Pai doa parte do fígado ao filho de 7 anos em transplante que salva vida

Criança de 7 anos enfrentou risco de morte por cirrose hepática, necessitando de transplante urgente; pai submeteu-se a procedimento cirúrgico para salvar vida do filho.
Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou
O pai de Felipe reflete sobre como a doação de parte do fígado transformou a relação entre os dois.
Mark

Por que a doação pediátrica é tão mais difícil que a de adultos?

Mimi

Quando uma criança morre de forma súbita — afogamento, acidente — a família está em choque absoluto. Pedir autorização para remover órgãos naquele momento é muito mais difícil do que em morte encefálica de adulto.

Luke

Mas espera — os números dizem que apenas 2% das notificações de doadores são crianças. Isso é porque há menos morte encefálica infantil, ou porque as famílias recusam mais?

Mimi

Provavelmente os dois. Morte encefálica infantil é rara. Mas quando acontece, a recusa é maior que nos adultos.

Mark

E quanto aos doadores vivos? Por que não há mais casos como o do Felipe?

Mimi

Porque doador vivo é uma decisão voluntária e consciente. Nem todo pai está disposto ou saudável o suficiente para fazer isso. O pai do Felipe teve que emagrecer, tinha arritmia cardíaca — foi um risco.

Luke

Ele realmente tinha arritmia e fez a cirurgia mesmo assim? O texto diz que ele decidiu "ir assim mesmo", mas não fica claro se os médicos aprovaram ou se ele simplesmente aceitou o risco.

Mimi

O texto não deixa claro. Ele fez a cirurgia e se recuperou bem, mas sim, há uma ambiguidade ali sobre se foi uma decisão médica ou pessoal.

Mark

Qual é o tamanho do problema? Quantas crianças estão esperando?

Luke

O texto não diz. Ele dá números de transplantes realizados, mas não de crianças na fila de espera. Sabemos que há um problema, mas não sabemos a escala exata.

Mimi

É um vazio importante. Sabemos que é um desafio, mas não temos o número de crianças que morrem esperando.

  • Felipe Oliveira Costa, 7 anos, recebeu transplante de fígado após desenvolver cirrose por reação medicamentosa em abril de 2025
  • Seu pai, Abimael Maurício Oliveira Silva, 37 anos, doou parte do próprio fígado após nenhum doador falecido compatível aparecer
  • Apenas 2% das notificações de doadores falecidos no Brasil referem-se a crianças
  • Em 2025, famílias recusaram doações em 45% dos casos; recusa é ainda maior em casos pediátricos
  • Brasil realizou 589 transplantes pediátricos em 2025 (211 de fígado, 315 de rim, 61 de coração)

Felipe recebeu transplante de fígado após desenvolver cirrose por reação medicamentosa; seu pai doou parte do órgão após compatibilidade com doador falecido não aparecer. Apenas 2% das notificações de doadores falecidos referem-se a crianças; recusa familiar é maior em casos pediátricos devido ao trauma de morte encefálica infantil.

Pai realiza doação de parte do fígado ao filho de 7 anos com cirrose hepática, destacando desafios na doação pediátrica no Brasil onde famílias recusam 45% das doações.

Felipe Oliveira Costa tem sete anos e agora pode correr no quintal de casa em Praia Paulistinha, um bairro no extremo sul de São Paulo. Quatro meses atrás, ele saiu de um centro cirúrgico com um fígado novo — metade dele vindo de seu próprio pai.

Tudo começou em abril de 2025, quando Felipe desenvolveu a síndrome de Stevens-Johnson, uma reação grave a um medicamento. A internação foi rápida, mas uma semana depois os médicos descobriram que o fígado havia sido danificado. Seis meses de tratamento se seguiram, e o quadro evoluiu para cirrose hepática. Sua mãe, Thais Angela da Costa, uma esteticista de 37 anos, viu o filho desenvolver ascite — aquele inchaço abdominal que sinaliza falência do órgão — e insuficiência hepática. Sem um transplante, os médicos foram claros: a criança corria risco de morte.

Felix foi internado no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus e colocado na fila de espera. Os médicos do Hospital Sírio-Libanês, onde o procedimento seria realizado, ofereceram à família duas possibilidades: esperar por um fígado de doador falecido que fosse compatível com o tamanho e peso da criança, ou considerar um doador vivo. Quando nenhum órgão de cadáver apareceu, o pai de Felipe, Abimael Maurício Oliveira Silva, um auxiliar de almoxarifado de 37 anos, se ofereceu para doar parte do seu fígado ao filho.

Silva precisou se preparar. Havia parado de beber seis meses antes, mas o médico exigiu mais: ele precisava emagrecer de 106 quilos para pelo menos 90. Tinha arritmia cardíaca, uma complicação que o deixava em risco cirúrgico, mas decidiu prosseguir mesmo assim. "Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito", disse depois, descrevendo como o filho agora o liga constantemente, mudando a dinâmica familiar. "Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias."

O procedimento funcionou. Pai e filho se recuperaram bem. Silva retomou suas atividades cotidianas. Felipe permanece em casa, faz acompanhamento médico regular e voltará à escola no próximo ano. Segundo José Sampaio, cirurgião do Hospital Pequeno Príncipe no Paraná, a porção de fígado doada por um adulto a uma criança é pequena e causa impacto mínimo na saúde do doador — o órgão remanescente cresce e se expande para compensar a perda.

Mas a história de Felipe é uma exceção em um sistema sob pressão. Apenas 2% das notificações de doadores falecidos no Brasil referem-se a crianças, uma proporção que reflete tanto a raridade de morte encefálica infantil quanto a dificuldade de compatibilidade de tamanho. Em 2025, as famílias de potenciais doadores recusaram doações em 45% dos casos — e nos casos envolvendo crianças, a recusa é ainda maior. Quando uma criança morre de forma súbita, geralmente por afogamento ou acidente, a família está devastada. Pedir autorização para remover órgãos naquele momento é enfrentar uma resposta negativa na maioria das vezes, explica Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Sírio-Libanês.

O Brasil tem 829 serviços de saúde autorizados a fazer transplantes, mas apenas 70 realizaram transplantes pediátricos em 2025. Naquele ano, foram feitos 589 transplantes pediátricos de órgãos — 211 de fígado, 315 de rim, 61 de coração e dois de pulmão. De janeiro a julho de 2026, o país realizou 278 transplantes pediátricos, incluindo 114 de fígado. Mais da metade desses procedimentos usa órgãos de doadores entre 11 e 17 anos, uma faixa etária que também enfrenta desafios de compatibilidade.

Os especialistas apontam que a solução passa por educação. Para adultos, o principal motivo de recusa é o desconhecimento sobre a vontade do potencial doador em vida — muitas famílias simplesmente não sabem o que a pessoa teria querido. Campanhas de esclarecimento poderiam estimular conversas familiares sobre doação antes de uma crise. Para Fonseca, a doação de órgãos é o momento mais profundo da relação entre seres humanos, um ato de se colocar no lugar do outro. Mas esse entendimento ainda não é universal, e enquanto isso, crianças como Felipe esperam.

Não tem coisa mais gratificante do que ver ele felizão desse jeito. Ele acha que eu o salvei, mas foi ele que me salvou e me salva todos os dias.
— Abimael Maurício Oliveira Silva, pai de Felipe
Grande parte das mortes encefálicas infantis acontece por afogamento ou um acidente que determina uma parada cardiorrespiratória. A família fica muito abalada e, quando você faz a abordagem, muitas vezes a resposta é negativa.
— Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês
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