O teu nome brilha no céu — e fiquei comovido
Investigador português tem asteroide (32599 Pedromachado) nomeado em sua honra pela União Astronómica Internacional, orbitando entre Marte e Júpiter. Especialista em atmosferas planetárias e exoplanetas, participa em missões internacionais da ESA e agências espaciais, com forte componente portuguesa em projetos como EnVision.
- Asteroide 32599 Pedromachado orbita entre Marte e Júpiter
- Investigador no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, professor na Universidade de Lisboa
- Especialista em atmosferas planetárias e exoplanetas, participa em missões Akatsuki, Ariel, Mars Express, ExoMars e EnVision
- Nascido em Ponta Delgada, doutorado pelo Observatório de Paris e Universidade de Lisboa
Pedro Mota Machado, investigador em astrofísica e professor na Universidade de Lisboa, é homenageado com asteroide com seu nome enquanto mantém forte ligação aos Açores através de pesquisa e divulgação científica.
Pedro Mota Machado cresceu em Ponta Delgada, numa infância que ele descreve com a precisão de quem ainda sente o peso daqueles dias — tempo para tudo, escola de manhã, ténis ao fim da tarde, amigos, o Clube Naval. Havia espaço para respirar. Havia um avô com uma pequena quinta, moedas ganhas com trabalho honesto, e um rapaz de sete anos que juntou essas moedas para comprar um livro sobre o sistema solar. Esse livro ainda está na sua biblioteca. Não é um detalhe menor. É o ponto de partida de tudo o que viria depois.
Hoje, Mota Machado é investigador no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Pertence à União Astronómica Internacional. É doutorado em astrofísica pelo Observatório de Paris e pela Universidade de Lisboa. Trabalha em projetos internacionais com agências espaciais de vários continentes. E tem um asteroide com o seu nome — o 32599 Pedromachado, que orbita o Sol entre Marte e Júpiter. Mas quando fala dos Açores, a voz muda. Fica mais lenta, mais cheia de saudade. Diz que gostaria de viver lá, fazendo o que faz, mas que não consegue. Volta muitas vezes, e cada regresso é uma satisfação profunda. "É a minha terra", diz, e o peso daquelas quatro palavras é evidente.
A astrofísica chegou de formas inesperadas. Uma série de televisão — "Cosmos", com Carl Sagan — o deixou fascinado quando era criança. Depois, há cerca de um mês, numa conferência de ciências planetárias em Helsínquia, encontrou-se com Lisa Kaltenegger, diretora da Fundação Carl Sagan em Nova Iorque, com quem já havia colaborado e agora enceta uma nova colaboração. Mota Machado adora coincidências. Diz que quando há muitas coincidências em ciência, é sinal de que estamos à beira de uma descoberta importante. Mas há também a questão mais profunda: como é que um açoriano, cujo céu está tantas vezes nublado, cujas estações mudam quatro vezes num dia, fica fascinado pelo cosmos? Ele responde que talvez tenha a ver com estar numa ilha, com ter mais tempo para pensar naquilo que é incrível — o facto de existirmos.
O asteroide foi uma surpresa. Os colegas, do Observatório de Paris, de Espanha, dos Estados Unidos, propuseram o seu nome sem lhe dizerem nada. Ele não esperava. Não é a sua área de especialidade — ele trabalha com atmosferas planetárias, com Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, com as luas especiais desses planetas, com exoplanetas que orbitam outras estrelas. Mas ofereceu os dados que tinha recolhido aos especialistas, e eles, como ele diz com humor, "os marotos", decidiram dar-lhe o asteroide. Um asteroide que, segundo contam, é muito feio. "Portanto, sai ao pai", brinca. Quando recebeu a chamada — "From now on, your name shines on the sky" — ficou comovido. Confessa isso sem hesitação.
Mota Machado é também um viajante apaixonado. Esteve em Mauna Kea, no Havai, a fazer observações com colegas americanos e franceses. Levou chá dos Açores, como sempre faz — porque é uma desculpa para contar histórias e falar da sua terra. Quando as observações correram bem, fizeram um convívio. Os colegas americanos trouxeram um doce tradicional local. Era malassada açoriana. Há muitos descendentes de açorianos no Havai, e naquele momento, o chá açoriano encontrou-se com as malassadas açorianas, um reencontro improvável a milhares de quilómetros de casa. Há pouco tempo esteve na Lapónia a ver a aurora boreal — "uma coisa artística", diz, "parece que estamos banhados em cores". Continua a ser muito criança em algumas coisas, admite. Continua a ficar extasiado com as maravilhas da natureza.
