No palco de um debate presidencial, Flávio Bolsonaro revelou uma metamorfose política cuidadosamente construída: o candidato que um dia desabou diante das câmeras surgiu como um provocador calculado, armado com as táticas de Marçal, os gestos de Trump e os gestos herdados do pai. O confronto com Lula, realizado em 18 de outubro pela Band, expôs menos uma disputa de ideias do que uma colisão de temperamentos — e levantou a questão perene sobre se a provocação conquista corações ou apenas endurece posições já tomadas.
Performance de Flávio em debate revela influência de Marçal, Trump e Jair
Ele estava sendo treinado por alguém que manja
Como um candidato que desabou em um debate dez anos atrás consegue chegar tão preparado assim?
Treinamento focado. Flávio trabalhou com uma equipe em Brasília e São Paulo, e há evidências de que Pablo Marçal colaborou — não está claro se formalmente ou através de conselhos informais, mas Marçal estava lá no estúdio durante o debate, orientando.
Espera. Marçal estava orientando durante o debate? Isso é um fato confirmado ou é o que alguém viu?
Foi gravado. Marçal estava na plateia dando orientações. Mas a extensão exata do treinamento prévio é um pouco nebulosa — a campanha de Flávio diz que foi só a equipe interna, mas admite que ele pode ter ouvido conselhos de Marçal.
E por que Lula caiu tanto na armadilha?
Porque Flávio jogou um jogo diferente. Não respondeu perguntas, usou provocações, fez gestos de deboche. Lula reagiu emocionalmente em vez de manter o controle.
Mas as pesquisas mostram duas coisas diferentes, certo?
Exato. Uma pesquisa qualitativa da Quaest durante o debate mostrou Flávio à frente. Mas grupos focais indicaram que eleitores viram agressividade e violência nele.
Então não sabemos ainda se funcionou?
Não. Temos percepções contraditórias. A pesquisa da Quaest é uma amostra pequena durante o evento. Os grupos focais são também limitados. O que vai contar é o voto no domingo.
E há ainda a questão do PT ter protocolado uma ação no TSE sobre uso irregular das redes de Marçal para propaganda.
Isso pode mudar o resultado?
Tecnicamente sim, se o TSE cassar a chapa. Mas estamos falando de um processo que pode levar tempo. O segundo turno é domingo.
Então a estratégia de Flávio — provocação, desinformação, gestos de deboche — funcionou em manter Lula fora do jogo, mas não sabemos se converteu votos ou se afastou indecisos.
The Pulse
- Flávio chegou ao debate com um arsenal de frases prontas e provocações ensaiadas, enquanto Lula perdeu a compostura e entregou o ritmo do confronto ao adversário.
- Pablo Marçal, presente no estúdio como convidado, foi flagrado orientando o candidato durante o debate e antecipou a frase sobre condenação que Flávio repetiria minutos depois no palco.
- O PT protocolou ação no TSE pedindo a cassação da chapa, alegando uso irregular das redes de Marçal para propaganda eleitoral e desinformação.
- Pesquisa qualitativa da Quaest apontou Flávio levemente à frente em percepção de segurança e clareza, mas grupos focais sinalizaram que sua agressividade pode afastar eleitores indecisos.
- Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a dúvida central permanece sem resposta: a estratégia de confronto provocativo converte votos ou apenas consolida rejeições já existentes?
No palco de um debate presidencial, Flávio Bolsonaro revelou uma metamorfose política cuidadosamente construída: o candidato que um dia desabou diante das câmeras surgiu como um provocador calculado, armado com as táticas de Marçal, os gestos de Trump e os gestos herdados do pai. O confronto com Lula, realizado em 18 de outubro pela Band, expôs menos uma disputa de ideias do que uma colisão de temperamentos — e levantou a questão perene sobre se a provocação conquista corações ou apenas endurece posições já tomadas.
Dez anos atrás, Flávio Bolsonaro passou mal em um debate municipal no Rio de Janeiro. Na noite de 18 de outubro, ele subiu ao palco da Band como candidato ao segundo turno presidencial e era irreconhecível — seguro, provocador, treinado para cada movimento.
O senador repetia frases de efeito calibradas para as redes sociais, desviava de perguntas incômodas e mantinha uma postura de deboche constante contra Lula. O presidente petista caiu na armadilha: irritou-se repetidas vezes, perdeu a compostura e deixou Flávio ditar o ritmo do confronto.
Por trás da transformação havia três influências visíveis. Pablo Marçal, que em 2024 concorreu à prefeitura de São Paulo com táticas semelhantes, havia se aproximado de Flávio desde o início do ano. Dias antes do debate, confidenciou a um jornalista que haveria um 'elementozinho surpresa' e sugeriu estar colaborando no treinamento do senador. Ele chegou ao estúdio como convidado, foi gravado orientando o candidato na plateia e antecipou a frase sobre condenação que Flávio repetiria minutos depois. O PT protocolou ação no TSE pedindo a cassação da chapa por suposto uso irregular das redes de Marçal.
Havia também ecos de Trump: Flávio se posicionava atrás de Lula nas câmeras, fazendo gestos negativos com as mãos — exatamente como o republicano fez contra Hillary Clinton em 2016. Lula, exasperado, chegou a gritar que, se havia um palhaço no palco, não era ele. E havia o pai: Flávio escreveu 'corrupto' na própria mão e reproduziu cenas quase idênticas a gestos que Jair Bolsonaro usou em debates anteriores.
