamente mapeada.
Todo o material coletado foi encaminhado a laboratórios da Rede Propagar para sequenciamento genético e desenvolvimento de técnicas de propagação. A engenheira ambiental Ana Cristina Amoroso, especialista em campo rupestre da Vale, explicou que o maior desafio está em recriar os ambientes específicos que essas plantas precisam para se estabelecer novamente na natureza. Laís Zeferino vê nas descobertas um sinal de que o Brasil ainda tem muito a revelar sobre sua biodiversidade — não apenas espécies perdidas de vista, mas possivelmente outras que a ciência ainda nem conhece.
Há mais de três décadas, duas espécies de plantas raras desapareceram do mapa da natureza brasileira. Agora, pesquisadores as encontraram novamente em Minas Gerais, vivas e crescendo em áreas protegidas mantidas pela Vale, numa descoberta que reescreve o que se sabia sobre a biodiversidade do país.
A Paepalanthus magalhaesii e a Coracoralina amoena — conhecidas popularmente como "sempre-vivas" ou "chuveirinho" — foram localizadas em regiões do Quadrilátero Ferrífero, aquele território de terra vermelha ferruginosa que marca a paisagem mineira. Algumas das plantas que integravam a lista de espécies-alvo dos pesquisadores não eram vistas há mais de um século e figuravam nos registros científicos como potencialmente extintas. O trabalho de campo sistemático, porém, provou o contrário. Laís Zeferino, doutora em biologia vegetal e pesquisadora associada da Universidade Federal de Minas Gerais, explicou que o projeto envolveu sair a campo nos locais onde essas plantas ocorriam e procurá-las com paciência. "Fazendo esse trabalho de ir procurar por essas plantas, a gente acabou encontrando-as na natureza e redescobrindo-as novamente", disse.
As descobertas fazem parte do Projeto de Conservação de Espécies Raras e Endêmicas do Quadrilátero Ferrífero, uma iniciativa que reúne universidades, instituições de pesquisa e a Vale dentro da Rede Propagar. A Paepalanthus magalhaesii, que parece um minúsculo pompom espalhado entre as rochas, cresce rente ao chão e foi encontrada em áreas protegidas denominadas Capanema, Capivari I, Capivari II e Cata Branca, entre as cidades de Itabirito, Rio Acima e Ouro Preto. A Coracoralina amoena, ainda mais rara, vive apenas em ambientes muito específicos — áreas de rochas onde o solo é fino, o sol é intenso e a água é escassa durante boa parte do ano. Ambas as espécies são endêmicas, ou seja, ocorrem exclusivamente nessa região do Brasil.
O que torna essas plantas especialmente valiosas é sua capacidade de sobreviver em condições extremas. Elas conseguem resistir a temperaturas altas e ao estresse hídrico que outras plantas não suportariam. Patrícia Favoreto Renci, engenheira agrônoma e gerente de propagação da Rede Propagar, destacou que essas espécies poderiam ser utilizadas em genética, biotecnologia e farmacologia, além de serem cruciais para a preservação dos ecossistemas únicos da região. O Quadrilátero Ferrífero abriga mais de 30% de espécies que só ocorrem ali — uma riqueza difícil de mensurar justamente porque são endêmicas.
Todo o material coletado pelos pesquisadores foi enviado para laboratórios que integram a Rede Propagar. Ana Cristina Amoroso, engenheira ambiental e especialista em campo rupestre da Vale, explicou que as amostras passarão por sequenciamento genético e serão trabalhadas para reprodução e reintrodução na natureza. Alguns exemplares ficarão depositados em uma coleção de referência para estudos futuros. O objetivo é desenvolver métodos de propagação dessas plantas, já que a maioria delas tem pouquíssimo conhecimento gerado e grandes lacunas de informação. A partir daí, será iniciada uma série de estudos que vão desde a análise genômica até a produção de mudas, com vistas à reintrodução no futuro.
Essa multiplicação pode ajudar significativamente na conservação do ecossistema. Ao reintroduzir uma planta que estava em um caminho de crescente ameaça e raridade, é possível ampliar sua ocorrência e distribuição, o que tem implicações para toda a cadeia ecológica. O maior desafio, segundo Ana Cristina, é fazer a recuperação dessas áreas, tentando recriar os ambientes específicos para que essas plantas se desenvolvam. Laís Zeferino vê nessas descobertas uma prova de que o Brasil ainda tem muito a conhecer sobre sua biodiversidade. "Acredito que trabalhos como esses vão trazer outros registros que a gente ainda não conhece, não só de espécies que já eram conhecidas e que estavam há muito tempo sem serem vistas, mas também de espécies que a gente ainda não tem conhecimento", disse. A preservação dessas plantas é crucial para a integridade ecológica da região, especialmente diante das pressões de atividades humanas e das mudanças climáticas cada vez mais expressivas.
Citações Notáveis
Fazendo esse trabalho de ir procurar por essas plantas, a gente acabou encontrando-as na natureza e redescobrindo-as novamente— Laís Zeferino, pesquisadora da UFMG
A preservação dessas plantas é crucial para a integridade ecológica dessa região, principalmente diante das pressões que ocorrem por atividades antropogênicas e também com relação às mudanças climáticas— Patrícia Favoreto Renci, gerente de propagação da Rede Propagar