Pelo menos 1.481 candidatos alteraram redes sociais declaradas ao TSE durante campanha

Candidatos que estavam ativos sem declará-los à Justiça Eleitoral
Renan Santos operou no Instagram e TikTok por mais de dez dias sem informar essas plataformas ao TSE.
Mark

Por que tantos candidatos mudaram seus registros de redes sociais? Isso é normal?

Mimi

Não é exatamente normal. O TSE permite alterações, mas a escala aqui é significativa — 7% de todos os candidatos. E alguns casos são extremos: um candidato passou de 6 para 99 endereços.

Luke

Mas o TSE diz que permite isso. Então tecnicamente não é irregularidade, certo?

Mimi

Tecnicamente não, se feito dentro das regras. Mas há uma diferença entre registrar um novo perfil e estar usando-o há dias sem declará-lo. Renan Santos fez exatamente isso.

Mark

E qual é o problema de usar um perfil sem declarar?

Mimi

O algoritmo. As plataformas removem perfis declarados dos seus sistemas de recomendação. Sem declaração, o perfil continua sendo recomendado normalmente, alcançando muito mais gente.

Luke

Mas como o TSE prova que alguém estava usando um perfil antes de declarar? Não é só a palavra de um contra a do outro?

Mimi

No caso de Renan, havia evidência pública — milhões de seguidores vendo conteúdo dele no Instagram e TikTok enquanto só o X estava registrado. Dias Toffoli viu isso como violação clara.

Mark

E os outros candidatos que a Folha identificou? Eles também estão sendo processados?

Luke

Aí está o problema. A reportagem não diz que nenhum deles foi sancionado. Renan foi porque é presidenciável e muito visível. Os outros?

Mimi

Alguns pediram retificação, mas os pedidos ainda não foram processados. Não sabemos se serão punidos ou se simplesmente regularizarão a situação.

Mark

Então o sistema funciona só quando há pressão pública?

Luke

Ou quando há poder político para agir. Toffoli recuou dias depois. Não sabemos se teria feito o mesmo com um candidato menos conhecido.

Mimi

O que é certo é que o TSE não respondeu perguntas sobre como fiscaliza isso. Isso deixa tudo mais opaco.

  • 1.481 candidatos (7% do total) alteraram registros de redes sociais entre 19 de agosto e 1º de setembro
  • 2.719 candidatos não informaram nenhum endereço na internet
  • André Fernandes (PL-CE) passou de 6 para 99 endereços; Ciro Gomes (PSDB-CE) de 9 para 66
  • Partido Missão teve 58% de seus 541 candidatos alterando declarações
  • Renan Santos foi de 2 para 18 perfis; sua campanha foi suspensa por Dias Toffoli e depois liberada

7% dos 20.765 candidatos registrados fizeram alterações em seus perfis de redes sociais; 148 adicionaram perfis após não declarar nenhum inicialmente. Candidatos como Renan Santos (Missão) aumentaram drasticamente seus registros, passando de 2 para 18 perfis, enquanto André Fernandes (PL-CE) foi de 6 para 99 endereços.

Ao menos 1.481 candidatos às eleições de 2026 alteraram seus registros de redes sociais junto ao TSE desde o início da campanha, enquanto 2.719 não informaram nenhum endereço na internet.

Quando o prazo para registro de candidaturas às eleições de 2026 se encerrou, em 15 de agosto, cada postulante havia declarado ao TSE quais seriam seus endereços na internet para fazer propaganda eleitoral. Mas nos dias seguintes, muitos deles mudaram de ideia. Ao menos 1.481 candidatos — cerca de 7% do total de 20.765 registrados — alteraram essa lista inicial entre 19 de agosto e 1º de setembro. Outros 2.719 nunca informaram nenhum endereço, nem site, nem perfil em rede social alguma.

Essas mudanças não significam automaticamente irregularidade. O TSE permite que candidatos registrem novos perfis de redes sociais na Justiça Eleitoral e só depois os utilizem para campanha. Há também casos legítimos em que o candidato simplesmente não tem presença digital a declarar. Mas o padrão revela algo mais complexo: candidatos que estavam ativos em plataformas sem tê-las informado, ou que adicionaram dezenas de canais de uma vez, sugerindo uma estratégia de expansão durante a campanha.

