Pesquisadora acusa influenciador digital de plágio repetido em redes sociais

Por que é tão difícil para um homem referendar o trabalho de uma mulher?
A pergunta que Valeska Zanello fez ao denunciar o plágio repetido de seu trabalho acadêmico por um influenciador digital.

Influenciador com 200 mil seguidores copiou frases e ideias da pesquisadora sem créditos, incluindo conteúdo de seu livro sobre saúde mental e gênero. Zanello relata que não é a primeira vez que sofre plágio do mesmo influenciador; em 2020, ele bloqueou seguidoras que pediram referência ao seu trabalho.

  • João Luiz Marques, com 200 mil seguidores, copiou frases e ideias de Valeska Zanello sem créditos
  • Zanello é pesquisadora há 25 anos; o plágio incluiu trechos de seu livro sobre saúde mental e gênero
  • Em 2020, Marques bloqueou seguidoras que pediram que ele creditasse o trabalho de Zanello
  • Plágio é crime no Brasil com pena de até um ano de reclusão, conforme Lei nº 9.610 de 1998

Pesquisadora Valeska Zanello acusa estudante de psicologia e influenciador João Luiz Marques de plagiar seus trabalhos acadêmicos. Marques admitiu o plágio e prometeu revisar seus conteúdos.

Valeska Zanello, pesquisadora e psicóloga com 25 anos de carreira acadêmica, publicou uma pergunta que ecoou nas redes sociais na quinta-feira, 3 de março: por que é tão difícil para um homem reconhecer o trabalho de uma mulher? A resposta que ela oferecia era pessoal e incômoda. João Luiz Marques, estudante de psicologia com mais de 200 mil seguidores, havia copiado seus trabalhos repetidamente — frases inteiras, ideias estruturantes, passagens de seu livro sobre saúde mental e gênero — e as apresentava como suas próprias descobertas.

O padrão era consistente. Marques, conhecido por publicar conteúdo sobre comportamento masculino, extraía formulações de Zanello com precisão cirúrgica. Uma frase em particular a incomodava: "homens aprendem a amar muitas coisas e mulheres aprendem a amar homens." Ela havia desenvolvido essa ideia em seu trabalho investigativo; ele a havia compartilhado sem permissão, sem atribuição, colhendo aplausos de uma audiência que não sabia da origem intelectual do que consumia. Quando seguidoras pediram que ele creditasse a pesquisadora, ele bloqueou-as. Isso aconteceu em meados de 2020. Agora, dois anos depois, o mesmo acontecia novamente.

Zanello soube do plágio mais recente através de uma captura de tela enviada por uma seguidora. A publicação tinha duas semanas. O conteúdo circulava sem qualquer menção à fonte, sem qualquer reconhecimento de que as ideias vinham de um trabalho acadêmico rigoroso — de um livro intitulado "Saúde Mental, Gênero e Dispositivos: Cultura e Processos de Subjetivação", que ela havia escrito. O que a frustrava não era apenas o roubo intelectual, mas a dinâmica que o cercava: mulheres em seu próprio público pedindo ao homem que fizesse a coisa certa, e ele recusando, bloqueando, apagando a evidência.

Na sexta-feira, 4 de março, Marques publicou um pronunciamento. Ele admitiu não ter referenciado o trabalho de Zanello. Disse que, após ser notificado por algumas mulheres, havia adicionado os créditos devidos — especificamente em uma publicação sobre grupos masculinos de WhatsApp. Ele também reconheceu ter bloqueado a pesquisadora e explicou o bloqueio como reação ao medo, à vergonha e à culpa que sentiu. Seu compromisso era revisar todos os textos publicados em sua rede e garantir que não apagaria o pensamento de nenhum intelectual, "e principalmente de pensadoras mulheres".

O desabafo de Zanello nas redes sociais acumulou mais de 160 mil curtidas. Ela havia documentado não apenas o plágio recente, mas um padrão: cópias literais, idênticas, apresentadas como autoria própria. Seu livro havia sido desmembrado e redistribuído sem créditos. A questão que ela colocava no início de seu post — por que é tão difícil para um homem referendar o trabalho de uma mulher? — não era retórica. Era um diagnóstico.

No Brasil, a Lei nº 9.610 de 1998 torna o plágio um crime. O artigo 184 do Código Penal estabelece que violar direitos autorais pode resultar em reclusão de até um ano, além de multa. Marques não enfrentou acusação formal, apenas a exposição pública e a necessidade de responder. Zanello, até o momento em que a reportagem foi publicada, não havia se manifestado sobre a retratação que ele oferecia. O espaço para uma resposta permanecia aberto.

Não vou me eximir da responsabilização
— João Luiz Marques, em pronunciamento
Mulheres foram em enxame solicitar que ele fizesse a referência a meu trabalho e me citasse
— Valeska Zanello, sobre o padrão de resposta ao plágio anterior
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que torna este caso diferente de um simples desentendimento sobre créditos?

Model

O padrão. Não é uma vez. É repetido, deliberado, e quando confrontado, ele bloqueou as pessoas que pediram o mínimo — uma citação.

Inventor

Mas ele admitiu e prometeu corrigir. Isso não resolve?

Model

Resolve o que? Ele admitiu depois de ser exposto publicamente para 200 mil pessoas. A questão que Valeska coloca é mais profunda: por que precisou de uma acusação pública para fazer o que deveria ter feito desde o início?

Inventor

Você acha que ele agiu com má intenção ou foi negligência?

Model

Ele bloqueou pessoas que o refutaram. Isso não é negligência. Negligência é esquecer uma citação. Bloquear é escolher não ouvir.

Inventor

E quanto ao público dele? Eles não têm responsabilidade em verificar as fontes?

Model

Têm. Mas quando alguém com 200 mil seguidores apresenta ideias como suas, a maioria confia. O público não tem como saber que aquela frase veio de 25 anos de pesquisa sobre saúde mental feminina.

Inventor

O que muda agora?

Model

Ele revisará os textos, adicionará créditos. Mas Valeska não respondeu à retratação. Talvez porque uma promessa de revisar não desfaz o que já foi consumido, compartilhado, internalizado como pensamento dele.

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