Paulistanos enfrentam filas e aglomeração para receber segunda dose da vacina

Idosos com problemas de saúde desistem de completar vacinação devido às condições inadequadas nos postos, comprometendo a imunização da população vulnerável.
É muita bagunça e desorganização para poucos funcionários
Servidora que esperou mais de uma hora e meia em fila desorganizada relata frustração com atendimento.
Mark

Por que exatamente as pessoas estão desistindo de tomar a segunda dose?

Mimi

Não é preguiça. É que muitos são idosos com problemas de saúde — coluna, artrite — e não conseguem ficar em pé por uma hora ou mais em aglomeração. O medo do vírus também pesa. Eles veem aquilo lotado e pensam: não vale a pena.

Mark

E a prefeitura não sabia que isso ia acontecer?

Mimi

Sabia. Mas a estrutura não acompanhou. Quando começaram a abrir para faixas etárias mais jovens, a demanda explodiu. Colocaram 740 mil pessoas novas no calendário em uma semana. Os postos não estavam preparados.

Mark

Então é um problema de planejamento?

Mimi

Mais que isso. É um problema de espaço físico mesmo. Algumas UBSs são pequenas demais. Não dá para separar filas de primeira e segunda dose quando o pátio cabe meia dúzia de pessoas. E tem mais: a mesma sala que vacina também faz coleta de exame e distribui remédio.

Mark

Qual é o risco real disso?

Mimi

Pessoas vulneráveis não completam a vacinação. Ficam com uma dose só, menos protegidas. E a cada dia que passa sem tomar a segunda, o risco aumenta. Além disso, quando você desorganiza assim, cria desconfiança. As pessoas começam a achar que o sistema não funciona.

Mark

A prefeitura ofereceu alguma solução?

Mimi

Ofereceu, mas são soluções que não resolvem o problema real. Filômetro online, pré-cadastro, ir à tarde. Tudo isso ajuda um pouco, mas não muda o fato de que o espaço é pequeno e tem muita gente.

Mark

E agora? Isso vai melhorar?

Mimi

A prefeitura disse que vai reorientar as unidades para priorizar idosos. Mas enquanto não aumentar o número de profissionais e não separar melhor os espaços, vai continuar assim.

  • Rosiclei Pacheco, 66 anos, desistiu de tomar segunda dose na UBS Humberto Cerruti por dor nas costas e aglomeração
  • Cerca de 740 mil moradores entre 30 e 34 anos foram incluídos no calendário de vacinação na mesma semana
  • Kátia Vidal esperou 1h45 na fila na terça-feira e desistiu; tentou novamente na quarta-feira
  • Folha visitou cinco postos de vacinação e encontrou desorganização em unidades da zona leste

Idosos e pessoas vulneráveis abandonam filas após longas esperas e aglomeração em UBSs da zona leste paulista. Falta de profissionais de saúde e espaços inadequados causam lentidão, especialmente no horário de almoço e com inclusão de novas faixas etárias.

Moradores de São Paulo enfrentam filas desorganizadas, aglomeração e falta de separação entre primeira e segunda doses nos postos de vacinação, levando alguns a desistirem da imunização.

Na quarta-feira à tarde, Rosiclei Pacheco chegou à UBS Prof. Humberto Cerruti na Vila Cisper, zona leste de São Paulo, para receber sua segunda dose de vacina contra a Covid-19. Aos 66 anos, com problemas crônicos na coluna, ela não conseguia ficar muito tempo em pé. O que encontrou foi caos: filas desorganizadas onde pessoas que buscavam a primeira dose se misturavam com quem vinha para a segunda, tudo isso no mesmo espaço. Uma terceira fila se formava para quem queria a vacina contra gripe. Depois de um tempo esperando, o medo da aglomeração a venceu. Ela desistiu e foi embora, prometendo voltar quando as coisas estivessem melhores. Minutos depois, outra mulher fez o mesmo.