O caso mais visível é o do presidenciável Renan Santos, do partido Missão. Ele começou com apenas 2 perfis declarados ao TSE — apenas sua conta no X — apesar de estar ativo no Instagram e no TikTok. Depois de mais de dez dias de campanha operando nessas plataformas sem declará-las, Renan expandiu seu registro para 18 endereços. O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, interpretou isso como violação das regras e suspendeu sua campanha digital, além de proibi-lo de participar de debates e receber repasses do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. Renan contestou a decisão como persecutória e ilegal. Toffoli recuou na terça-feira, 1º de setembro, liberando o retorno de sua campanha na internet.

Entre os presidenciáveis, apenas três fizeram alterações. Além de Renan, Wilson Grassi, do Democrata, passou de 1 para 9 registros, e Lula, do PT, de 22 para 23, incluindo um novo site. Mas fora da disputa presidencial, as mudanças foram muito mais drásticas. André Fernandes, candidato a deputado federal pelo PL em Ceará, saltou de 6 para 99 endereços — a maioria deles canais de WhatsApp para campanha. Ciro Gomes, candidato a governador pelo PSDB, também no Ceará, foi de 9 para 66. Elmano de Freitas, candidato a governador pelo PT, saiu de 46 para 84.

O partido Missão liderou em proporção de candidatos que fizeram alterações. De seus 541 postulantes, 315 mudaram a declaração — 58% do total. Desses, 310 adicionaram novos perfis ou canais, 4 retiraram e 1 passou a declarar pela primeira vez. O PP vem em seguida, com 11,8% de alterações, seguido pela Rede, com 9,1%.

Além das mudanças formais, a Folha identificou uma série de candidatos que deixaram de declarar todos os seus perfis de campanha ou registraram endereços diferentes daqueles que realmente usam. Entre eles estão os deputados federais Nikolas Ferreira (PL), André Janones (Rede) e Tabata Amaral (PSB); o coronel Tadeu (PRD); Felício Ramuth (MDB), vice-governador de São Paulo na chapa de Tarcísio de Freitas; ACM Neto (União Brasil), ex-prefeito de Salvador que disputa o governo da Bahia; e os senadores André do Prado (PL-SP) e Décio Lima (PT-SC). Alguns desses políticos afirmaram ter solicitado retificação ao longo da campanha, mas os pedidos ainda não foram processados pela Justiça Eleitoral.

A legislação é clara: no momento do registro, todos os candidatos devem declarar qualquer endereço eletrônico que será usado para propaganda — sites, blogs, perfis em redes sociais, grupos de WhatsApp. As plataformas, que têm acordos de cooperação com a Justiça Eleitoral, usam essa lista para remover esses perfis de seus algoritmos de recomendação, garantindo que eleitores só vejam conteúdo de candidatos que seguem. É uma tentativa de criar paridade entre candidatos com muitos seguidores e aqueles menos conhecidos. Novos perfis criados durante a campanha devem ser declarados em 24 horas. Perfis pré-existentes que passarão a ser usados só podem começar a fazer propaganda 48 horas após o registro.

O TSE, questionado sobre como fiscaliza essas mudanças e qual é o prazo para analisar pedidos de alteração, não respondeu até o fechamento desta reportagem. Em comunicado anterior sobre o caso de Renan, o tribunal afirmou ter encaminhado orientações aos partidos, tribunais regionais e Ministério Público, alertando que informações incompletas ou incorretas sobre redes sociais violam a legislação eleitoral e podem resultar em multas. A obrigação de informação, segundo o TSE, deve ser cumprida no momento do registro, e é vedado usar aplicações ou endereços não comunicados à Justiça Eleitoral durante a campanha.

A informação incompleta ou incorreta sobre as redes sociais utilizadas por candidatas e candidatos viola a legislação eleitoral e pode acarretar multa para os envolvidos
— TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
Renan afirmou ser uma decisão ilegal e persecutória
— Renan Santos, em resposta à suspensão de sua campanha digital
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