Além da ciência, Mota Machado escreve. Publicou "Quatro Ventos, Sete Mares — O mundo pelos olhos de um viajante". Fez exposições de fotografia sobre viagens. Colaborou com o irmão, Luís Mota Machado, e com Alexandre Coutinho no livro "A Irmandade dos Romeiros". Tudo isto está ligado, diz ele. A ciência, a escrita, as viagens, a fotografia — tudo interligado. É uma das belezas da ciência, quando começamos a ver que não é por acaso que está tudo mesmo interligado. Isto vem de um velho de São Miguel, Manuel Ferreira, jornalista e escritor açoriano que faleceu em 2012, que o acolhia em casa e passava horas a conversar com ele. "É como se fosse o meu padrinho literário", diz com saudade.
Mota Machado trabalha em várias missões internacionais — Akatsuki do Japão, Ariel da ESA, Mars Express. No último ano foi convidado para a missão ExoMars e faz parte da EnVision, também da ESA, que está em construção e tem uma componente portuguesa muito forte. A EnVision vai ser lançada para estudar Vénus, a ligação entre a superfície e a atmosfera. Vê com bons olhos o facto de os Açores terem um papel ativo no desenvolvimento do setor espacial português. Mas insiste que as coisas têm de ser feitas de forma correta. A população local deve estar sempre informada, deve participar nas decisões, porque é a sua terra. As questões ambientais e ecológicas devem ser sempre protegidas. Se achasse que as coisas não estavam a ser bem feitas, seria o primeiro a ser contra, e a explicar porquê. Agora diz que as coisas estão a ser feitas de forma equilibrada, de acordo com a proteção da natureza e das pessoas. Isso pode ser muito benéfico para o desenvolvimento tecnológico, social e cultural dos Açores.
Notable Quotes
Tenho pena de não poder viver nos Açores, fazendo aquilo que faço, mas volto muitas vezes com uma grande satisfação. É a minha terra.— Pedro Mota Machado
Está tudo interligado. Isto é uma das belezas da ciência, quando começamos a ver que não é por acaso que está tudo mesmo interligado.— Pedro Mota Machado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que um miúdo que cresceu num sítio onde o céu está sempre nublado fica obcecado com as estrelas?
Acho que tem a ver com estar numa ilha. Há tempo para pensar. E depois há aqueles momentos raros em que o céu se abre, e quando se abre, é como se o universo inteiro estivesse ali à sua espera. Mas também foi um livro, aos sete anos. Um livro sobre o sistema solar que ainda tenho.
E o asteroide? Isso deve ter sido o pico da carreira.
Não esperava nada. Os colegas fizeram-o sem me dizerem. Quando recebi a chamada — "From now on, your name shines on the sky" — fiquei comovido. Mas sabe, o asteroide é feio, segundo dizem. Portanto, sai ao pai. Há humor nisso tudo.
Porque é que leva sempre chá dos Açores para as observações no Havai?
Porque é uma desculpa para contar histórias. E porque os Açores vêm comigo para todo o lado. No Havai encontrei malassadas açorianas — descendentes de açorianos que levaram a comida para lá. Foi um reencontro estranho e bonito.
Sente que está dividido entre dois mundos — a ciência internacional e os Açores?
Não é divisão. É tensão, talvez. Gostaria de viver lá, fazendo isto que faço. Mas não consigo. Então volto muitas vezes, e cada vez que volto é com uma satisfação profunda. É a minha terra. Tudo o que faço — a escrita, as viagens, a ciência — vem dali.
O que é que o avó lhe ensinou que ainda usa todos os dias?
Uma relação de equilíbrio com a natureza. Ele tinha uma quintinha, e eu ajudava. Aprendi que não se tira mais do que se precisa. Que há um ritmo. Isso está em tudo o que faço agora, mesmo na ciência.