Essa cena se repetiu em vários pontos da cidade. A Folha visitou cinco locais de vacinação em São Paulo e encontrou um padrão preocupante: desorganização generalizada, ausência de filas separadas para primeira e segunda doses, profissionais de saúde insuficientes e uma demanda que crescia a cada dia. Na UBS Humberto Cerruti, os funcionários se revezavam entre atender pessoas dentro da unidade e outras que chegavam de carro em um espaço improvisado do lado de fora. Um funcionário revelou que os piores momentos eram no início da tarde, quando o número de profissionais caía durante o horário de almoço.

O problema era ainda mais grave porque a maioria dos que buscavam a segunda dose eram idosos e pessoas vulneráveis, justamente quem mais precisava de cuidados. Eles se viam forçados a compartilhar espaço com pessoas mais jovens que começavam sua imunização naquela semana. Na terça-feira anterior, a prefeitura havia incluído cerca de 740 mil moradores entre 30 e 34 anos no calendário de vacinação, aumentando ainda mais a pressão sobre os postos.

Na UBS de Itaquera, também na zona leste, a situação era ainda mais confusa. O espaço onde as vacinas eram aplicadas também funcionava como local de coleta de material para exames clínicos e ficava ao lado da farmácia que distribuía medicamentos gratuitos. Tudo muito próximo, tudo gerando aglomeração. Kátia Vidal, servidora de 53 anos, tentava pela segunda vez receber sua segunda dose. No dia anterior, havia esperado uma hora e quarenta e cinco minutos na fila e desistido porque o horário de almoço estava acabando. Quando conversou com a reportagem, segurava a senha número 63. Minutos depois, recebeu a numeração 58, mas sem certeza se conseguiria tomar a Coronavac. "É muita bagunça e desorganização. Vejo que são muitos procedimentos para poucos funcionários", desabafou.

Kátia também havia notado outro problema: quando veio receber a primeira dose, a unidade de Itaquera só começou a aplicar as vacinas contra Covid-19 duas horas depois de abrir as portas. A demanda por outras vacinas era tão grande que a Covid ficava em segundo plano. A reportagem visitou ainda três outras unidades — a UBS Dr. Humberto Pascale em Santa Cecília, a UBS Dr. Manoel Joaquim Pera na Vila Madalena e o Centro de Saúde da Dr. Arnaldo — e encontrou ali filas organizadas, funcionários dedicados ao registro das doses nos cartões de vacinação. A diferença era visível.

A prefeitura, sob gestão de Ricardo Nunes, oferecia algumas soluções. Havia o Filômetro, uma ferramenta online que informava se os postos estavam lotados. Recomendava-se ir à tarde, quando a procura caía. Havia também o pré-cadastro no site Vacina Já para agilizar o atendimento. Mas essas medidas não resolviam o problema estrutural: espaços físicos pequenos demais para uma demanda crescente.

A Secretaria Municipal de Saúde respondeu às críticas dizendo que reorientaria as unidades da zona leste para priorizar idosos nas filas. Admitiu que nem todas conseguiam separar filas por falta de espaço. A Coordenadoria Regional de Saúde Leste afirmou que havia triagem e direcionamento para filas distintas na UBS Humberto Cerruti, que o quadro de funcionários estava completo e que o volume de atendimento era esperado conforme a vacinação avançava para idades menores. Disse também que a UBS de Itaquera iniciava atendimentos às 7 da manhã. Mas para quem estava lá, esperando em pé, com dor nas costas ou cansaço, essas explicações não mudavam a realidade vivida.

Não vou esperar não. Tenho problema de coluna e não aguento ficar muito tempo em pé nessa fila
— Rosiclei Pacheco, 66 anos, dona de casa
É muita bagunça e desorganização. Eu vejo também que são muitos procedimentos para poucos funcionários
— Kátia Vidal, 53 anos, servidora
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