A proteção cai com o tempo; os reforços garantem que permaneça alta
Após uma breve interrupção, o Brasil retoma em agosto a aplicação de duas doses de reforço contra a poliomielite em crianças de 4 anos — desta vez, exclusivamente com a vacina injetável, abandonando a versão oral cujo vírus atenuado, em casos raros, pode sofrer mutações perigosas. A decisão, alinhada às recomendações da Organização Mundial de Saúde, reflete a vigilância de um país que não vê casos da doença há 37 anos, mas que reconhece, com humildade, que a memória imunológica — como a histórica — precisa ser continuamente renovada.
- Surtos localizados de poliomielite em outros países elevam o risco de reintrodução da doença no Brasil, que permanece livre do vírus desde 1989.
- A retirada da segunda dose de reforço do calendário em 2024 deixou uma janela de vulnerabilidade em crianças de 4 anos, agora reconhecida pelas autoridades sanitárias.
- O risco raro, mas documentado, de mutação do vírus atenuado da vacina oral motivou a substituição definitiva pela versão injetável em todas as etapas do esquema.
- A partir de 3 de agosto, o SUS passa a oferecer cinco doses totais — todas injetáveis — e convoca famílias de crianças menores de 5 anos a atualizar o cartão de vacinação nos postos de saúde.
A partir de agosto, o Brasil reescreve mais um capítulo de sua longa batalha contra a poliomielite. O Sistema Único de Saúde retoma o esquema de duas doses de reforço para crianças de 4 anos, mas com uma mudança decisiva: a vacina oral, conhecida como gotinha, sai de cena. Todas as cinco aplicações do novo calendário — três doses iniciais aos 2, 4 e 6 meses, reforço aos 15 meses e segundo reforço aos 4 anos — serão feitas com a vacina inativada injetável.
A trajetória recente revela uma correção de rota. Até 2024, o protocolo combinava injeções iniciais com reforços em forma de gotinha. Naquele ano, o Ministério da Saúde suprimiu a segunda dose de reforço do calendário, motivado por um risco raro, mas real: em circunstâncias específicas, o vírus atenuado da vacina oral pode sofrer mutações e provocar a própria doença que deveria prevenir. Agora, a decisão é voltar ao esquema de dois reforços — mas sem abrir mão da segurança que apenas a versão injetável oferece.
Isabela Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica que a proteção vacinal diminui com o tempo e que doses adicionais são essenciais para manter a defesa em níveis elevados. O contexto global reforça a urgência: surtos localizados de poliomielite em diferentes países aumentam o risco de reintrodução da doença no Brasil, que não registra casos há 37 anos e detém certificado de área livre do vírus desde 1994.
A vacinação é prioritária para menores de 5 anos, faixa etária mais vulnerável às formas graves da doença, que pode atingir o sistema nervoso central e causar paralisia permanente ou morte. Entre 1968 e 1989, o Brasil registrou mais de 26 mil infecções — um passado que a vacinação contínua tem mantido distante, e que as autoridades sanitárias querem garantir que permaneça assim.
A partir de agosto, o Brasil muda novamente sua estratégia contra a poliomielite. O Sistema Único de Saúde vai retomar um esquema que havia abandonado: duas doses de reforço da vacina, agora aplicadas exclusivamente com a versão injetável. A mudança marca um retorno parcial ao passado — mas com uma diferença crucial na escolha do imunizante.
Até 2024, o protocolo funcionava assim: três injeções iniciais aos 2, 4 e 6 meses de vida, seguidas por dois reforços aos 15 meses e aos 4 anos. Os primeiros eram feitos com a vacina inativada, aquela que usa o vírus morto. Os reforços vinham em forma de gotinha — a vacina oral com vírus enfraquecido. Funcionava, protegia crianças, e o país não registrava casos há décadas. Mas em 2024, o Ministério da Saúde tirou a segunda dose de reforço do calendário, mantendo apenas a injeção inicial e o primeiro reforço. A razão era rara, mas real: em situações muito específicas, o vírus atenuado da gotinha pode sofrer mutações e provocar a própria doença que deveria prevenir.
Agora, a decisão é voltar atrás — mas sem a gotinha. A partir de 3 de agosto, todas as crianças de 4 anos receberão uma segunda dose de reforço, mas será a vacina injetável, não a oral. O esquema completo fica assim: três doses aos 2, 4 e 6 meses; reforço aos 15 meses; segundo reforço aos 4 anos. Todas as cinco aplicações com a mesma vacina inativada. Crianças menores de 5 anos que não completaram esse ciclo devem ser levadas aos postos de saúde para atualização.
A mudança foi decidida pela Câmara Técnica Assessora em Imunizações e comunicada pelo Programa Nacional de Imunizações em nota técnica na semana anterior ao anúncio. Isabela Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica o raciocínio por trás da decisão. A proteção conferida pela vacina diminui com o tempo, então doses adicionais mantêm a defesa em níveis altos. Mas há mais: o mundo está vendo surtos localizados de poliomielite que preocupam. O Brasil não registra um caso há 37 anos e recebeu certificado de área livre do vírus em 1994, mas a doença ainda circula em alguns países. Manter dois reforços alinha o Brasil ao padrão recomendado pela Organização Mundial de Saúde.
A vacinação é dirigida a menores de 5 anos porque essa faixa etária corre maior risco de desenvolver formas graves após infecção. Em situações de surto, adultos também podem ser vacinados. A poliomielite, também chamada de paralisia infantil, geralmente causa sintomas leves, mas pode atingir o sistema nervoso central e provocar paralisia e morte. Entre 1968 e 1989, o Brasil registrou mais de 26 mil infecções. A vacinação é hoje a única forma de prevenir a doença e evitar que ela volte a causar os surtos que marcaram o passado do país.
Notable Quotes
A pólio está controlada entre nós. No entanto, a situação mundial vem apresentando surtos localizados que preocupam e aumentam o risco de chegar ao país.— Isabela Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil voltou atrás na decisão de 2024? Não estava funcionando?
Funcionava em termos de proteção, mas o mundo mudou. Surtos começaram a aparecer em outros países, aumentando o risco de a doença voltar aqui. Além disso, a Organização Mundial de Saúde recomenda dois reforços, e o Brasil decidiu se alinhar a esse padrão.
E a vacina oral? Por que não usar mais?
Porque, embora muito raro, o vírus enfraquecido da gotinha pode sofrer mutações e causar a própria doença. Usando apenas a injetável, elimina-se esse risco praticamente por completo.
Crianças que já receberam a gotinha precisam de algo mais?
Crianças menores de 5 anos que não completaram as cinco doses devem ir ao posto de saúde para verificar se precisam de atualização. Cada caso é avaliado individualmente.
Por que a poliomielite ainda assusta se o Brasil está livre há 37 anos?
Porque o vírus ainda circula em alguns países. Uma criança não vacinada que viaje ou tenha contato com alguém infectado pode trazer a doença de volta. A vacinação é a única barreira.
Qual é o risco real de uma criança desenvolver forma grave?
Geralmente os sintomas são leves, mas o vírus pode atingir o sistema nervoso central e causar paralisia permanente ou morte. Por isso é chamada de paralisia infantil — o risco existe, mesmo que raro.