Peça 'Lia Lia' com Camila Pitanga e Bete Coelho explora multiplicidade feminina

Se você dá a comida toda mastigada, a pessoa não tem o prazer de saborear
Bete Coelho recusa o didatismo e defende uma dramaturgia que exige trabalho do espectador.
Mark

Por que duas atrizes para o mesmo papel? Não seria mais simples uma só?

Mimi

Porque Lia não é uma coisa só. O livro tem 99 narrativas diferentes, fragmentadas. Duas atrizes permitem que o público veja a multiplicidade acontecendo em tempo real, não apenas como ideia.

Mark

E como as duas trabalham juntas em cena?

Mimi

Elas não competem. Uma traz inocência, a outra visceral idade. Às vezes estão juntas, às vezes uma comenta o que a outra faz. O coro de oito atrizes também amplifica essas vozes, traduz as emoções em algo maior.

Mark

Essa coisa dos barbantes no cenário parece incômoda. É proposital?

Mimi

Totalmente. Coelho diz que não quer facilitar o corpo do ator. Os obstáculos criam estranheza, desequilíbrio. A vida não é confortável, então por que a peça deveria ser?

Mark

E o público? Como reage a uma narrativa tão fragmentada, sem transições?

Mimi

Precisa trabalhar. Precisa preencher os vazios, imaginar as palavras que não são ditas. Não é didática, não mascara nada. Exige lucidez de quem assiste.

Mark

Isso não afasta as pessoas?

Mimi

Talvez algumas. Mas para quem fica, há identificação profunda. Porque Lia é todas as mulheres e nenhuma em particular. É você, é sua mãe, é qualquer um na plateia.

  • Duas atrizes dividem o papel de Lia: Camila Pitanga (inocência e docilidade) e Bete Coelho (visceral e vulcânica)
  • Baseado no romance 'Lia: Cem Vistas do Monte Fuji' de Caetano W. Galindo, com 99 narrativas fragmentadas
  • Coro de oito atrizes, cenografia de barbantes de Daniela Thomas e Felipe Tassara
  • Estreia no Centro Cultural Fiesp em sexta-feira, após excursão por Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto

Duas atrizes dividem o papel de Lia, cada uma trazendo nuances distintas: Camila Pitanga empresta inocência e docilidade, enquanto Bete Coelho a torna visceral e vulcânica. A peça utiliza estrutura fragmentada inspirada no romance 'Lia: Cem Vistas do Monte Fuji', com coro de oito atrizes, cenografia de barbantes e linguagem cinematográfica para amplificar emoções.

Espetáculo baseado em romance de Caetano W. Galindo chega ao Centro Cultural Fiesp com duas atrizes interpretando a mesma personagem, explorando diferentes facetas de uma mulher através de narrativa fragmentada e linguagem teatral inovadora.

Na cozinha de uma casa qualquer, dois corpos se movem em conflito silencioso. Os gestos são amplos, carregados de anos de mágoas e ressentimentos, mas não há gritos. Apenas sussurros que transformam a briga num segredo compartilhado com quem assiste. A violência real não está nas palavras ditas, mas naquelas que cada espectador imagina ouvir. Essa cena é o coração de "Lia Lia", espetáculo que chega ao Centro Cultural Fiesp nesta sexta-feira, convocando o público a preencher os vazios e montar seu próprio mosaico narrativo.

A produção traz Bete Coelho e Camila Pitanga dividindo o mesmo papel, mas cada uma oferece à personagem um temperamento distinto. Pitanga empresta inocência e docilidade; Coelho a torna visceral, vulcânica. Essa multiplicidade não é acaso. Ela vem do romance "Lia: Cem Vistas do Monte Fuji", de Caetano W. Galindo, colunista deste jornal, lançado há dois anos. A obra narra a vida de Lia através de 99 narrativas fragmentadas e independentes, cada uma trazendo um pedaço da protagonista, formando uma miscelânea de tons emocionais e memorialísticos. Coelho, que também dirige a peça ao lado de Gabriel Fernandes, leu o PDF antes da publicação e se viu refletida na personagem. "Houve um contato pessoal, eu me apropiei muito daquilo", afirma.

A peça conduz o público por essa jornada fragmentada. Vemos a relação difícil de Lia com a mãe, com colegas de escola. Há cenas sobre maternidade solo após separação, situações comuns na vida de muitas mulheres, mas que ganham peso especial aqui pela linguagem empregada. Uma briga de casal lembra um filme mudo, onde gestos têm primazia. Noutra cena, o toque de um rapaz no cabelo de Lia a lança numa jornada que se assemelha à descoberta do prazer. Coelho se contorce sobre uma cadeira, o olhar tomado por deleite e espanto, enquanto um coro de oito atrizes traduz a catarse em cena. "Eu sempre quis trabalhar com um coro que comenta, reverbera e amplia a situação", diz a atriz. O grupo reúne duas artistas da Teatrofilme, companhia que Coelho ajudou a fundar há 17 anos, e seis profissionais do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi.

A cenografia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, reforça essa estética de estranheza. Dezenas de barbantes descem do teto e se conectam a mesas e cadeiras espalhadas pelo palco. As atrizes interagem com esses fios que ora parecem uma cela aprisionadora, ora lembram camisas de força, numa luta constante contra o cenário. "Eu aprendi há muito tempo que você não deve facilitar o corpo do ator", explica Coelho. "Você tem que criar obstáculos e desequilíbrios para causar estranheza." A narrativa também desafia o público com uma estrutura não linear, incorporando cortes secos da linguagem cinematográfica, sem transições entre cenas.

Coelho não economiza na emoção e foge do didatismo. "Não me interessa esse riso de canto de boca, quero o riso escancarado, o choro, a lágrima", afirma. Para ela, simplificar informações é um efeito das comodidades criadas pela tecnologia. "Se você dá a comida toda mastigada, a pessoa não tem o prazer de saborear. Acho que é um pensamento contemporâneo que tem acontecido com essa inércia, com essa preguicinha de sair um pouco do conforto." Camila Pitanga compartilha visão semelhante. Para ela, é preferível a dificuldade da lucidez à passividade da alienação. "É uma luta você se manter lúcido nos dias de hoje. Mas essa lucidez que dói dá chance de mais autonomia, do exercício pleno da liberdade."

A Lia de Pitanga parece fascinada por uma liberdade recém-descoberta. Ela dorme nua pela primeira vez numa noite de calor inclemente, mas também experimenta os sacrifícios inerentes ao puerpério e à maternidade solo. É como se a protagonista encarnasse diferentes mulheres numa mesma vida. "Nenhuma pessoa é uma coisa só. Somos diferentes a depender da relação que estabelecemos", diz Pitanga. "A gente fala dessa multiplicidade e faz com que a Lia seja parte desse caleidoscópio." Esse caráter múltiplo é justamente o que gera identificação. Gabriel Fernandes, codiretor, resume: "Lia pode ser você, pode ser eu, pode ser sua mãe, sua avó. Óbvio que tem um enfoque feminino, mas ela pode ser qualquer pessoa que esteja sentada na plateia."

Não queríamos achatar, tentar fazer igual, com voz e corpo semelhantes, mas ter essa multiplicidade que vem do livro
— Bete Coelho
Nenhuma pessoa é uma coisa só. Somos diferentes a depender da relação que estabelecemos
— Camila Pitanga
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