Ao final, Flávio comemorava como quem havia vencido. Uma pesquisa qualitativa da Quaest o mostrou levemente à frente em percepção de segurança e clareza. Mas grupos focais revelaram outro lado: participantes o viram como agressivo e violento, percepção que pode afastar indecisos antes do segundo turno de 25 de outubro. O que as pesquisas ainda não conseguem medir é se a provocação calculada vai converter votos ou apenas endurecer rejeições já formadas.
Dez anos atrás, Flávio Bolsonaro desabou em um debate municipal no Rio de Janeiro, passando mal diante das câmeras enquanto adversários o socorriam. Na noite de domingo, 18 de outubro, ele subiu ao palco da Band como candidato ao segundo turno presidencial contra Lula, e o homem que apareceu era irreconhecível — seguro, provocador, treinado para cada movimento.
O senador do PL chegou preparado para uma guerra de atrito. Repetia frases prontas que funcionavam bem nas redes sociais, desviava de perguntas incômodas e adotava uma postura de deboche constante contra o presidente petista. Lula, por sua vez, caiu na armadilha. Irritou-se repetidas vezes, perdeu a compostura e permitiu que Flávio ditasse o ritmo do confronto. Quem assistiu viu dois candidatos em estratégias completamente diferentes: um jogando xadrez provocativo, o outro reagindo emocionalmente a cada movimento.
Por trás dessa transformação havia três influências claras. Pablo Marçal, o influenciador digital que concorreu à prefeitura de São Paulo em 2024, havia se aproximado de Flávio desde o início do ano e ajudava a estruturar o Ministério da Prosperidade anunciado pela campanha. Dias antes do debate, Marçal confidenciou a um jornalista que haveria um "elementozinho surpresa" no encontro da Band e sugeriu que estava colaborando no treinamento do senador. Quando questionado pela Folha sobre que conselhos havia dado, respondeu por mensagem: "Pra ele desfrutar do debate. Não cair em provocação e responder rápido."
Marçal chegou ao estúdio como convidado de Flávio, acompanhado pelo ex-juiz Sergio Moro e pelo ex-procurador Deltan Dallagnol. Durante o debate, foi gravado na plateia dando orientações ao candidato. Antes do confronto começar, afirmou que Lula era a única pessoa no local já condenada por corrupção e lavagem de dinheiro — exatamente a frase que Flávio repetiria minutos depois. O influenciador, que em 2024 havia se notabilizado por disseminar mentiras contra Guilherme Boulos e por provocar o apresentador José Luiz Datena a ponto de levar uma cadeirada, agora produzia uma onda de conteúdos em apoio ao candidato. O PT protocolou uma ação no TSE pedindo a cassação da chapa por suposto uso irregular das redes sociais de Marçal para propaganda eleitoral e desinformação.
A influência de Marçal aparecia na tática retórica que Flávio adotava: o "whataboutism", aquele recurso de responder uma pergunta difícil com uma contra-acusação que muda de assunto. Mas havia também ecos de Donald Trump. Flávio se posicionava atrás de Lula no enquadramento das câmeras, fazendo gestos negativos com as mãos e balançando a cabeça — exatamente como Trump havia feito contra Hillary Clinton em 2016. Lula, exasperado, em um desses momentos gritou: "Se ele estiver zombando de mim, eu quero direito de resposta. Se tiver um palhaço aqui é ele, não sou eu."
E havia também o pai. Flávio escreveu com caneta na própria mão a palavra "corrupto" para dizer que tinha "duas letrinhas, PT" — um gesto que Jair Bolsonaro havia feito em debates anteriores. Repetiu também uma cena quase idêntica ao debate de 2022 entre Bolsonaro e Lula na Globo, quando o então presidente pediu que o petista ficasse mais perto. Desta vez, Flávio disse: "Fica aqui do meu lado, Lula, eu não sou um cara violento, não." Lula respondeu que queria "distância de miliciano."
Ao final do debate, Flávio pulava e comemorava com aliados como quem havia vencido. Nas redes sociais, seus apoiadores fizeram o mesmo, debochando da performance de Lula. Uma pesquisa qualitativa da Quaest realizada durante o confronto mostrou Flávio levemente à frente, visto como mais seguro, direto e claro, embora criticado por deixar perguntas sem resposta. Mas outro estudo com grupos focais indicou algo diferente: participantes viram o senador como agressivo e violento, uma percepção que poderia afastar eleitores indecisos antes do segundo turno marcado para o domingo, 25 de outubro. Um integrante da campanha de Flávio admitiu à Folha que o encontro não foi brilhante, mas considerou que o senador se mostrou mais sereno e controlado que Lula, conseguindo tirar o presidente da zona de conforto. O que as pesquisas ainda não conseguem medir é se essa estratégia de confronto provocativo vai converter votos ou se vai consolidar a rejeição entre quem ainda está indeciso.
Notable Quotes
Pra ele desfrutar do debate. Não cair em provocação e responder rápido— Pablo Marçal, sobre conselhos dados a Flávio
Se tiver um palhaço aqui é ele, não sou eu— Lula, irritado com gestos de deboche de Flávio durante o debate